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A blogosfera portuguesa nasceu no dia 15 de Outubro de 2002, faltavam 20 minutos para as 13h

«Importa perceber, desde já, a dimensão que este fenómeno atingiu em poucos anos. [...] Opto por relembrar que a revista Time, em 2006, elegeu como figura do ano um incrivelmente abrangente "You".»

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Excerto do livro «A Blogosfera Portuguesa: da Coluna Infame ao ocaso de uma era», de Sérgio Barreto Costa.

Convencionou‑se estipular, numa daquelas construções mitológicas de origem desconhecida, que a blogosfera portuguesa nasceu no dia 15 de Outubro de 2002, quando faltavam vinte minutos para a uma da tarde. Num sopro pré‑prandial, Pedro Mexia, na altura com bastante cabelo, revelava ao mundo a boa nova, provando que nem só os profetas do optimismo progressista podem anunciar «amanhãs que cantam». O primeiro post, satisfatoriamente informativo, retirava o véu dos temas (artes, literatura, política e ideias), dos autores (João Pereira Coutinho [JPC] e Pedro Lomba [PL], além do próprio Pedro Mexia [PM]), dos destinatários (qualquer pessoa que soubesse ler, mas com um sublinhado especial em conservadores, liberais e independentes), das influências (Andrew Sullivan e o seu pioneiro blogue), da forma de abordagem aos assuntos (independente e livre) e das ocupações do trio (JPC estava a civilizar‑se em Oxford, PL a dar início a uma carreira na advocacia, e PM a gastar os assentos dos cafés de Lisboa, com um olho na literatura e outro nas miúdas giras — e talvez também nas apenas relativamente feias, ou nas balzaquianas, ou em outras possíveis combinações dos géneros anteriores).

A referência a Andrew Sullivan, logo na abertura do projecto, é esclarecedora quanto à mundividência dos seus autores. O influente britânico radicado nos Estados Unidos, mais do que um exemplo da arte de bem escrever, é um símbolo da heterodoxia e do pensamento crítico e livre. Católico e homossexual, de direita e desconfiado dos republicanos americanos, conservador Oakeshottiano e consumidor regular de canábis, Sullivan representa tudo aquilo que a direita portuguesa não era antes da «revolução cultural» (expressão muito provocatória, eu sei, mas já lá vamos) dos anos 80.

Invocando a obra de Alessandro Manzoni (não confundir com o escatológico artista Piero Manzoni, mais ligado à indústria das conservas), foi o recém‑nascido baptizado com o nome A Coluna Infame e alojado no domínio americano blogspot.com, um grande armazém virtual lançado em 1999 e responsável, por causa da relativa simplicidade de funcionamento, pela popularização dos weblogs. Antes reservados a comandantes da marinha, barba branca e cachimbo incluídos, sob a designação de logbooks (diários de bordo, em versão portuguesa), ou a adolescentes ensimesmados e borbulhentos que, inevitavelmente, os fechavam a sete chaves nos intervalos da escrita, os diários em tempos de rede assumiam a vertigem da abertura e da partilha, escancarando ao mundo muito do que era, até aí, do domínio da vida privada.

Importa perceber, desde já, a dimensão que este fenómeno atingiu em poucos anos. Não vou atirar números para aqui, embora vários (e esmagadores) existissem para corroborar a epidemia; opto por relembrar que a revista Time, em 2006, elegeu como figura do ano um incrivelmente abrangente «You» («Você», em português), querendo com isso homenagear os muitos milhões de pessoas que, em todo o mundo, alimentavam diariamente a Era da Informação com conteúdos digitais variados. Não eram só os blogues que estavam em causa, claro, todas as plataformas que constituíam a chamada Web 2.0 (ou Web participativa) estavam abrigadas pelo reconhecimento da publicação americana, da Wikipedia ao YouTube, sem esquecer o — na altura ainda pequeno e pouco polémico — Facebook, mas o texto que justificava a escolha deixava clara a relevância dos bloggers neste novo tipo de entendimento universal, capaz de abalar, vigorosamente, a teoria historiográfica dos «grandes homens» popularizada no século xix pelo filósofo escocês Thomas Carlyle (e que nunca deixou de ter adeptos, como se comprova pelo sucesso permanente das biografias de Churchill e restantes figuras históricas consideradas providenciais). Para a Time, com a Web 2.0 e ao contrário da proposição preconizada por Carlyle, os anónimos cidadãos, como um infinito exército de formigas, também tinham o poder de moldar decisivamente o destino colectivo da humanidade, libertando‑se do papel passivo e secundário de joguetes de umas poucas dúzias de poderosos.

Enfim, há aqui algum exagero, como é normal quando se tenta justificar uma escolha desta importância, e basta lermos o que o francês Tocqueville, também no século xix, escreveu sobre o que viu na sua viagem à América — «O espírito humano desenvolve‑se graças aos pequenos esforços conjugados de todos os homens, e não por meio do impulso poderoso conferido por alguns deles» — para perceber que esse exagero nem sequer é muito original. Todavia, negar o carácter revolucionário, para o bem e para o mal, da Web 2.0, onde todos, do estudante de informática até à sua avó, podem ser, além de consumidores, produtores de conteúdos, seria um exagero ainda maior.

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