Dados e leituras a partir do Inquérito Social Europeu

Artigo de João Tiago Gaspar, coordenador da equipa de estudos da Fundação, com base nos dados mais recentes do Inquérito Social Europeu.

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Recentemente, foram publicados os resultados da última vaga do Inquérito Social Europeu. Este inquérito é aplicado de dois em dois anos, desde 2002, a amostras representativas de vários países europeus (a maioria membros da União Europeia). O universo é constituído por indivíduos residentes num determinado estado, com 15 ou mais anos, independentemente da sua nacionalidade ou situação legal. Poderá consultar os principais resultados deste e de outros inquéritos recorrendo ao POP – Portal de Opinião Pública, da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Mas antes de avançarmos para os dados é fundamental fazer uma ressalva. O trabalho de campo da última vaga do Inquérito Social Europeu teve lugar entre o final de 2018 e o final de 2019, pelo que não seria avisado retirar quaisquer conclusões sobre as consequências económicas, sociais ou políticas da pandemia que nos tem assolado a partir dos números apresentados neste artigo. Todavia, não deixará de ser interessante analisar grandes tendências, identificadas na lista abaixo apresentada, que poderão vir a revelar-se significativas nos próximos meses, enquanto os cientistas não desenvolverem uma vacina eficaz contra a covid-19.

1-  Em tempos normais, pré-pandemia, Portugal parecia ser o país da Europa do Sul onde o convívio com amigos, familiares ou colegas de trabalho era mais frequente. Resta saber se esse hábito, comprovado ao longo de quase duas décadas, torna o distanciamento social particularmente difícil para os nossos concidadãos. A respeito da sociabilidade, recomenda-se a leitura do ensaio Nós e os outros; o poder dos laços socais, escrito pela psicóloga social Maria Luísa Lima.

2- O período de confinamento a que estivemos sujeitos gerou, e em alguns casos agudizou, situações dramáticas de isolamento social e solidão. Em 2018, 6% dos inquiridos diziam não ter uma única pessoa com quem falar sobre assuntos íntimos. Ainda assim, Portugal parece ter percorrido algum caminho nesta matéria, uma vez que 10 anos antes, em 2008, chegou a atingir os 13% neste indicador. Quem quiser saber mais sobre este assunto poderá consultar o ensaio A saúde mental dos portugueses, do psiquiatra José Caldas de Almeida.

3- Em Portugal, a avaliação que os cidadãos fazem dos serviços de saúde não é brilhante: a média é igual a 5, numa escala de 0 a 10. Aparentemente, Portugal suplanta apenas o Chipre no conjunto de países da Europa do Sul nos quais foi possível recolher dados. Os interessados no sector da saúde farão bom uso de Pela sua saúde, da autoria de Pedro Pita Barros.

4- Portugal é o país da Europa do Sul onde as pessoas, regra geral, se sentem menos saudáveis, apresentando uma média de 3,5 numa escala de 1 a 5. Curiosamente, este indicador demonstra uma constância considerável, apesar de expressar opiniões relativamente subjectivas. Constate-se que o resultado mais elevado (3,6) foi atingido em 2012 e que o mais baixo (3,4) foi alcançado em 2014. Para uma análise sobre o progresso verificado na Ciência e na Medicina nas últimas décadas, mas também sobre as expectativas que as sociedades contemporâneas nelas depositam, recomenda-se o ensaio A Nova Medicina, do neurocirurgião João Lobo Antunes.

5- Os índices de confiança interpessoal na Europa do Sul, e em Portugal em particular, costumam ser mais baixos do que nas democracias consolidadas no Norte da Europa, o que acaba por minar a confiança nas instituições democráticas. Assim sendo, não é de espantar que Portugal seja o segundo país da Europa do Sul onde os inquiridos mais desconfiam dos outros. Na verdade, o panorama não melhora substancialmente quando se tenta aferir as percepções que temos acerca da prestatividade ou honestidade dos nossos concidadãos. Caso pretenda saber mais sobre a relação entre cultura política e qualidade da democracia, encontrará uma excelente súmula neste estudo da Fundação, coordenado por Tiago Fernandes.

Em jeito de conclusão, e para quem quiser inteirar-se sobre as virtudes e as limitações de estudos de opinião como o Inquérito Social Europeu, vale a pena relembrar o ensaio de Pedro Magalhães: Sondagens, eleições e opinião pública.

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