Fake news
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5 Leituras #24, por Paulo Guinote: Pós-verdade nos tempos da ‘modernidade líquida’

Sugestões de leitura de Paulo Guinote, autor do ensaio «Educação e liberdade de escolha», publicado pela FFMS.

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Novo artigo da rubrica «5 Leituras», em que um autor da Fundação sugere a leitura de cinco artigos ou a visualização de vídeos publicados na internet, em língua portuguesa, espanhola ou inglesa. Desta vez publicamos as sugestões de Paulo Guinote, autor do ensaio «Educação e liberdade de escolha».

Word of the Year 2016 is...
Texto publicado no site Oxford Living Dictionaries
(Em língua inglesa)

Em 2016, o dicionário de Oxford escolheu “pós-verdade” como palavra do ano. As razões adiantadas combinavam a frequência do seu uso a partir de meados desse ano, em grande parte na sequência do crescente sucesso da campanha presidencial de David Trump, com a percepção de que no domínio público cada vez surgiam mais “narrativas” a apelar a uma adesão emocional e não racional. O exacerbamento de retóricas destinadas a obter a mobilização pela adesão a preconceitos e a “factos alternativos”, mais do que combater a “verdade”, pretende ser essa “verdade”, pelo que se distingue de outras derivas “pós”, mais marcadas pelo relativismo.

Post-Truth and Its Consequences: What a 25-Year-Old Essay Tells Us About the Current Moment
Artigo de Richard Kreitner na revista The Nation
(Em língua inglesa)

Ao fazer-se a história possível do termo pós-verdade, a remissão mais frequente é para um artigo de Steven Tesich, em 1992, na revista The Nation, com o título “A Government of Lies”, em que o autor enquadrava o que se estava então a passar com a administração Reagan a propósito do escândalo Irão/Contras numa linhagem de estratégias de ocultação da verdade com origem na administração de Nixon e na sua política comunicacional a propósito do Vietname e do caso Watergate. Kreitner revisita, quase 25 anos depois, o artigo e a forma visionária como antecipava o comportamento de milhões de eleitores americanos.

The Age of Post-Truth Politics
Artigo de William Davies para o New York Times
(Em língua inglesa)          

Ainda antes da escolha da palavra do ano, já se anunciava a entrada na “Idade da Pós-Verdade” a partir da forma como na vida política as afirmações de factos falsos ou truncados começavam a passar sem o devido cotejo, levando a reacções manipuladas da opinião pública. Como afirma o autor, a aliança entre as derivas populistas e as redes sociais eram responsáveis pela multiplicação do fenómeno mas não pela sua criação. E afirmava, de forma lúcida, que os jornais poderiam constituir-se como uma forma de resistência aos desmandos populistas, mas que teriam bastante dificuldade em contrariar a “mais ampla crise dos factos”.

Beyond fact-checking: the media, populism and post-truth politics
Artigo de Andries du Toit para o site OpenDemocracy
(Em língua inglesa)

A relação entre a necessidade de proceder a uma verificação dos factos em tempos de populismo e políticas baseadas na “pós-verdade” é o tema de um artigo que analisa como as fake news se transformaram já numa espécie de indústria em que, mais do que apresentar versões alternativas dos factos, existe uma estratégia clara de desvalorizar as pretensões de rigor da comunicação social tradicional. Facto igualmente perturbador é o facto de, neste ambiente de “càmaras de eco” se ter tornado quase impossível qualquer diálogo entre os defensores de posições contrárias extremadas.

Liquid Modernity
Artigo de Daniel Little no blog Understanding Society
(Em língua portuguesa)

Antes da progressiva diluição das fronteiras entre o que uns continuam a querer acreditar serem factos objectivos e cientificamente demonstráveis e o que outros apresentam como “factos alternativos” ter ganho dimensão mediática, temos a teorização de Zygmunt Bauman sobre a “modernidade líquida”, um tempo em que os fenómenos sociais e mesmo afectivos se caracterizam por uma plasticidade e volatilidade que torna difícil a definição da própria identidade, que deve estar sempre a tornar-se algo diferente, fruto da permanente mudança social. Neste artigo, Little faz uma breve exposição crítica das ideias de Bauman que procuram descrever a incerteza que passou a caracterizar a (pós-) modernidade.

Paulo Guinote é autor do ensaio ‘Educação e liberdade de escolha’, publicado pela Fundação.

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