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Mais do que uma crise ambiental, vivemos um estado de transição a que nos deveríamos habituar

Mais do que uma crise ambiental, vivemos um estado de transição a que nos deveríamos habituar

Excerto do livro 'Ambiente em Portugal', de Sofia Guedes Vaz e publicado pela Fundação.
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No fundo, talvez não exista uma crise ambiental. O conceito de crise pressupõe um estado passageiro ultrapassável, e a situação em que temos vivido nas últimas décadas veio para ficar. Mais do que uma crise, o que vivemos é um estado de transição ao qual nos deveríamos habituar, não de forma passiva, mas estudando para onde podemos, devemos e queremos ir. Um mundo pristino está fora de questão, assim como um crescimento económico estável. Os pontos de equilíbrio conhecidos estão a fugir-nos debaixo dos pés e temos de encontrar um novo tipo de harmonia social, ambiental e económica. Nada de novo para a humanidade, que é complexa e dinâmica. Mas agora é mais difícil, pois temos muito a perder, não conseguimos desmaterializar as nossas vidas de confortos vários, nem ver a face positiva de um futuro desconhecido. Além disso, resistimos a aceitar que o problema seja também nosso.

A atitude displicente relativamente ao planeta e às gerações futuras está assente numa cultura em que se ignora a pressão sobre os ecossistemas, e em que não se dá suficiente ênfase a questões de equidade, intra e inter-geracionais. A nossa sociedade de consumo, tecnológica, materialista, gastadora de recursos e utilizadora de mais do que aquilo de que o planeta dispõe, poderia interpelar-nos para um processo introspectivo, mas temos tendência para pensar o ambiente como algo que é essencialmente exterior a nós e remetemos facilmente a responsabilidade para o âmbito político ou científico, atribuindo a culpa aos outros; raramente o “individual” entra nessa equação. O ambiente é tido como um “problema” da política e dos políticos, da ciência e dos cientistas, da indústria e dos industriais, das empresas e dos empresários, e da sociedade em geral – não havendo um “eu” em particular que se deva preocupar com o ambiente ou possa, por si só, resolver alguma coisa. Gostamos de pensar que fazer reciclagem chega.

Mas a sustentabilidade impõe-nos certas exigências éticas, quer no plano pessoal (comportamentos), quer no plano político – individual (cidadania), e, por isso, é importante convocar uma reflexão sobre as nossas representações e sobre a maneira como nos relacionamos com o ambiente. Nesta altura já há, no discurso político e na sociedade em geral, uma retórica favorável – “a sustentabilidade é tão importante!”. É um passo essencial, mas não deixa de ser assustador o consenso que se gerou à volta deste conceito, porquanto, em geral, não passa disso mesmo: apenas uma narrativa politicamente correcta que potencialmente esvazia uma verdadeira consciencialização de quão importante é a sustentabilidade.

Para lá da questão ética, o escândalo, em Setembro de 2015, da falsificação deliberada do sistema que testa poluentes atmosféricos em alguns carros a diesel da Volkswagen lembra-nos que a tal retórica sobre sustentabilidade é, em muitos casos, apenas um artifício que esconde a constante preocupação com o lucro. Infelizmente este caso não é único, e embora existam certamente boas intenções a vários níveis, a verdade é que no momento em que tem de se decidir entre ambiente e economia, a balança tende sempre para o último elemento do binómio.

Fotografia de Angela Benito no Bairro de el Turujal em Cabezón de la Sal, Espanha.
Sofia Guedes Vaz é autora do livro Ambiente em Portugal, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

 

O acordo ortográfico utilizado neste artigo foi definido pelo autor.

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