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Opinião GPS #5 - Brexit: reflexões de uma portuguesa a viver no Norte de Inglaterra

Artigo de Cristina Leston-Bandeira, professora de ciência política e investigadora na Universidade de Leeds, no Reino Unido.

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Cheguei ao Reino Unido há cerca de 25 anos, para fazer o meu doutoramento. Como tantos outros estudantes estrangeiros, fiz um curso no British Council para me preparar para o exame IELTS, de língua inglesa. Só assim seria aceite no programa doutoral. Acabei por ter uma nota alta no exame, portanto senti-me preparada para a dura prova de viver no Reino Unido. Mas quando aqui cheguei, apercebi-me de que os meus conhecimentos de língua inglesa não eram suficientes; eu tinha aprendido um BBC English que as pessoas em Londres e talvez no Sul falem, mas não as do Norte. Eu vivia em Hull, no Nordeste. Podia ler todos os livros da biblioteca e ter conversas com o meu orientador de doutoramento, mas não conseguia compreender uma única palavra do que as pessoas diziam quando ia às compras. Aprendi rapidamente que havia grandes diferenças entre o Norte e o Sul, e em particular Londres.

Outra coisa de que me lembro claramente é das pessoas a referirem-se ao Continente. Lembro-me de pensar: que Continente? Haverá algo que esteja a escapar-me? Há algum outro continente que eu não conheça? Há alguma localidade chamada Continente? Aperceber-me-ia mais tarde de que o uso deste termo é simbólico do desapego que, como verifiquei, os britânicos sentem em relação à Europa. O Continente a que se referiam é a Europa. Continente não era um termo utilizado com sentido pejorativo; era simplesmente a forma habitual de as pessoas se referirem a um ponto no espaço que lhes parecia distante da sua realidade. Isto ilustra em boa parte a minha experiência aquando do referendo ao Brexit em 2016.

Agora moro em East Yorkshire, ainda no Norte de Inglaterra, onde 60% das pessoas votaram favoravelmente ao Brexit. O resultado não me surpreendeu. O que me surpreendeu foi a diferença entre o que experienciei durante a campanha para o referendo no Norte, onde vivo, e Londres, para onde viajo regularmente em trabalho. Na zona onde vivo, parecia-me bastante claro que o Leave ia vencer: o material de campanha pelo Leave era bastante mais visível do que o do Remain (cuja mensagem era bastante incoerente e inconsistente); as pessoas conversavam abertamente sobre votarem pelo Leave. E quando viajava para Londres, as pessoas pareciam-me não se aperceber de que o Leave poderia bem vencer. Para elas, isso pareceria absurdo, impossível, ridículo. Lembro-me de uma reunião em Londres na segunda-feira após o referendo: os meus colegas estavam em estado de choque, zangados; não conseguiam perceber como fora possível a vitória do Leave. Mais uma vez, apercebi-me de como diferentes mundos coexistem sem grande interacção e compreensão mútuas.

Apercebi-me de como diferentes mundos coexistem sem grande interacção e compreensão mútuas.

Cristina Leston-Bandeira

Os 60% a favor do Leave na região onde vivo não significam que esteja rodeada de xenófobos e racistas, ou mesmo pessoas ignorantes. Enquanto pessoa estrangeira, nunca me senti desconfortável aqui, sempre me senti bem-vinda. Mas é também claro que o meu mundo “Europeu” sempre pareceu distante para os homens e mulheres meus vizinhos em East Yorkshire. Eu, com a minha estrangeireza, fui recebida e aceite, mas provavelmente também considerada exótica, de um mundo diferente, a que eles não tinham ligação; eles ligavam a minha existência com a identidade do Reino Unido, não com a minha identidade europeia. Sempre senti que a Europa estava simplesmente muito distante, separada; que não era parte do mundo, nestas paragens. Isso, juntamente com a campanha incessante dos media tabloides ao longo de dácadas sobre os problemas da União Europeia, significa que as pessoas muito provavelmente não sentiam uma ligação suficientemente forte à comunidade europeia para votarem Remain. O que deixou os meus amigos de Londres perplexos foi que para eles havia uma justificação racional clara para o Remain, que se baseava nos vários benefícios provenientes da União Europeia. Mas os meus amigos de East Yorkshire não votaram com base numa motivação puramente racional; votaram com o seu instinto e com o coração. E a ligação à União, para eles, simplesmente não existia.

Portanto a vitória do Leave não me surpreendeu. Eu obviamente votei pelo Remain – obviamente, explico, pois sou filha de portugueses, nasci em França, vivi 20 anos em Portugal, beneficiei de uma bolsa Erasmus e de acesso simplificado ao ensino universitário no Reino Unido, e depois iniciei os já mais de 20 anos da minha vida no Reino Unido, agora com duas nacionalidades e com uma família bilingue. O que me surpreendeu e entristeceu foi a polarização que aconteceu após o referendo. Compreendo os argumentos por detrás do Leave e do Remain, mas a incapacidade de ambos os lados se ouvirem mutuamente e de os líderes políticos encontrarem formas de chegarem a um compromisso deixaram-me chocada. É essa falta de compromisso, que significa ceder em algumas coisas para conseguir outras, que é alarmante na política dos dias que correm. Estamos a viver tempos bem tumultuosos.

P.S.: Há obviamente vários factores que explicam a vitória do Leave e a actual situação política do Reino Unido. Neste texto, não procurei explorar e descrever esses factores. Quis apenas partilhar uma reflexão pessoal, sendo eu uma europeia que vive no Norte do Reino Unido

Cristina Leston-Bandeira é professora de ciência política e investigadora na Universidade de Leeds, no Reino Unido. Consulte o seu perfil no GPS-Global Portuguese Scientists.

Fotografia de capa por Elionas2 para o Pixabay.

 

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