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Autores da Fundação sugerem 6 livros para o seu Natal

De Chimamanda Ngozi Adichie e Ta-Nehisi Coates aos portugueses Manuel Sérgio e Djaimilia Pereira de Almeida, entre outros, conheça as recomendações de autores da Fundação.

Alfredo Teixeira, Carlos Gaspar, Catarina Fróis, Lucília Nunes, Margarida Gaspar de Matos e Sofia Aboim recomendam a leitura de livros publicados em Portugal.

Margarida Gaspar de Matos, autora de Adolescentes: As suas vidas, o seu futuro, sugere Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Ngozi Adichie (2017, Dom Quixote)

Há livros que lemos “de fora” e outros que nos fazem viver com eles, durante a leitura e depois. No Meio Sol Amarelo vive-se o dia-a-dia dos personagens, sempre com o enorme prazer dos pequenos detalhes culturais, de género, geográficos, culinários etc. De repente o livro, que se estava a ler como uma aguarela, com atenção e curiosidade permanentes, faz-nos cair das nuvens, diretamente numa Nigéria em guerra, nas feridas abertas por questões de poder e de iniquidade, no massacre no Biafra!  No meio de vários interditos, ressaltam aqui enormemente a condição feminina em África, a xenofobia, a violência, a pobreza, a iniquidade.

Carlos Gaspar, autor de O Mundo de Amanhã: Geopolítica contemporânea, sugere De Mao a Xi. O ressurgimento da China, de Vasco Rato (2020, Alêtheia)

Vasco Rato, um dos principais investigadores de relações internacionais portugueses, analisa brilhantemente a ascensão da China, desde a restauração da unidade do Estado com Mao Tsetung e a fundação da República Popular da China em 1949 até Xi Jinping, o seu último sucessor à frente do Partido Comunista da China, cujo "Sonho Chinês" antecipa o fim da ordem liberal internacional e a sua substituição por uma nova ordem autoritária para restaurar a posição da China como o centro do mundo. Essa ruptura histórica não é inevitável, mas a força crescente da China garante que a sua tentativa de dominação hegemónica é a questão mais importante da política internacional no princípio do século XXI.

Catarina Fróis, autora de Prisões, sugere Esse Cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida (2015, Relógio D'Água)

Foi no programa À Volta dos Livros que tomei contacto com a escrita de Djaimilia Pereira de Almeida, que havia sido nomeada para vários prémios com a obra Lisboa, Luanda, Paraíso. Recordo-me de ter ficado encantada com a profundidade dos imaginários que evocava e que pareciam tornar simples questões identitárias tão complexas como imigração, colonialismo, racismo, preconceito. O livro Esse Cabelo confirmou essa primeira percepção de estar perante uma escritora de talento excepcional. Quando seguimos os fios do cabelo – afinal o grande protagonista desta narrativa – temos a oportunidade e o privilégio de acompanhar a vida, as origens, a trajectória de uma menina com raízes que se desdobram entre Portugal e Angola, Oeiras e Luanda. Através de uma escrita sofisticada e com uma densidade invulgar na literatura portuguesa recente, visitamos lugares, reconhecemos cheiros, sentimos texturas, partilhamos memórias que trazem mais próximo o sentido de humanidade, o sentido de ser.

Lucília Nunes, autora de E se eu Não Puder Decidir? Saber escolher no final da vida, sugere Nós e os outros. O poder dos laços sociais, de Maria Luísa Pedroso de Lima (2018, FFMS)

É um ensaio que lê de um fôlego, bem escrito, com dados científicos num texto de proximidade e de abordagem plural. Claramente destinado ao grande público, com enfoque simples e a apontar vias de aprofundamento. Gostei muito de o reler este ano, neste nosso tempo atípico, em que nos sentimos sitiados. E recomendo, porque é sempre bom encontrar uma escrita que ecoa em Quem somos, com os Outros. “As identidades pessoais podem ser vistas como as histórias que construímos e contamos acerca de nós e que definem quem somos para nós e para os outros. E são histórias porque têm muito de ilusório, de inventado e de reconstruído. E as ideias que fazemos sobre nós são influenciadas pelos outros.”

Sofia Aboim, autora de A Sexualidade dos Portugueses, sugere A Dança da Água, de Ta-Nehisi Coates (2020, Cultura Editora)

Durante a última década, Ta-Nehisi Coates emergiu como um importante intelectual público e talvez o pensador mais incisivo da América sobre as questões raciais, um tema incontornável em 2020. É mais conhecido como escritor de não-ficção, e foi também assim que o conheci: primeiro através dos textos do Atlantic e, depois, lendo Entre o Mundo e Eu (2015). Mais recentemente,  com o seu trabalho sobre a série de banda desenhada Black Panther e a publicação de A Dança da Água, oferece-nos um exercício de ficção especulativa, que funde a narrativa da escravatura com os géneros de fantasia e da ficção científica, onde um protagonista, Hiram Walker, que consegue magicamente lembrar-se de tudo e é salvo de uma morte certa por um poder misterioso, ganha vida própria. A prosa de Ta-Nehisi, poética, lírica, comovente, mantém-se ao mais elevado nível, numa obra que mistura brilhantemente a memória pessoal com a memória coletiva, mostrando-nos caminhos alternativos que apenas uma imaginação brilhante, mas sempre crítica, consegue engendrar. Mestre no ensaio, este primeiro romance de Ta-Neisi recebeu críticas mistas, apesar de premiado com o National Book Award e bastante aclamado. Vale a pena ainda assim, sobretudo porque não abandona a esperança. Afinal, o presente mais pungente e doloroso do livro é a fantasia temporária de que todas as pessoas que saltaram de navios de escravos para o Atlântico não se estavam a afogar em terror e angústia, mas sim a regressar a casa. Uma leitura, por isso mesmo, muito recomendada nos tempos que correm e uma porta de entrada original para um autor que vale a pena conhecer.

Alfredo Teixeira, autor de Religião na Sociedade Portuguesa, sugere Da ciência à transcendência, de Manuel Sérgio (2019, Universidade Católica Editora)

A Universidade Católica Editora tem uma nova coleção: «Cátedra Manuel Sérgio – Desporto, Ética e Transcendência». São já três volumes. Sugiro o volume inaugural, uma obra do filósofo Manuel Sérgio. O seu pensamento tem sido o motor de construção de uma singular filosofia do desporto, em Portugal, afirmando-se como o contributo mais decisivo para a formulação de um novo paradigma: a motricidade humana. Manuel Sérgio recorda-nos permanentemente que o desporto dá que pensar, e que pensá-lo  é colocar algumas das perguntas essenciais para compreender o fenómeno humano. O título «Da ciência à transcendência», que aqui sugiro, reúne um conjunto de crónicas publicadas na imprensa. Pensar o desporto como cultura, mobilizar a interrogante ética, pensar o corpo na experiência de transcendência, são linhas que tecem este enredo. Encontrarão nestes textos as qualidades próprias do pensamento que arrisca, para além dos limites do esperado.

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