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No comboio Lisboa - Tomar

Artigo de Francisco Furtado, autor do livro «A Ferrovia em Portugal: Passado, Presente e Futuro».

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É segunda-feira de manhã e na estação de Santa Apolónia corro para apanhar o comboio que faz a ligação até Tomar. Durante um par de anos, 2006-2007, repeti esta rotina todas as semanas. Trabalhava em Tomar, mas ao fim de semana ia sempre a Lisboa.

Era um serviço relativamente rápido, frequente (quase de hora a hora), eu encontrava sempre um lugar sentado e as carruagens, sem ser luxuosas, propiciavam o mínimo de conforto necessário para a viagem de quase duas horas. Sem estar a abarrotar, o comboio ia sempre mais cheio que vazio, sinal de que prestava um serviço útil para quem o utilizava e para a sociedade em geral.

Confesso que a primeira vez que viajei até Tomar apanhei um autocarro da Rede Expressos. Durante uns tempos viajei muito entre Torres Vedras e Lisboa e uma vez, quando tomei o comboio na Linha do Oeste, jurei para nunca mais… De tal forma a experiência me marcou que parti do princípio de que entre os serviços ferroviários regionais/inter-regionais ou os autocarros, estes últimos prestariam sempre um serviço melhor (os Alfas e Intercidades são outra história… aí preferi sempre o comboio).

Mas cedo me apercebi do meu erro. Na verdade, de Lisboa até Tomar o comboio levava menos tempo, os horários eram melhores, a viagem mais confortável e o preço era semelhante. Após a segunda viagem de autocarro que fiz pensei “tem de haver uma opção melhor”, fui até à estação de comboios em Tomar, vi os comboios estacionados e pensei “até têm bom aspecto”. Depois consultei o horário afixado, “muito melhor que o dos autocarros, e a viagem é mais rápida”. Experimentei o comboio e daí para diante nunca mais apanhei o autocarro.

O comboio Lisboa-Tomar é um dos serviços que, não sendo perfeito, mais podem ser tidos como exemplo.

Francisco Furtado

Esta história simples, sem grandes romantismos, vivida na primeira pessoa, a meu ver ilustra bem o que é necessário para uma ferrovia que simultaneamente seja sustentável e sirva a população. É consensual a mais-valia que uma infra-estrutura e serviços ferroviários modernizados podem trazer ao país no grande eixo atlântico da Galiza até Faro, que inclui a ligação entre as duas grandes cidades do país, Lisboa e Porto. Mas fora desse eixo há outras regiões e ligações onde a ferrovia pode também trazer inúmeras vantagens sociais, económicas e ambientais. Pensemos no Algarve, Linha do Minho, Vouga ou Oeste, entre outras.

No entanto, uma prestação sustentada de serviços regionais ferroviários requer níveis mínimos de procura e densidade populacional, uma infra-estrutura atualizada, material circulante relativamente moderno e um modelo operacional (horários, frequência, tempos de viagem, conforto, números de paragens e transferências) ajustado ao século XXI. O comboio Lisboa-Tomar é um dos serviços que, não sendo perfeito, mais facilmente se aproximam desse modelo e pode ser tido como exemplo do que é necessário para ligações ferroviárias regionais ou inter-regionais bem-sucedidas.

Francisco Furtado é autor do livro 'A Ferrovia em Portugal: Passado, Presente e Futuro', publicado na colecção de Ensaios da Fundação.

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