A História cercada – I

Os alunos querem saber mais sobre a Ucrânia e a Rússia. Querem saber se a guerra é perto, se há riscos. Uma oportunidade para repensar o ensino da História nas escolas, diz o professor Paulo Guinote.

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Manhã de quinta-feira, 9 da manhã, 24 de Fevereiro, aula de Português de 6.º ano. Acabara de se saber que, no terreno, tropas russas tinham há poucas horas invadido a Ucrânia.

Apesar do tema previsto ser o fim da leitura da obra «Ulisses» de Maria Alberta Menéres, ninguém estava propriamente muito preocupado com isso. Para a miudagem com 10-11 anos é a primeira vez que ouvem falar em «guerra na Europa». E a maioria está interessada em saber o porquê, o como e tudo quanto lhes ocorrer perguntar. Afinal, porque quer a Rússia invadir a Ucrânia? É verdade que a Ucrânia já fez parte da Rússia?

São petizes de escassa idade, mas este tipo de perguntas espalhou-se pelas escolas, não apenas em aulas de História, com alunos de outras idades, por todos os anos da escolaridade obrigatória. Porquê? Porque mesmo no 12.º ano é bem possível que nem alguma vez tivessem ouvido falar na Ucrânia como país independente e muito menos das atribulações sofridas com as partilhas territoriais entre polacos, russos, austríacos e até, mais remotamente, lituanos.

Nesse aspecto, pelo menos com esta turma, sinto-me afortunado, pois há imensa curiosidade por quase tudo, incluindo matérias curriculares, extra-curriculares ou outras que surjam na actualidade. Ainda estão a sair da «pandemia» e já ouvem falar em «guerra».

Não percebem se é perto, se há riscos de chegar até nós, quais as consequências, são muitos (28) e quase todos têm questões a colocar. Felizmente, o professor de Português também é do História, pelo que, dos dois «lados», não há dúvidas quanto ao assunto do dia.

Há imensa curiosidade por quase tudo. Ainda estão a sair da «pandemia» e já ouvem falar em «guerra». As perguntas sucedem-se.

Paulo Guinote

As perguntas sucedem-se e é necessário aliar os conhecimentos disciplinares com os recursos do omnipresente google, para que às explicações teóricas seja possível associar cronologias, mapas de fronteias ou gasodutos. Contextualizar a região no presente e no passado. O tempo escasseia, os 90 minutos escoam-se como se fossem metade ou menos. Fica mais para a próxima, dão-se pistas para pesquisarem e irem em busca de mais informação.

Se é verdade que até ao 6º ano, os alunos passam apenas pela História de Portugal, no 3º ciclo a fragmentação curricular deixou à História um par de fatias semanais que mal dão para um programa que foi reduzido ao «essencial», numa perspectiva em que se tratam temas e momentos históricos quase desligados entre si, sem um verdadeiro fio condutor. Em que a História da Europa surge de forma esporádica e cada vez de um modo mais envergonhado.

Se não lhes explicar agora a origem do que se passa, o mais certo é nunca mais terem essa possibilidade. Por isso, é importante que se tenha coragem para esquecer os normativos, as regras definidas a régua e esquadro pela miopia de quem, de tanto querer parecer moderna, tolerante e plural, acaba por esquecer que a aprendizagem da História não se pode fazer como se fosse uma espécie de sortido pobre de conteúdos colhidos aqui e ali, conforme o gosto deste ou aquele grupo, desta ou aquela moda passageira.

Se não lhes explicar agora a origem do que se passa, o mais certo é nunca mais terem essa possibilidade.

Paulo Guinote

Se desde a já «velha» escola dos Annales se pretende que a História vá além do particular, do episódico, que se alongue no tempo longo, na geografia ampla, nem sempre se percebeu que isso não se deve fazer esquecendo a matriz original de cada sociedade, pois só assim se faz verdadeiramente um confronto da evolução das mundivisões que, em paralelo, formaram a Humanidade no que ela tem hoje de comum e diferente. Se não devemos centrar-nos apenas na Europa (definida pelo Mediterrâneo desde a Antiguidade Clássica, pelo Atlântico a partir da Idade Moderna ou por qualquer outro ponto axial) ao ensinar a História, isso não pode significar que esqueçamos o que a tornou o centro do desenvolvimento político, económico, tecnológico e cultural do nosso planeta pelo menos até ao final do século XX.

Só que o ensino da História tem sido em Portugal, pelo menos em termos oficiais, objecto de sucessivas amputações com os pretextos mais falaciosos. Afirma-se a necessidade de abandonar uma perspectiva eurocêntrica, mas em vez de alargar o seu alcance, reduz-se o tempo para a leccionar no currículo, «emagrecendo-se» os seus conteúdos. Onde deveria ter havido expansão, verifica-se contracção. Um aluno pode terminar o Ensino Básico ou a escolaridade obrigatória (mesmo seguindo Humanidades) sem perceber minimamente a origem dos conflitos que marcaram e marcam a História da Europa nos últimos 150 anos. Ou mesmo nos últimos 50 anos.

O ensino da História tem sido em Portugal, pelo menos em termos oficiais, objecto de sucessivas amputações com os pretextos mais falaciosos

Paulo Guinote

Pode parecer estranho a quem esteja por fora do assunto, mas a História do século XIX é uma espécie de terra de ninguém, entre o 8.º e o 9.º ano, saltando-se das revoluções liberais (numa versão muito mitigada) quase directamente para as alianças geoestratégicas de inícios do século XX que estão em parte na origem da Primeira Guerra Mundial, sem que se tenha qualquer preocupação em explicar os movimentos nacionalistas que redefiniram as fronteiras europeias depois de um Congresso de Viena que nem sequer é considerado um conteúdo digno de menção (tal como a guerra franco-prussiana ou a Comuna de Paris). No início do século XX, nações como a Alemanha ou a Itália surgem como se fossem entidades com uma longa existência, quando acabavam de ser constituídas. O Império Russo, e o regime dos czares, cai de súbito na mesa dos alunos, tal como o Império Austro-Húngaro ou mesmo o Otomano.

Explica-se o início da guerra em 1914 a partir do assassinato do arquiduque Francisco Fernando por “nacionalistas sérvios”, sem que se perceba de onde surge a Sérvia ou porque era então motivo de disputa entre Viena e Moscovo. Aliás, até então, a História «essencial» que é recomendada para caber em 2 tempos semanais do 7.º ao 9.º ano (por vezes com uns magnânimos 3 tempos num desses anos), ignora completamente tudo o que se relaciona com a Europa central ou a Europa de Leste. Ultrapassado o Império Romano (despachado de forma cada vez mais «magra»), a «Europa» da História do Ensino Básico mal chega ao Reno até ao início da Grande Guerra.

Sabe-se, da Geografia, que a Rússia existe, mas nada, absolutamente nada, se sabe acerca das disputas que se estenderam por séculos nas regiões atravessadas pelo Elba, o Oder, o Vístula ou o Danúbio. Sobre a Escandinávia, mais um imenso vazio. Acaso alguém acha útil que se saiba que no século XVIII o reino da suécia ia da Noruega à Carélia e à Pomerânia, fazendo com que o Báltico fosse quase um «mar sueco»? Fala-se tanto da Finlândia em matéria de Educação, mas o que se sabe, nem que seja de modo vago, dos longos períodos em que não passou de território dominado pelas potências vizinhas? E no Secundário, não se vai muito mais longe. Ou quase nada.

Pode parecer estranho a quem esteja por fora do assunto, mas a História do século XIX é uma espécie de terra de ninguém, entre o 8.º e o 9.º ano.

Paulo Guinote

Queremos cidadãos informados, mas quantos alunos terminam a escolaridade percebendo quantas nacionalidades integradas no Império Austro-Húngaro se reagruparam há 100 anos, para depois se voltarem a desagregar? Sim, no 9.º ano fala-se de forma breve sobre a desagregação da URSS, mas, mesmo já tendo passado várias décadas, nada se explica sobre a constituição e implosão do país que foi a Jugoslávia, onde a guerra esteve mais perto do centro da Europa no final do século XX. Como se pode querer formar cidadãos que compreendam o presente, se lhes é negado o conhecimento do passado de uma forma integrada, coerente e sequencial, do continente onde vivemos e de que tanto se fala, sem que se explique como se definiram as suas fronteiras e as formas que assumiu ao longo da História?

Há quem, infelizmente, com base na crença errada que a «actualidade»” se pode perceber sem contextualização, não compreende que a aprendizagem da História para além das abordagens epidérmicas é uma arma poderosa contra a maioria dos preconceitos que estão na origem de muitos conflitos. Em especial quando consegue escapar a truncagens e instrumentalizações, mais fáceis quando o seu conteúdo é reduzido a uma selecção de segmentos tidos como “essenciais”, leccionados de semana em semana, por vezes de semestre em semestre, como se fosse coisa de pouca importância, dispensável, mera formalidade de disciplina de segunda ordem.

«Finalmente, para que serve a História? (…) a História é para o auto-conhecimento humano. Julga-se, geralmente, que é importante, para o homem, que ele se conheça a si próprio, não querendo isto dizer que ele conheça as suas particularidades meramente pessoais, aquilo que o diferencia dos outros homens, mas sim a sua natureza de homem. (…) Conhecer-se a si mesmo significa saber o que se pode fazer. (…) O valor da História está então em ensinar-nos o que o homem tem feito e, desde modo, o que o homem é.» (R. G. Collingwood, A Ideia de História. Lisboa: Presença, s.d., p. 22)

 

 

 

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