Capa do livro «Praxe e Tradições Académicas»
Capa do livro «Praxe e Tradições Académicas»

«Praxe e Tradições Académicas»

Autor Elísio Estanque descreve o seu novo livro para a Fundação

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Quais são as raízes históricas da praxe e o que significa ela para os praxantes e os praxados de hoje? Neste texto, Elísio Estanque reflecte sobre os valores da praxe e deixa pistas para a compreensão do seu novo livro «Praxe e Tradições Académicas».

A propósito do livro com o título supra, vale a pena partilhar uma breve nota sobre o tema. O fenómeno das (hoje) chamadas “praxes académicas” tem uma longa tradição na Universidade de Coimbra. Importa lembrar que durante séculos, esta foi a única instituição universitária, de acesso exclusivo dos filhos da elite, destinada à sua formação e visando consolidar e legitimar o seu poder e estatuto. Nos seus primórdios, vigorou o Foro Académico e, mais tarde, a Polícia Universitária velavam (em momentos distintos, diga-se) pelo cumprimento da Lei interna, cuja violação podia pagar-se com o castigo na própria Prisão da Universidade. Depois disso, e após muitas mudanças, decretos, abusos, situações de violência, proibições e decisões atestadas por Bula papal, essa espécie de Estado dentro do Estado de que gozou a Universidade foi perdendo as prerrogativas de antigamente.

Uma vez extinta a referida ordem, a disciplina académica foi em parte transferida para os estudantes mais velhos, que ajudavam a vigiar os mais novos no cumprimento de horários e na imposição de um código ético consentâneo com o estatuto elitista da sua condição. Foi nesse contexto que surgiram as primeiras acções e rituais, sob a forma de trupes, caçoadas, investidas e outras práticas punitivas infligidas aos novatos desse tempo. Presume-se que aí reside a origem histórica das praxes.

O curto passo que liga a “humilhação” à “diversão” constitui uma catarse marcante que exalta e sobrevaloriza os laços tutelares entre “caloiros” e “doutores” ou as amizades entre “iguais na adversidade”. Por isso, alguns chegam a gritar pelo “direito à humilhação”.

Elísio Estanque

Durante séculos, em Coimbra, a cultura estudantil foi-se readaptando e em diversos momentos deu lugar a movimentos culturais, literários, com o teatro, a poesia e a música a marcarem sucessivas linguagens e formas de expressão, mais ou menos boémias, mais ou menos contestatárias e dissidentes face aos regimes políticos do seu tempo. Em alguns momentos, como na década de 1960, os rituais académicos, incluindo a praxe, chegaram a ser usados como forma de dissimulação da resistência estudantil face ao Estado Novo.

Mais recentemente, com a institucionalização da democracia, multiplicaram-se as instituições de ensino superior por todo o país, e os estudantes neste nível de ensino passaram dos escassos milhares para as largas centenas de milhares. A invocação das tradições não esconde, hoje, a sua permanente reinvenção e, ao mesmo tempo, oferece aos jovens a promessa de reconstrução dos laços de pertença coletiva e segurança que (supostamente) têm vindo a ser rompidos em diversas esferas de sociabilidade tradicionais. É à luz destas tendências e sob a influência de pulsões coletivas incontornáveis, que os comportamentais dos jovens estudantes – sobretudo em contextos de multidão e de dinâmicas de grupo – estimulam a adesão massiva às praxes académicas. E é nesse contexto que devemos compreender o significado destes rituais.

O caloiro quando chega está inseguro e não admite a rejeição pelo grupo. Aceita os rituais, mesmo nos momentos em que as “vozes de comando” adquirem um tom mais autoritário, com os corpos em sentido, os olhos no chão ou na deplorável postura “de quatro”. Depois, os “gritos de guerra” (os F-R-A ou as obscenidades gritadas em público), com o fim do ritual e passados esses momentos de “tensão”, vão todos celebrar e “beber em festa”. Divertem-se e “integram-se” por esta via. Quase todos dizem maravilhas da experiência. O curto passo que liga a “humilhação” à “diversão” constitui uma catarse marcante que exalta e sobrevaloriza os laços tutelares entre “caloiros” e “doutores” ou as amizades entre “iguais na adversidade”. Por isso, alguns chegam a gritar pelo “direito à humilhação”. Enfim, no ano seguinte as cenas repetem-se e os papéis alteram-se. Outros protagonistas. E assim se fabrica e perpetua a lógica disciplinar e o respeitinho pela hierarquia.

(O livro «Praxe e Tradições Académicas» está disponível na loja online da Fundação.)

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