Não há mãe, pai, político, comentador, especialista que não tenha uma ligação ao sistema educativo ou uma opinião acerca dele. Todos fomos alunos ou todos conhecemos alguém que o seja.
Mas nem sempre abundaram os dados e as análises que nos ajudassem a ir além do senso-comum ou da mera opinião. A partir de 2000, o PISA (Programme for International Student Assessment) permite tirar a fotografia aos sistemas educativos, revelar sucessos e expor fraquezas.
Chamam-lhe o maior teste do mundo e não é por acaso. São 79 os países e economias que participam naquela que é a maior avaliação feita nesta área, realizada de três em três anos, envolvendo cerca de 600 mil alunos de 15 anos, de países da OCDE e não só. Mas ao contrário dos outros testes a pressão não recai sobre os alunos. Porque no final a nota é dada aos sistemas educativos, aos governantes e às suas políticas. E, para o bem ou para o mal, o mundo inteiro fica a saber.
Olhando para trás, não resta margem para grandes dúvidas: "Termos ficado fora das provas PISA teria sido uma perda para o país." Quem o diz é Eduardo Marçal Grilo, ex-ministro da Educação responsável pela presença de Portugal no PISA desde o início dos testes. No final dos anos 90, a participação portuguesa foi ponderada, debatida, questionada. Que provas eram estas que a OCDE queria fazer? Para quê? E se os resultados fossem muito maus? Seria boa ideia sujeitar o país a esse "exame"? O ministro português optou por dizer "sim". E bem, continua a defender: "Penso que a decisão que foi tomada foi a decisão correta."
Quase vinte anos depois, "o PISA tornou-se um excelente aferidor, é um instrumento muito usado por todos os países, e que, na minha opinião, deve ser muito acarinhado". Aparece "como um indicador externo que as escolas devem interiorizar nas suas estratégias, nas suas próprias formas de atuar e de entender os problemas com que se debatem". Não no sentido de "trabalhar para o PISA", mas de se sentirem "mais motivadas para fazer melhor – estas avaliações permitem-nos também criar alguns incentivos".
Marçal Grilo continua a acompanhar com interesse a prestação dos alunos portugueses nas várias edições do PISA. E o que é que mais o surpreende, pela positiva? "Os nossos jovens darem muitas respostas corretas que derivam de uma capacidade para pensar. Não é propriamente o terem ou não os conhecimentos – é terem a capacidade para pensar e resolver problemas. Tenho esperança que as escolas continuem neste caminho em que estão."
A sigla nada tem que ver com a cidade italiana, antes representa as iniciais do Programme for International Student Assessment, o maior teste internacional sobre sistemas educativos, que avalia as competências dos alunos de 15 anos de países de todo o mundo. Por cá, designa-se Programa Internacional de Avaliação de Alunos; Portugal participa desde o início.
Realizam-se de três em três anos, sendo que em cada edição há um enfoque numa das três literacias testadas. Em 2000, o ano de estreia dos testes, a avaliação incidiu sobretudo sobre a literacia em leitura. Em 2003, o domínio em destaque foi a literacia matemática e em 2006 a científica. O ciclo repete-se desde então e em 2015 voltou-se à ciência e em 2018 à leitura. No entanto, são sempre divulgados resultados para as três áreas.
Na edição de 2015 foi acrescentado um domínio novo: a capacidade de resolução de problemas em conjunto com duas ou mais pessoas. E as provas passaram a ser feitas em computador. Em 2018, Portugal participou pela primeira vez no teste de literacia financeira. Um domínio do PISA que avalia o conhecimento e compreensão de conceitos financeiros, as capacidades , motivação e confiança para tomar decisões em diferentes contextos financeiros.
Os testes pretendem acima de tudo avaliar se os estudantes de 15 anos (em muitos países a escolaridade obrigatória termina quando se atinge essa idade) adquiriram os conhecimentos e as capacidades/competências que se consideram essenciais para garantir uma integração e participação bem-sucedidas na vida e no trabalho das sociedades modernas.
Pede-se aos alunos, não apenas que reproduzam o conhecimento que têm em áreas fundamentais, mas também que sejam capazes de utilizá-lo para encontrar respostas para problemas da vida real e situações com as quais não estão familiarizados. A abordagem baseia-se sobretudo na noção de que, nas economias modernas, interessa não tanto o que se sabe mas o que se consegue fazer com esse conhecimento.
A seleção das escolas participantes e dos alunos é feita, pelo consórcio internacional que trabalha com a OCDE, com base num método de amostragem aleatória por etapas. Na primeira fase, é constituída a amostra de escolas, divididas por regiões e tipologia. Na segunda fase, são identificados, nas escolas selecionadas, todos os estudantes elegíveis – jovens de 15 anos inscritos em qualquer modalidade de ensino ou formação, do 7.º ao 11.º anos (a maioria está no 9.º e no 10.º). Finalmente, são selecionados aleatoriamente cerca de 40 a 50 alunos em cada estabelecimento de ensino (em 2018 foram amostrados 5 932 estudantes de 276 escolas).
A amostra é representativa da diversidade do país e do sistema educativo. Na seleção das escolas são também tidas em conta as regiões do país e o tipo de ensino (público ou privado), bem como se a área em que se insere a escola é mais ou menos urbana. Ninguém pode pedir para ser escolhido, mas também ninguém é obrigado a participar, pois o envolvimento, quer de escolas quer de alunos, é sempre voluntário. O que a OCDE faz é estabelecer taxas de participação mínimas, de escolas e alunos.
Não. Aliás, os alunos que são selecionados para integrar a amostra nem chegam a saber como se saíram (nem tão pouco as suas escolas), sendo essa a recomendação da OCDE. Contudo, há países, como a Finlândia, que dão às escolas feedback sobre o seu desempenho. Em Portugal tal não acontece.
Para cada país é calculada uma classificação em pontos. O valor de referência foi fixado pela OCDE em 500 pontos no ciclo em que o domínio (leitura, ciências, matemática) foi o principal. A média dos países da OCDE tem variado (negativamente) ao longo dos ciclos, ainda assim, permite traçar a linha que divide os países do PISA: de um lado, os que têm resultados "positivos" (acima da média da OCDE); e do outro os que ficam abaixo.
A par dessa classificação e da percentagem de alunos em cada um dos seis níveis de proficiência, é apresentada uma parafernália de indicadores – que resultam dos questionários de contexto aplicados a diretores de escolas, professores pais e alunos.
A partir das respostas dadas nestes questionários é possível recolher uma enorme variedade de informações sobre os sistemas educativos, que vai muito além dos resultados obtidos nos testes. Por isso, e tendo em conta o número de países abrangidos pelo PISA, destes questionários resulta a maior base de dados na área - à qual se recorreu para fazer a maior parte das análises aqui apresentadas.
Não. Ao contrário do que acontece em Portugal com os exames nacionais, as provas não são conhecidas. A OCDE apenas liberta algumas questões relativas a cada uma das literacias testadas. E como os testes não incidem sobre conteúdos de disciplinas, mas sobre a capacidade dos alunos de utilizar informação, racionar e resolver problemas inspirados em situações da vida real, também não é possível treinar para as provas.
Faça aqui o teste de leitura do PISA 2018.
No final de novembro de 2016, Portugal ficou a saber que também os alunos mais novos (do 4.º ano) tinham melhorado muitíssimo a matemática, registando a maior progressão do TIMSS (Trends in International Mathematics and Science Study), comparando com todos os outros países igualmente presentes na primeira edição desta avaliação, em 1995. Se há 20 anos o país ocupava a antepenúltima posição, num total de 17 países, coloca-se agora no 13.º lugar, entre 49 Estados e regiões. Os alunos portugueses conseguiram mesmo um desempenho médio superior aos colegas da Finlândia. A ciências, o outro domínio testado no TIMSS, os resultados são bem mais modestos. Apesar da evolução positiva ao longo dos anos, o desempenho piorou em relação à última edição, em 2011.
Em dezembro de 2017, foram divulgados os desempenhos dos alunos do 4.º ano e a leitura nos testes PIRLS (Progress in InternationalReading Literacy Study). Em 2011, quando se estreou nesta avaliação, Portugal ficou na 19.ª posição, acima de Espanha e de França, por exemplo, num total de 45 participantes. Já na edição de 2016, Portugal registou uma pontuação de 528 pontos ( menos 13 pontos que em 2011) caindo para a 30.ª posição da escala ordenada dos 50 países participantes.
Em 2018, Portugal participou no ICILS ( International Computer Information Literacy Study) o primeiro estudo por amostragem de larga escala realizado no país com o objetivo de avaliar a literacia digital dos alunos a frequentar o 8.º ano de escolaridade. Portugal ficou posicionado a meio da tabela da literacia digital da lista ordenada dos 12 países que participaram na edição de 2018 e na penúltima posição em Pensamento Computacional. O ICILS revelou que em Portugal, à semelhança do que acontece noutros países, o acesso às tecnologias de informação e comunicação por si só não é suficiente para o desenvolvimento de competências avançadas de literacia digital.
Os resultados aqui apresentados baseiam-se maioritariamente nas análises feitas no âmbito do projeto aQeduto. Este projeto teve por objetivo analisar de forma mais aprofundada os dados recolhidos pelo PISA – não só os resultados dos testes em si, mas também a informação dos questionários de contexto a pais, alunos, professores e escolas – e comparar Portugal com outros países. Tendo em conta a quantidade de países onde o PISA é aplicado, surgiu a necessidade de reduzir o número de países em estudo, de forma a que este fosse mais relevante para o que se pretendia: analisar o posicionamento de Portugal relativamente a outros países.
Procedeu-se, então, a um estudo de agrupamento de países. Para isso foi selecionado um conjunto de variáveis, com impacto ao nível da estrutura do sistema educativo de cada país e que de alguma forma não se distanciassem muito da realidade de Portugal. As variáveis selecionadas foram as seguintes: desempenho médio a matemática no PISA 2012; nível económico, social e cultural dos alunos; percentagem de alunos de 15 anos que repetiram o ano pelo menos uma vez; e nível de formação dos pais. A partir desse agrupamento de países, escolheu-se um representante de cada grupo, tendo-se decidido incluir também a Polónia, por se tratar de um caso de sucesso e sistematicamente referido pelos estudos PISA.