Da Inquisição às minorias sociais: o silêncio na história de Portugal

Excerto do livro «Sons e Silêncios da Paisagem Sonora Portuguesa», de Carlos Alberto Augusto.

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No Portugal antes do terramoto, os vizinhos escutavam‑se sorrateiramente uns aos outros, por entre as frinchas dos soalhos e das paredes, na expectativa de perceber se o silêncio era respeitado ao sábado ou ao domingo. Qualquer desvio à norma do respeito dos silêncios era motivo de denúncia ao Santo Ofício e não foram poucos os que, distraindo‑se e observando inadvertidamente o silêncio fora da norma que o regia, acabaram às mãos do torcionário inquisitorial. Nos cafés da Lisboa setecentista já se trocavam informações políticas, em sussurro, com medo do intendente. A moda continuou até pleno século XX, altura em que, em muitos cafés, os engraxadores e os empregados de mesa escutavam, atentos e em silêncio, as conversas dos clientes, para depois delas irem dar conta aos agentes da polícia política. Daí a recomendação «— Aqui não se fala!» que um amigo recordava ter‑lhe sido um dia feita pelo avô, quando ia com ele ao café. A polícia política agia sobretudo de noite para, envolta no manto de silêncio por ela gerado, distinguir o som da repressão, como o maestro que indica um súbito fortíssimo, e ajudar assim a produzir os silêncios subsequentes. Os que eram apanhados nessas operações criaram códigos de silêncio, para não revelarem as suas actividades à polícia e para comunicarem, em silêncio, uns com os outros. Os manuais de boas maneiras do século XIX e do princípio do século XX, seguindo talvez as modas da sempre venerada e próxima Inglaterra vitoriana, remetiam as mulheres e as crianças ao silêncio, recomendando que, em ambos os casos, deveriam sentir‑se, mas não ouvir‑se.

Numa outra perspectiva de produção de silêncios, a sociedade portuguesa, multirracial e pluricontinental, como em determinada altura reclamou orgulhosamente ser, foi silenciando, a pouco e pouco, as culturas dos povos que submeteu à sua autoridade. Outrora presentes, nas modinhas e nos lunduns, os sons das culturas africanas desapareceram da paisagem sonora portuguesa, certamente enterrados no silêncio que reinava no fundo do poço dos negros. Neste momento, em plena democracia, numa altura em que Portugal acolhe milhares de emigrantes, as culturas forasteiras continuam a ser remetidas ao silêncio.

Cada sociedade produz o seu próprio silêncio, dizia eu. No caso português, até há uma expressão popular para ilustrar isso: a «lei da rolha».

«Sons e Silêncios da Paisagem Sonora Portuguesa» é um livro da autoria do compositor Carlos Alberto Augusto. Está disponível na loja online da Fundação, por 3,15€. Com 10% de desconto, portes de envio gratuitos e possibilidade de pagamento via Multibanco, crédito ou MBWAY.

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