A ciência em 2021

Opinião de Carlos Fiolhais, professor e investigador de física na Universidade de Coimbra.

4 min. leitura
Ler mais tarde Remover artigo

2021 vai ser, em Portugal e no mundo, o ano da recuperação da crise pandémica: as vacinas, que a ciência preparou em tempo recorde, vão dar um contributo decisivo nesse sentido. Mas, para isso, temos não só de ter um plano de vacinação inteligente e efectivo, prevendo com precisão grupos populacionais e datas, mas também convencer os mais cépticos das vantagens individuais e colectivas da vacinação.

Além das vacinas, outras medidas preventivas vão continuar a ser temporariamente necessárias. Contudo, a pandemia vai passar no decorrer de 2021. Convém aprender as lições que ela nos transmitiu, designadamente, por um lado, a necessidade de mais ciência, em particular a necessidade de reforçar o investimento nacional em ciência e tecnologia (1,4% do PIB, muito abaixo da média europeia, que é de 2,1%) e, por outro lado, de maior solidariedade e cooperação às escalas nacional e internacional.

Devemos saber ver para além da pandemia: as alterações climáticas constituem uma questão vital para a humanidade e não podemos hesitar no caminho para a neutralidade de emissões de dióxido carbono. Tanto as questões das pandemias como das alterações climáticas convocam a humanidade à acção com base no melhor conhecimento científico, que nos dias de hoje deve ser multidisciplinar. 

Apesar de haver aplicações práticas do saber (tanto na saúde como no clima sem ciência estaríamos perdidos), não podemos esquecer que a mola da ciência é a curiosidade. Há grandes questões que nos inquietam e com as quais os cientistas se confrontam em nome da humanidade. Por exemplo, na física, saber o que são a matéria escura e a energia escuras e avançar na computação quântica. Na astronomia, saber se há planetas como a Terra com capacidade semelhante de albergar vida.  Na biologia, conhecer a origem da vida. Na medicina, avançar na relação entre genética e doenças e conhecer melhor o nosso processo de envelhecimento. Nas neurociências e na psicologia, saber o que é a consciência.

Há muitos jovens com talento a quem se deve dar a oportunidade de investigar nestes e noutros domínios, contribuindo para o fortalecimento do nosso sistema científico.

Finalmente, devemos compreender que há outras dimensões humanas para lá da ciência - por exemplo a ética e a estética - com as quais a ciência pode e deve dialogar, na procura das melhores soluções para a nossa vida comum.

Ler do início
Achou este artigo útil?

58 leitores acharam este artigo útil.