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As Plantas e os Portugueses – Tradições Religiosas

Artigo de Luís Mendonça de Carvalho, o autor do novo livro «As Plantas e os Portugueses», publicado na colecção de Ensaios da Fundação.

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As plantas são elementos estruturantes das comunidades humanas porque são a base da agricultura e foi esta actividade que possibilitou a evolução da cultura humana. Sem a agricultura, os humanos encontrar-se-iam num estado cultural muito distinto daquele que hoje conhecemos. Embora existam centenas de plantas agrícolas, as mais importantes são aquelas que nos permitem obter, de uma forma contínua e previsível, hidratos de carbono (cereais e afins) e proteínas (leguminosas). A omnipresença das plantas nos ecossistemas rurais, o enigma que presidia à sua «morte» outonal e «renascimento» primaveril e, porventura, a beleza perturbadora das suas distintas formas, cedo estimularam os humanos a incluí-las nas suas tradições religiosas.

As tradições religiosas portuguesas integram plantas de forma literal ou simbólica, por exemplo, os cestos que as mordomas transportam à cabeça, durante a Festa das Rosas em Vila Franca do Lima, e que vão oferecer a Nossa Senhora do Rosário, são decorados com caules, folhas e flores, mas também encontramos plantas no resplendor do Senhor Santo Cristo dos Milagres (Açores), uma jóia notabilíssima que enriquece o acervo artístico nacional e que inclui pedras preciosas engastadas em padrões que evocam espigas de trigo (Corpo de Cristo) e uvas (Sangue de Cristo).

A Bíblia, os Evangelhos Apócrifos, a Patrologia Latina e algumas obras da cultura greco-romana constituíram as principais fontes doutrinais e iconográficas que inspiraram os artistas medievais e do Renascimento, quando estes representaram plantas com usos simbólicos. Por exemplo, quando representavam a maçã nas mãos de Adão e de Eva, tinham a intenção de que a mesma aludisse ao Pecado, de acordo com uma tradição desenvolvida durante a Alta Idade Média, mas sem qualquer fundamento bíblico, que acreditava ser uma macieira a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal referida no Livro do Génesis, o primeiro livro da Bíblia. Se o artista representava a maçã nas mãos da Virgem Maria e de Cristo, então, este fruto simbolizava a Redenção que o Novo Adão e a Nova Eva trouxeram. Inúmeros exemplos referentes a representações da maçã podem ser estudados em igrejas e museus portugueses.

As folhas de palma (palmeira), os ramos de oliveira, o azeite e o vinho são também exemplos de plantas e dos seus produtos, que, em Portugal, se utilizam durante as cerimónias religiosas. Estas plantas são cultivadas em Portugal, embora não sejam nativas. Um produto extraído de uma planta exótica, que nunca foi cultivada em Portugal por impossibilidade edáfica e climática, é o incenso. Esta goma-óleo-resina é obtida fazendo-se incisões nos caules de árvores do género Boswellia, nativas da Península Arábica (em especial de Omã e do Iémen) e do Nordeste de África. No contexto cristão, o incenso representa não só a Natureza Divina de Cristo, quando oferecido pelos Reis Magos (presépios tradicionais), mas também é um veículo fragrante que conduz as preces dos crentes directamente ao Reino dos Céus. A mirra, uma goma óleo-resina próxima do incenso, era um símbolo de sofrimento e aludia à natureza humana de Cristo; o ouro remetia para a sua natureza régia.

Encontramos plantas em tradições portuguesas com origens pré-cristãs, como a espiga, constituída por frutos de trigo, ramos de oliveira, alecrim, papoilas e malmequeres brancos e amarelos, que se colhe durante a Quinta-feira da Ascensão. Nas tradições rurais, este era um dia especialmente importante, um dia consagrado, durante o qual (ou a partir do qual) se acreditava que as plantas apresentavam mais virtudes. Também as Cruzes de Maio, que ainda se levam até aos campos de cultivo, representam uma metamorfose das tradições pagãs, agora integradas em práticas e valores cristãos.

Luís Mendonça de Carvalho é autor do livro As Plantas e os Portugueses, publicado na colecção de Ensaios da Fundação.
Fotografia de Grant Whitty no Unsplash.

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