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Imagem de um casal a caminhar numa floresta com uma másca de proteção

«As alterações climáticas estão a interferir na circulação de vírus»

As alterações climáticas estão a afetar a circulação de microrganismos e podem mudar a época e os períodos sazonais das doenças respiratórias, explica o pneumologista Filipe Froes. Segundo o especialista, todos os anos são identificados novos vírus e bactérias a circular. «A Organização Mundial de Saúde identificou centenas com potencial pandémico», diz.
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Há novos vírus circular?

Todos os anos são identificados novos microrganismos. Os mais habituais são bactérias e vírus. Se incluirmos, por exemplo, as mutações do SARS-CoV-2 então já temos novos vírus identificados este ano.

 

Como é que surgem esses novos vírus e bactérias?

Os principais mecanismos são a aquisição de resistências aos fármacos usados no seu tratamento com o desenvolvimento de novas características, geralmente clínicas ou epidemiológicas e a passagem da barreira das espécies, ou seja, a passagem de um outro animal para o Homem, estabelecendo uma nova doença humana, neste caso uma zoonose.

Um excelente exemplo de vírus que passaram a barreira das espécies é o SARS-CoV-2, o vírus da recente pandemia e o VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana).

A par da ocorrência de novos vírus, há a conjugação de outros dois fatores. A maior disponibilidade e capacidade dos meios de diagnósticos, que permitem identificar microrganismos até então desconhecidos ou pouco valorizados e o envelhecimento da população com grupos mais vulneráveis a infeções por estes novos vírus.

 

Ultimamente tem-se assistido a muitos casos notificados de um vírus chamado o Vírus Sincicial Respiratório (VSR). Que vírus é este?

O Vírus Sincicial Respiratório é um vírus identificado, inicialmente, em 1956 em chimpanzés e no ano seguinte, em 1957, em crianças com queixas respiratórias. Foi identificado por Robert Chanock, um reputado médico e virologista do National Institute of Allergy and Infectious Diseases, dos Estados Unidos da América. Anthony Fauci foi, aliás, diretor deste instituto de 1984 até 2022, ou seja, durante quase toda a recente pandemia.

 

Mas que tipo de vírus é?

O termo “sincicial” vem das células grandes que se formam pela fusão das células infetadas. O VSR é muito contagioso e provoca doença respiratória aguda em pessoas de todas as idades. As manifestações clínicas variam de acordo com a idade e o estado de saúde. Nas crianças mais jovens é uma das principais causas de doença respiratória e de internamento hospitalar, por exemplo, com bronquiolite, broncospasmo ou pneumonia.

Ou seja, o aumento da esperança média de vida e de adultos mais vulneráveis, por exemplo, com múltiplas comorbilidades ou imunocompromisso, a par da maior capacidade de diagnóstico têm contribuído para uma melhor caracterização do seu impacto e da importância da sua prevenção, nomeadamente com as novas vacinas recentemente desenvolvidas e aprovadas pelas autoridades competentes.

 

Mas porque não se falava tanto nesse vírus e agora há registo de muitos casos?

Era um vírus antigo, mas não se diagnosticava. Agora faz parte da rotina de diagnóstico e por isso descobriram-se muito mais casos.

 

Então a pandemia fez essa mudança: ajudou no diagnostico de muitos velhos vírus que andam a circular, mas não se identificavam?

Sim.  E também pela menor circulação desses vírus durante os três anos e menor imunidade, há mais casos atualmente. Antes as PCR eram mais caras e menos disponíveis.

O Vírus Sincicial Respiratório é muito contagioso e provoca doença respiratória aguda em pessoas de todas as idades. Nas crianças mais jovens é uma das principais causas de doença respiratória e de internamento hospitalar

De todos os vírus que são conhecidos qual o mais perigoso?

Provavelmente agora seria o da varíola porque já ninguém tem defesas contra ele. Daí o seu potencial para a ser utilizado numa guerra biológica. Há igualmente vírus da gripe muito perigosos. Por exemplo, os H5.

 

São os mais letais para o Homem?

A gravidade de uma infeção provocada por vírus depende sempre das características intrínsecas do próprio vírus e das características do hospedeiro, onde se inclui a imunidade prévia que pode ser conferida por uma infeção natural ou pela vacinação.

Ao longo da história, vários vírus destacaram-se por apresentarem maior mortalidade, como os vírus Influenza, Coronavírus, Ébola, Marburg, Hantavírus, Dengue e da Varíola.

 

A varíola foi a única doença erradicada.

Sim até à presente data e devido ao sucesso de uma campanha de vacinação universal. Os últimos casos foram diagnosticados na Somália, em 1977, e a Organização Mundial de Saúde declarou a doença erradicada em 1980. O ressurgimento do vírus da varíola, por exemplo no âmbito de uma guerra biológica, poderia associar-se a uma das maiores letalidades de sempre.

 

Por não haver as tais defesas…

Como o vírus da varíola não circula há mais de 45 anos a grande maioria da população mundial não tem qualquer tipo de proteção ou imunidade prévia tornando-se vulnerável.

 

As alterações climáticas estão a interferir na circulação de vírus e podem mudar a época e os períodos sazonais das doenças respiratórias?

Sem dúvida. As alterações climáticas e alguns dos mecanismos envolvidos nestas alterações, tais como, a desflorestação, a destruição dos habitats naturais, podem condicionar a ocorrência de surtos de doença fora dos períodos mais habituais. E podem também adiar, encurtar ou alargar os períodos sazonais associados a maior transmissão viral e a doença.

 

Há algum exemplo?

Nos anos anteriores à pandemia, o início da circulação do vírus da gripe (ou vírus influenza), no continente europeu, foi sendo cada vez mais tardio o que justificou o desvio do começo das campanhas de vacinação de setembro para outubro.

O descongelamento do permafrost, os gelos congelados há milhares de anos, pode, igualmente, condicionar o aparecimento de novos microrganismos “adormecidos” há milhares de anos e desconhecidos para os nossos sistemas imunitários.

 

Há alguma diferença entre gripe de verão e de inverno?

Em teoria não, na prática pode acontecer. A forma de apresentação e a gravidade da gripe dependem das características da estirpe do vírus influenza e da suscetibilidade do hospedeiro. Embora a gripe seja habitualmente uma doença sazonal e dos meses frios, podem ocorrer casos em qualquer altura do ano. Os casos que ocorrem no verão, em habitantes do hemisfério norte, podem resultar de contactos ou viagens ao hemisfério sul, numa altura em que as vacinas administradas a partir de Outubro já não têm eficácia. A raridade dos casos durante o verão pode atrasar o diagnóstico e a implementação das medidas terapêuticas mais adequadas, agravando o prognóstico.

 

O mar pode ajudar com as doenças respiratórias?

A deslocação ao mar, por exemplo, a ida à praia durante as férias de verão está associada a ambientes atmosféricos mais limpos e a contextos mais relaxantes. A menor poluição e a descontração são sempre favoráveis e, no caso das doenças respiratórias, associam-se a menor exposição a substâncias irritantes ou poluentes e por isso a menor agressão das vias aéreas e menos queixas. Para os fumadores a deslocação a locais mais limpos e inspiradores pode ser uma excelente oportunidade para deixar de fumar.

A OMS identificou centenas de microrganismos com potencial pandémico. Destes, o vírus influenza, nomeadamente de origem aviária, e os coronavírus vão obrigar a uma vigilância mais atenta e a nível mundial.

Quais as grandes ameaças dos próximos tempos?

A Organização Mundial de Saúde identificou centenas de microrganismos com potencial pandémico. Destes, o vírus influenza, nomeadamente de origem aviária, e os coronavírus vão obrigar a uma vigilância mais atenta e a nível mundial. A espécie humana não vive sozinha no planeta Terra e temos de aprender a viver em equilíbrio na nossa casa comum. A desflorestação, a destruição dos habitats naturais e o descongelamento, entre outros, representam uma ameaça à escala global de consequências muito gravosas e potencialmente irreversíveis. Não nos podemos esquecer que só neste século tivemos duas pandemias e a que agora terminou durou três anos e teve um impacto extremamente nefasto e negativo nos indivíduos e no mundo.

A principal ameaça dos próximos tempos resultará, assim, de não termos aprendido nada durante a recente pandemia e não valorizarmos a ciência e o conhecimento. Uma ameaça que não é de hoje como tão bem sintetizou o famoso filósofo alemão Friedrich Hegel na sua citação: “O que a História nos ensina é que a História não nos ensina nada.”

 

Mas a pandemia não nos ensinou nada?

Apesar das suas repercussões negativas, a pandemia foi um manancial de ensinamentos. Há, pelo menos, três lições transversais a todos os sectores. A primeira é a importância determinante da ciência e do conhecimento para a organização e planeamento. A segunda o teste que representou à nossa capacidade de viver em comunidade. E a terceira a valorização da saúde, dos serviços de saúde e dos seus profissionais.

 

E o que é que se aprendeu na área das doenças respiratórias?

A pandemia esclareceu todas as dúvidas sobre a utilidade das medidas de intervenção não farmacológica e, sobretudo, da prevenção. A máscara facial, a etiqueta respiratória, a higienização das mãos e a distância de segurança foram decisivas e permitiram ganhar tempo e minimizar as consequências desta e das próximas ameaças. A prevenção da infeção e, em particular da gravidade dada pelas vacinas foram a solução para terminar a pandemia e o seu valor provou ter significado para todas as doenças.

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