Sobre os dados da mortalidade: Portugal em paradoxo de Simpson

A directora da Pordata Luísa Loura explica o paradoxo nas taxas de mortalidade em Portugal e os efeitos da pandemia nas mortes a partir dos 40 anos.

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Para falar dos dados da mortalidade em Portugal tenho de começar por um conhecido paradoxo das probabilidades e estatística: chama-se Paradoxo de Simpson.

O Paradoxo de Simpson está associado ao fenómeno numérico da reversão: um padrão sistemático que surge em todos os subgrupos é revertido quando se juntam os grupos no universo total.

Em Portugal, este fenómeno está a surgir de há uns anos para cá nos dados da taxa de mortalidade. Ela tem vindo a ter uma tendência de crescimento desde 2006, o que sempre nos alarma, mas essa preocupação reverte quando se olha para as taxas de mortalidade por grupo etário

As linhas de tendência não incorporam os dados de 2020. Sendo este o primeiro ano com reflexos dos efeitos da pandemia de COVID-19, na leitura dos números teremos de conjugar o que seria expectável atendendo à tendência histórica dos dados com o que, de facto aconteceu. Mas isso fica para mais daqui a pouco. Antes, uma explicação para o paradoxo. Já a antecipam, não é verdade? Pois, é isso! O envelhecimento da população portuguesa!

Pela ordem natural das coisas, a probabilidade de morte aumenta com a idade e, havendo cada vez mais pessoas a ultrapassar a casa dos 80, são também em maior número aquelas que nos deixam em cada ano.

E ao fazer a conta de dividir pelo total da população portuguesa o quociente vai aumentando, ou seja, a taxa de mortalidade global aumenta. Mas esse aumento não se verificou, sistematicamente, em cada grupo etário, até 2019. Antes pelo contrário! A tendência foi de decréscimo em todos eles, reflexo da melhoria nos cuidados de saúde e reflectindo-se no aumento da esperança média de vida aos 65 anos.

Não fora a pandemia de COVID-19 e a expectativa de anos de vida pela frente para quem tem 65 seria de 19 anos e 8 meses (17 anos e 10 meses para os homens e 21 anos e 1 mês para as mulheres).

Mas a pandemia trouxe uma disrupção muito violenta na vida de todos nós e só as fortes medidas de confinamento permitiram conter minimamente as perdas de vidas humanas durante o ano de 2020.


Mas não o conseguiram na totalidade: os gráficos das taxas de mortalidade por grupo etário mostram um excesso de mortalidade, face à tendência histórica, em todos os grupos etários a partir dos 40 anos. Especialmente elevadas são as do grupo dos 60 aos 70 anos (certamente por ser este um grupo de risco e por ter ainda muita gente no activo) e as do grupo dos mais idosos (80 ou mais anos), aqui pelos muitos focos de infecção em lares. Curiosamente, muitas das pessoas do grupo etário dos 70 aos 80 anos terão tido uma boa capacidade para se proteger, pois o aumento na taxa de mortalidade é claramente menor neste grupo face aos dois grupos adjacentes.

Dentro de poucos meses estarão fechados os dados de 2021 e aí veremos como nos castigou o segundo ano da pandemia. Uma coisa é certa: sem medidas de distanciamento e sem vacinação a catástrofe teria sido avassaladora.

Portugal ficará para a história da COVID-19 como um caso exemplar do que pode acontecer quando se aliviam medidas antes de tempo e antes de se criarem infra-estruturas suficientes nos hospitais (designadamente em unidades de cuidados intensivos e com pessoal de saúde). Não há palavras meigas para descrever o que se passou em Janeiro/Fevereiro de 2021. Foi mesmo uma enorme catástrofe! O equivalente à queda de 11 aviões Boing 747 em menos de 20 dias. O gráfico seguinte é dos que valem mais que mil palavras:

- O pico máximo de óbitos por COVID-19 igualou a média diária de óbitos por todas as causas de morte do ano pré-pandemia;

- Na última semana de Janeiro de 2021 houve mais de 2 mil mortes por COVID-19, representando 70% do número de mortes por todas as causas da semana homóloga de 2019;

- Se exceptuarmos as semanas de catástrofe e pré-catástrofe (as de Janeiro e Fevereiro de 2021 e as de Novembro e Dezembro de 2020), os óbitos por COVID-19 ficaram sempre aquém de 10% das mortes por todas as causas de mortes nas semanas homólogas de 2019. Em 80% das vezes ficaram mesmo aquém dos 5%.

Foram dias de muito sofrimento para um sem número de famílias, os do último Inverno, e isso justifica o reforçar de cuidados neste período de Festas. Até porque, concomitantemente, grande parte da população já chegou ou está a chegar ao limiar médio, de seis meses, da perda de imunidade da vacinação.

Que a vacinação evitou a ocorrência de muitas mortes pelo mundo fora é uma verdade incontornável. Basta confrontar a taxa de vacinação com a taxa de mortalidade por COVID-19

Agora, é também bem verdade que a vacinação parece não ter um efeito suficientemente forte sobre a incidência. Aqui a conclusão não é tão linear porque os países com maiores taxas de vacinação são também aqueles que mais aliviam as medidas de distanciamento social e isso, por si só, potencia a propagação do vírus.

Os dois gráficos seguintes (fonte: Worldometer) são os que me dão mais argumentos para acreditar que a pandemia está num período de acalmia no aspecto que mais nos aflige: o da doença grave seguida de morte.

Entre Outubro de 2020 e Setembro de 2021 a linha dos óbitos acompanhou sempre o movimento da linha do número de casos mas, de Outubro para cá, isso deixou de acontecer. Ao menos que se vá mantendo assim!

Regresso agora de novo à realidade portuguesa e ao paradoxo de Simpson para vermos o que ele nos revela quanto às taxas de mortalidade por sexo.

O paradoxo mantém-se: a tendência em termos globais é de subida da taxa de mortalidade, tanto para homens como para mulheres mas, com alguma diversidade caso a caso, a tendência foi de descida em todos os grupos etários, entre 2006 e 2019, para qualquer dos sexos.

Vale a pena atentar na “diversidade caso a caso”! Não tem só a ver com a tendência. Aliás, o que mais nos chama a atenção é a posição relativa das linhas em cada um dos grupos. As linhas da direita (as das mulheres) estão sempre muito abaixo das dos homens, excepto no grupo etário dos mais idosos.

Para um homem e uma mulher com a mesma idade, a probabilidade de vir a ocorrer, nesse ano, um acontecimento (acidente, doença, homicídio ou suicídio) que leve à sua morte é 2 a 3 vezes maior para o homem do que para a mulher, a não ser que já tenham mais de 80 anos. Os homens que vivem para além dos 80 anos são, em número, menos 100 mil que as mulheres (em 2020 havia 244.058 homens e 343.415) mas, em compensação, têm uma maior expectativa de anos pela frente do que elas.

Uma outra leitura que podemos tirar dos gráficos tem a ver com o declive das linhas: nos homens jovens entre os 20 e os 39 anos, o risco de morte reduziu para metade entre 2006 e 2016 (nestas idades os factores de risco são, essencialmente, comportamentais) mas revela uma tendência de subida nos anos mais recentes (convém perceber porquê …).

Outro grupo etário onde o declive das taxas de mortalidade é acentuado é o dos 70 a 79 anos e isso tanto para homens como para mulheres. São idades em que se tem de estar especialmente atento aos problemas de saúde e a acentuada tendência de descida que vemos nestes gráficos indica-nos, não só que os próprios têm essa preocupação como, ainda, que o sistema de saúde estará a conseguir dar uma resposta de qualidade e dimensionada para o cada vez maior número de pessoas idosas.

Não fiz qualquer comentário sobre os números de 2020 porque esses já apanham o primeiro ano de pandemia e, com o detalhe de informação que tem vindo a ser disponibilizada ao público, posso terminar dando-vos uma visão mais completa que já abranje todo o período pandémico até ao momento actual.

Começo com os grandes números: desde o início da pandemia e até à data de hoje, dia 27 de dezembro de 2021, morreram ao todo, por COVID-19, 18.890 dos residentes em Portugal (9.920 homens e 8.970 mulheres). Representaram 8,8% do total de mortes ocorridas nas 92 semanas a que reportam os dados.

Como bem sentimos na pele, esta percentagem oscilou muitíssimo ao longo das 92 semanas – em algumas não atingiu sequer 1% (quando o país se fechou todo em casa) mas noutras ultrapassou os 40% (nas fatídicas duas últimas semanas de Janeiro de 2021).

E não é só ao longo das semanas que se encontram diferenças. Também as há por escalão etário e por sexo. Mais precisamente, o peso dos óbitos por COVID-19 entre os óbitos por todas as causas aumenta com a idade. O gráfico mostra ainda que a pandemia trouxe um maior risco de morte para os homens que para as mulheres em todos os escalões etários a partir dos 60 anos.

Oxalá a nova variante Omnicron seja de facto mais benigna e que os próximos relatos nos revelem um retorno à normalidade.

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