Presente de Natal
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12 sugestões de livros para o seu Natal

Autores da Fundação recomendam leituras para a quadra natalícia

António Feijó, Catherine Moury, Desidério Murcho, Eduardo Cintra Torres, Fernando Sobral, Filipa Raimundo, Iva Pires, João Villalobos, Luciano Amaral, Luísa Lima, Maria João Valente Rosa, Mariana Correia Pinto e Rita Canas Mendes recomendam a leitura de livros publicados em Portugal.

Em Defesa da Comida: Manifesto de um Consumidor
Michael Pollan
2010, Dom Quixote

Recomendação de Iva Pires, autora do ensaio Desperdício Alimentar: «Michael Pollan, jornalista norte-americano e professor na Universidade de Berkeley, escreveu vários livros, alguns dos quais receberam prémios, sobre o tema da comida. Entre eles estão The Botany of Desire (2001), The Omnivore's Dilemma (2006) In Defense of Food: An Eater's Manifesto (2008), Food Rules: An Eater's Manual (2009) e Cooked: A Natural History of Transformation (2013). No livro Em Defesa da Comida: Manifesto de um Consumidor, Michael Pollan discute, de uma forma crítica e com algum humor, as principais transformações que ocorreram na nossa alimentação pela intervenção da indústria alimentar e do nutricionismo. Por um lado, os nutrientes assumiram um lugar de destaque e termos como polinsaturado, hidratos de carbono, carotenoides ou antioxidantes substituem, na linguagem contemporânea, o nome dos alimentos, que são escolhidos porque «têm baixo teor em gordura», contêm «ácidos gordos Omega-3», ou porque «ajudam a reduzir o colesterol», deixando-nos dependentes da publicidade para decidir o que comer. Por outro lado, os alimentos que ingerimos actualmente não são produtos da natureza, mas sim da ciência alimentar, são processados e produzidos em grandes quantidades pela industria alimentar, que todos os anos acrescenta centenas de novos produtos, e campanhas de publicidade encarregam-se de os tornar indispensáveis à nossa alimentação (saudável). Como refere Pollan no seu livro «regra geral, é mais fácil pespegar um anúncio de “benéfico para a saúde” numa caixa de cereais açucarados do que numa batata ou numa cenoura crua. O perverso resultado disto é que os alimentos mais saudáveis à venda no supermercado estão remetidos ao silêncio da secção de frescos, mudos como vítimas de um AVC, enquanto, alguns corredores à frente, na zona dos cereais, os Cocoa Puffs e os Lucky Charms gritam os seus “benefícios de cereais integrais” aos consumidores hesitantes». Paradoxalmente, ou talvez não, nunca se falou tanto em alimentação saudável nas sociedades ocidentais (referindo-se aos EUA o autor fala de uma nação ortoréxica, obcecada por uma alimentação saudável) e a oferta de dietas e alimentos (saudáveis) não parece parar de crescer, mas 4 das 10 principais causas de morte são doenças crónicas associadas à alimentação.»

Ética no Mundo Real
Peter Singer
2017, Edições 70

Recomendação de Desidério Murcho, autor de Filosofia em Directo: «Peter Singer é um dos mais relevantes filósofos contemporâneos. Foi responsável pela reactivação da ética aplicada que, devido a preconceitos insustentáveis, tinha sido afastada da reflexão filosófica aturada, e o seu trabalho caracteriza-se pelo exercício cuidadoso, honesto e imparcial das razões a favor e contra várias questões morais fundamentais: as nossas obrigações para com os mais pobres, a eutanásia, o aborto, os direitos dos animais não-humanos e a ética da alimentação, entre outros temas. O seu livro originalmente publicado em 1979, Ética Prática, publicado entre nós pela Gradiva, foi o primeiro estudo influente nesta área, e é ainda uma leitura fundamental (uma edição revista foi publicada em 2011). O seu mais recente livro publicado entre nós, Ética no Mundo Real, é um exemplo maravilhoso de como se pode escrever para o grande público sem perder a lucidez e o rigor. Mas é também importante porque mostra a atenção que Singer sempre dispensa aos factos relevantes, afastando-se assim da irresponsabilidade epistémica rotineira que consiste em falar do mundo sem saber acerca dele senão o que se lê nos jornais (e que sistematicamente nos dá uma imagem estatisticamente errada do mundo). Uma leitura muitíssimo recomendada, e uma porta de entrada para quem não conhece os outros trabalhos mais exigentes do autor.»

A Campanha do Argus
Alan Villiers
2014, Cavalo de Ferro

Recomendação de António M. Feijó, co-autor de A Universidade como Deve Ser: «Se sempre achou que a conversa sobre os Descobrimentos é quase só ideologia, e nada de real, leia este livro sobre os pescadores portugueses no Ártico, num dos trabalhos mais duros à face da Terra.»

Se Esta Rua Falasse
James Baldwin
2012, Alfaguara

Recomendação de Filipa Raimundo, autora de Ditadura e Democracia: Legados da Memória: «Na sequência dos acontecimentos de Charlottesville, em 2017, a obra de James Baldwin (1924-87) ressurgiu como uma referência para quem quer compreender as divisões raciais e o movimento supremacista branco na América. Com o título original If Beale Street Could Talk - aludindo a uma icónica rua de Memphis, Tennessee - esta belíssima história de amor é apenas um dos livros deste grande escritor afro-americano que foi este ano traduzido pela primeira vez em Portugal pela Alfaguara, da Penguin Random House.»

Recomendação de Mariana Correia Pinto, autora de Porto, Última Estação: «América, início dos anos 70. Fonny e Tish estão apaixonados. Ele tem 22 anos, ela 19. São negros, vivem no Harlem, querem casar-se. Mas num dia aparentemente igual aos outros, Fonny é preso, acusado de violar uma mulher. O casal vê-se separado. Mas Tish, grávida, não desiste de provar a inocência do noivo. Numa narrativa intensa, às vezes ofegante, prosaicamente poética, James Baldwin escreveu um livro sobre um amor-manifesto. Esta é a primeira vez que o norte-americano é editado em Portugal, 31 anos depois da sua morte. Se Esta Rua Falasse não é a sua obra mais popular, mas é imperdível. Na história de Fonny e Tish cabem sonhos, lágrimas e sorrisos. Fala-se de exclusão social, de racismo, de amor e de ódio, da passagem do tempo e da vida atrás das grades («Gostava que ninguém tivesse de olhar através de um vidro para alguém que ama»). É a América dos anos 70. Mas, se este livro falasse, talvez nos segredasse que dentro dele cabe mais do que essa geografia e tempo. É só ouvi-lo com atenção.»

O Retorno
Dulce Maria Cardoso
2012, Tinta-da-China

Recomendação de Luísa Lima, autora de Nós e os Outros: O Poder dos Laços Sociais: «Gosto de tudo no livro, da história, da escrita, da editora. Fala-nos da experiência de de quem regressou ao seu país e não foi reconhecido como igual. Numa época em que se discute a integração dos refugiados, faz sentido ler um livro que nos questiona sobre como acolhemos, sobre os estereótipos que nos distanciam dos outros e sobre as emoções dos encontros.»

Dano e Virtude
Ivone Mendes da Silva
2017, Língua Morta

Recomendação de Rita Canas Mendes, autora de Viver da Morte: «De tudo o que li este ano, foi a maior surpresa. As primeiras entradas deste diário parecem corriqueiras, mas há algo que nos impele a continuar. Acabamos o livro maravilhados com a visão poética que a autora tem do seu quotidiano, em que as coisas mais triviais são tudo menos irrelevantes. Afinal, tudo importa. E confirmamos: nunca sabemos ao certo o que se passa na cabeça de quem está sentado ao nosso lado no café.»

Um Bailarino na Batalha
Hélia Correia
2018, Relógio d'Água

Recomendação de Fernando Sobral, autor de Futebol, o Estádio Global: «Hélia Correia é uma escritora prodigiosa. A sua "alma grega", entre os legados de um realista como Ulisses e um idealista como Aquiles, liga o passado ao presente. Isso é determinante neste novo livro, onde os deserdados buscam o Paraíso (ainda a Europa), buscando a sobrevivência. Caem as regras sociais, reaparecem as leis primárias. É um livro sobre o mundo à nossa volta.»

Sonhos Públicos
Joana Amaral Dias
2018, Dom Quixote

Recomendação de Eduardo Cintra Torres, autor de A Televisão e o Serviço Público e de Telenovela, Indústria & Cultura, Lda.: «O subtítulo explicita o programa deste livro: O Imaginário Colectivo em 100 Filmes do Século XXI. Em dez capítulos, Joana Amaral Dias descreve e analisa cem filmes numa perspectiva psicológica e psicanalítica reveladora de questões, problemas, dramas e paradoxos humanos vindos do fundo dos tempos até ao presente. Cada crítica, ou, podemos dizer, cada psicanálise de um filme, ocupa menos de duas páginas, recorrendo a um conhecimento ecléctico — o das disciplinas “psi”, mas também literatura, estudos mediáticos, semiótica — iluminando as criações cinematográficas de forma acutilante. A estrutura do livro, as recensões e as introduções a cada capítulo temático revelam uma capacidade de organização de origem científica, mas a autora escreve de forma descontraída, tornando o livro atraente sem diminuir a qualidade analítica. Bem organizado, este livro de 2018 serve como um guia cinematográfico do século. Amaral Dias não se detém a “classificar” a qualidade dos filmes, nem a dar-lhes “estrelas”, porque a qualidade dos filmes é aqui a da sua capacidade de invocação e de provocação da reflexão sobre problemas e inquietações dos indivíduos e de colectivos humanos que transvasam para a sociedade. A interpretação dos filmes, aqui como revelação da história através de movimentos colectivos ou de odisseias individuais, está também na base do livro de João Lopes, Cinema e História: Aventuras Narrativas (Lisboa, FFMS, Ensaios da Fundação, 2018). Em seis capítulos, igualmente estruturados a partir de recensões de filmes no âmbito do tema geral do cinema como “via de reconversão e recriação dos próprios modos de fazer história”, João Lopes parte do princípio de que o real não conta histórias, sendo antes narrativizado por cada um de nós ou mediatizado — no caso da televisão por uma apropriação de “realismo” associada ao directo ou ao passado-ontem, no caso do cinema com uma problematização que cria história, quer dizer, perspectivas do passado, seja ele o do já longínquo último imperador chinês, no filme de Bertolucci, seja o do mais letal sniper americano, falecido um ano antes do filme de Clint Eastwood. Ao transfigurar o real em histórias, o cinema sublima-se como máquina do tempo, sendo ele mesmo história, uma história sem historiadores por trás do visor da câmara, antes com artistas das narrativas audiovisuais, olheiros do que é importante na aventura humana.»

Lamento de uma América em Ruínas
J.D. Vance
2017, Dom Quixote

Recomendação de Catherine Moury, autora de A Democracia na Europa: «Lamento de uma América em Ruínas é a autobiografia de J.D. Vance, que cresceu numa das regiões mais pobres dos Estados Unidos. Numa das passagens do livro, Vance conta que foi a uma entrevista de emprego e que, ao chegar ao local da entrevista, reparou que todos os presentes vestiam fato, menos ele. Ele conta que não vestia simplesmente porque não sabia que era suposto fazê-lo nestas ocasiões. Este episódio mostra bem como as comunidades mais pobres carecem não apenas de condições financeiras, mas também de proficiência prática e cultural que outros tomam como natural, nomeadamente como financiar a sua educação, como escolher o melhor crédito e o que vestir para uma entrevista de trabalho. Além disso, Vance mostra que crescer num bairro pobre priva os seus membros de várias oportunidades. Por exemplo, sobre procura de trabalho ele salienta que "as pessoas bem sucedidas (…) não inundam os empregadores com curricula esperando que algum deles lhes honre com uma entrevista. O que eles fazem é networking". Finalmente, o autor descreve a cultura da sua comunidade na qual se interioriza a crença fatalística de que nada pode ser feito para mudar a sua situação e o uso generalizado de drogas que deriva deste sentimento de impotência. Este livro tem sido descrito como o livro que permite compreender a eleição de Trump e o Brexit. É possível que assim seja, mas, acima de tudo, é um livro sobre como a pertença a uma classe desproporcionalmente influencia o futuro pessoal e sobre como benefícios sociais não são suficientes para resolver o problema.»

O Despertar da Eurásia
Bruno Maçães
2018, Temas e Debates

Recomendação de João Villalobos, autor de Terapias, Energias e Algumas Fantasias: «Intelectualmente estimulante, com uma escrita fluída que associa à informação constante uma linguagem de reportagem, este livro surgiu originalmente em inglês tal como a mais recente obra de Bruno Maçães, "Belt and Road - A Chinese World Order".  Em "O Despertar da Eurásia" Maçães transporta-nos com ele através de uma viagem - literal e literariamente - entre Astracã e Khorgas, uma cidade entre a China e o Cazaquistão. Viagem essa ao longo da qual, recorrendo a testemunhos, observações e análises, nos é permitido vislumbrarmos o futuro de um supercontinente cujos movimentos geopolíticos nos arrastam, sem que muitas vezes disso tenhamos consciência.»

Continente Dividido, A Europa, 1950-2017
Ian Kershaw
2018, Dom Quixote

Recomendação de Luciano Amaral, autor de Economia Portuguesa, as Últimas Décadas: «Ian Kershaw, um dos maiores biógrafos de Hitler e um grande especialista de história europeia do século XX, faz o filme da Europa política desde os tempos em que conseguiu enterrar os fantasmas da primeira metade do século, no fim da II Guerra Mundial, até à actual ameaça de reaparição desses, ou novos, fantasmas. Para nos lembrarmos que nunca nada deve ser dado por adquirido.»

Que Número é Este? Um Guia sobre Estatísticas para Jornalistas
Ricardo Garcia, Maria João Valente Rosa e Luísa Barbosa
2017, FFMS

Recomendação de Maria João Valente Rosa, autora de O Envelhecimento da Sociedade Portuguesa, Portugal e a Europa: os Números e Portugal: os Números: «As estatísticas são o melhor espelho de nós próprios enquanto sociedade. Estes números especiais são, por isso, fundamentais para nos descobrirmos e para tomarmos decisões de forma livre e sustentada. O livro digital Que número é este?, editado pela FFMS, é um guia de fácil e estimulante leitura, que nos orienta na nossa relação indispensável com as estatísticas. Será, por certo, uma boa companhia em qualquer dia ou época do ano… mesmo no Natal!»

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