O que quer Putin?

Três razões que explicam a decisão do presidente russo de avançar com o reconhecimento unilateral de independência das auto-proclamadas Repúblicas de Donetsk e Lugansk na Ucrânia.

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A levar a sério as sucessivas declarações de Vladimir Putin e do aparelho diplomático russo, o Kremlin está preocupado com a degradação da situação político-militar no Donbass, região leste da Ucrânia, e com as difíceis condições de vida das populações que, numa expressiva maioria, são russófonas.

E contudo esta não é uma situação nova. Muito pelo contrário, arrasta-se desde que, em 2014, a península da Crimeia (que alberga a única base naval russa com acesso aos mares quentes) foi ocupada e anexada precisamente pela Federação russa, e desde que a situação de insurgência de baixa mas persistente intensidade resultou na declaração unilateral de independência das auto-proclamadas Repúblicas de Donetsk e Lugansk. Passados quase oito anos sobre estes acontecimentos, porque é que só agora o Kremlin resolveu reconhecer a declaração desses territórios separatistas e porque o faz no seguimento de um processo de evidente concentração militar na fronteira com aquela zona ucraniana?

Esta não é uma situação nova. Arrasta-se desde que, em 2014, a península da Crimeia foi ocupada e anexada precisamente pela Federação russa.

Lívia Franco

Parte da resposta a estas questões encontra-se no valor estratégico que a Ucrânia no seu todo, mas em particular naquela zona contigua ao território russo e costeira ao mar Azov, tem e sempre teve para Moscovo.

Na concepção de segurança nacional com que as autoridades políticas e militares russas trabalham, aquele país é um pivot geopolítico fundamental: não só constitui a linha de defesa avançada de uma eventual invasão procedente da Europa, como serve de cordão sanitário ao contágio do modelo político, económico e civilizacional vindo do Ocidente. Todavia, para que efetivamente assim o seja, é necessário que o governo de Kiev esteja em sintonia com Moscovo e compreenda a prioridade dos interesses russos sobre os seus próprios.

Tal como acontece por exemplo com Minsk (basta ver as facilidades concedidas por Lukashenko aos exercícios militares conjuntos ainda em curso entre os dois países), e como deveria acontecer com todas as capitais dos países formalmente independentes do espaço pós-soviético. No jargão da política externa russa este espaço é designado de ‘estrangeiro próximo’ e é coincidente com as fronteiras de segurança russas. Acontece que desde a revolução de Maidan em 2013, e depois da revolução Laranja de 2004, que as autoridades em Kiev têm vindo a demonstrar querer prosseguir um caminho de autonomia política, económica e estratégica. Ora, para o Kremlin isso é inaceitável.

 

Para a Rússia, a Ucrânia é um pivot geopolítico fundamental: não só constitui a linha de defesa avançada de uma eventual invasão procedente da Europa, como serve de cordão sanitário ao contágio do modelo político, económico e civilizacional vindo do Ocidente

Lívia Franco

A este primeiro ponto, essencialmente nacional, acresce, porém, um outro de índole regional e que assenta na leitura que Moscovo, e especialmente o presidente russo, fazem do processo de adesão às estruturas euro-atlânticas dos países da Europa central e oriental.

No entendimento de Putin e do aparelho político-militar russo, longe de significar um regresso à normalidade histórica europeia interrompida pela Segunda Guerra Mundial e pela Guerra Fria, o alargamento da NATO e da União Europeia aos antigos países satélites da União Soviética e às três repúblicas bálticas, resultou de uma estratégia intencional articulada entre Washington e Bruxelas para enfraquecer a Rússia. Apanhando o Kremlin num momento de fragilidade e de crise ontológica, as sucessivas vagas de expansão destas instituições serviram para cercar a Rússia, questionando não só a sua segurança, mas também o seu lugar de grande potência no velho continente e no resto do mundo.

A esta ‘traição’ do Ocidente, a liderança russa tem estado a responder por um lado, com o fortalecimento e a modernização da capacidade militar da própria Rússia e, por outro, com a contestação da legitimidade dessas mesmas instituições euro-atlânticas que na ótica do Kremlin foram herdadas de um contexto já inexistente. Urge agora a sua substituição por uma nova arquitetura de segurança pan-europeia que reconheça à Federação Russa o lugar que lhe corresponde pelo seu peso histórico, político e militar. A atual escalada de tensão no leste europeu e a instabilidade daí resultante devem ser lidas precisamente nesse sentido: como uma tentativa de Moscovo para dividir e enfraquecer os aliados europeus e transatlânticos, mas igualmente como um passo adicional na demonstração de que aquelas instituições são totalmente incapazes de assegurar a estabilidade do espaço euro-atlântico e, portanto, é tempo de as substituir.

Para Putin, o alargamento da NATO e da União Europeia aos antigos países satélites da União Soviética e às três repúblicas bálticas, resultou de uma estratégia intencional articulada entre Washington e Bruxelas para enfraquecer a Rússia

Lívia Franco

Por fim, um terceiro ponto, que decorre da ponderação das recentes ações russas no enquadramento global. No atual contexto de transição para uma configuração internacional do tipo bipolar – assente na competição sino-americana – é óbvio que a Rússia tem de reagir para continuar a ter acesso e voz à mesa das negociações das potências globais. Aliás, uma política externa bem sucedida depende muito dessa habilidade em se maximizarem as oportunidades estratégicas. Ora, é isso mesmo que Vladimir Putin está a fazer: a reforçar o seu jogo num xadrez internacional onde a sua posição e agenda contam cada vez menos.

Primeiro, aproveitando a política de retração norte-americana da Europa, do Próximo Oriente e da Ásia Central com vista a um maior foco na área do Indo-Pacífico e na rivalidade com a China. E, por associação, tirando igualmente partido do ensejo da Administração Biden de utilizar os recursos financeiros assim disponíveis na resolução da polarização política interna e numa melhor gestão dos efeitos negativos da pandemia nesse país. Segundo, procurando maximizar a parceria estratégica com a China – pois afinal tanto é do interesse de Xi Jiping como de Putin de destabilizar os Estados Unidos e as suas alianças.

E o facto é que nunca como agora a relação entre Moscovo e Pequim foi tão próxima e esteve tão em sintonia. Não são aliados mas têm objectivos comuns: moldar a ordem internacional aos seus interesses, prosseguir as suas agendas revisionistas e, sobretudo, protegerem os seus regimes autocráticos. A simbiose (apesar de ter limites) é evidente: a Rússia pode contar com a abstenção chinesa nos fora internacionais e na moderação dos efeitos das novas sanções que o Ocidente já começou a implementar, e a China pode contar com o gás e o petróleo russos a preços abaixo do mercado e ainda com a moderação russa face ao seu projeto de expansão global de poder.

Vladimir Putin está a reforçar o seu jogo num xadrez internacional onde a sua posição e agenda contam cada vez menos.

Lívia Franco

São estes três conjuntos de razões que nos ajudam a encontrar as respostas à nossa questão de partida – O que quer Putin? Acontece que se a estratégia de maximização das oportunidades é válida para todos os países, e em especial para as potências, não é menos verdade que para ela ser bem sucedida é preciso garantir que os riscos não são superiores aos ganhos – isto é, ela tem de ser sempre contrabalançada com um critério de prudência política.

Era a isto mesmo que Tucídides se referia quando, no famoso ‘Diálogo de Melos’ da sua História da Guerra do Peloponeso, põe na boca dos negociadores atenienses o seguinte aviso aos temerários habitantes daquela ilha: “Para quem arrisca tudo num lance, só é possível conhecer o verdadeiro carácter do jogo quando o desastre já aconteceu, ou seja, quando afinal se revela a sua precariedade e a esperança não oferece nenhuma oportunidade para desfazer o prejuízo.” Talvez fosse útil ao líder russo regressar aos clássicos da civilização europeia.

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