Cientistas GPS #63: «O FBI e o RCMP vigiaram anti-salazaristas e informavam a PIDE»

Entrevista a Gilberto Fernandes, investigador da York University, no Canadá, em história das migrações e das comunidades lusófonas.

Qual é a sua área de investigação e porque é que o motiva?

O meu interesse pelos estudos migratórios e os vários temas que lhe estão associados começou com a minha própria experiência como emigrante no Canadá, para onde me mudei em 2004 para me juntar à minha esposa após concluir a minha licenciatura em História Moderna e Contemporânea no ISCTE. Chegado a um contexto bastante diferente daquele em que me formei, a minha identidade cultural, social, racial e política foi redefinida, o que pôs em causa algumas das minhas (in)certezas pessoais. Ao mesmo tempo dividiu-me em duas partes, cada uma crescendo em contextos diferentes e que desde então tenho tentado entrelaçar numa única identidade transnacional. Para além disso, ao remover-me fisicamente das pessoas e dos sítios que me fizeram e que eu dava como garantidas, o ato de emigrar suscitou a necessidade nostálgica de me agarrar a uma vida inteira (24 anos na altura) de memórias desenraizadas do seu contexto; especialmente nos primeiros anos. Ora, a história, talvez mais do que qualquer outra ciência social ou disciplina das humanidades, trata de contextos, reconstruindo-os e explicando-os de forma a possibilitar um melhor entendimento das decisões tomadas no passado e das suas consequências até aos nossos dias.

Foi quando decidi fazer o meu mestrado na Universidade de Toronto que optei por estudar a história das migrações e identidades étnicas. Até então, e apesar de ter muitas experiências de emigração na minha família, tal como a maioria das famílias portuguesas, nunca me tinha interessado por essa área de investigação; fruto, talvez, da marginalidade que esse tema tinha na historiografia portuguesa na altura em que fiz a minha licenciatura (2000-2004). Entendi que a história dos portugueses no Canadá era um nicho ao qual eu podia trazer competências que outros historiadores canadianos não tinham, nomeadamente o conhecimento da língua, da história, e de referências sócio-culturais portuguesas que me permitiram navegar na comunidade com alguma facilidade e superar rapidamente a desconfiança dos meus entrevistados. Trazia comigo também uma boa ideia das clivagens ideológicas, dos subtextos, e dos silêncios deliberados na memória luso-canadiana relacionada com a história contemporânea de Portugal. Para além disso, os poucos estudos que existiam sobre os portugueses no Canadá, grande parte deles publicados nos anos 70, pareceram-me muito pouco convincentes e desatualizados. À medida que fui conhecendo melhor a história das migrações, etnicidades, e identidades raciais no Canadá, nos Estados Unidos, e em outras partes do mundo, fascinei-me pela ideia de diáspora e as múltiplas questões que lhe estão associadas. No caso português, interessou-me o facto de a diáspora estar à várias décadas ligada à construção da nacionalidade portuguesa, às suas narrativas (pós)imperialistas e à política de relações internacionais; algo que eu desconhecia quase por completo apesar de ter feita uma licenciatura em história contemporânea.

O que gostaria de destacar sobre a história dos portugueses no Canadá?

A resposta depende muito do público que a vai ler. Para os portugueses residentes em Portugal, o principal destaque continua a ser o facto de existirem no Canadá, e em várias outras partes do mundo, comunidades de emigrantes e seus descendentes onde a identidade portuguesa, adaptada a esses contextos, não só mantém-se como tem vindo a intensificar-se nas últimas décadas. Identidades essas cuja expressão e actividade étnica influenciam a forma como Portugal é considerado (actualmente de forma muito positiva) noutros países. As comunidades luso-canadianas, apesar de não estarem entre as mais numerosas da diáspora portuguesa, tiveram um impacto substancial na história de Portugal, inclusive no apoio e na oposição ao governo português durante e depois do Estado Novo, entre diversas outras áreas. Por exemplo, Humberto Delgado foi assassinado em fevereiro de 1965, três meses antes de cumprir uma viagem a Toronto organizada por um grupo de antifascistas portugueses nessa cidade com quem manteve contacto regular desde o assalto ao Santa Maria em Janeiro de 1961; altura essa em que se deu um motim em frente ao consulado português na Bay Street, no coração financeiro da cidade (e do país), opondo violentamente cerca de mil pró- e anti-Salazaristas até a polícia intervir. Henrique Cerqueira, o principal responsável pela teoria da conspiração que acusava os comunistas de pactuarem no assassinato de Delgado, visitou Toronto pouco tempo depois e recolheu fundos para uma ação revolucionária que não aconteceu. No ano seguinte, os anti-Salazaristas de Toronto e Montreal organizaram a quarta conferência internacional para a amnistia dos presos políticos portugueses - depois de São Paulo, Montevideo e Paris - com o apoio da FPLN. Conferência essa que recolheu apoios e contou com a participação de diversas figuras da elite cultural e política canadiana e internacional, inclusive Pierre Berton, Northrop Frye, Bertrand Russell, entre outros, e que trouxe bastantes dores de cabeça ao regime. Já depois do 25 de Abril, Salgueiro Maia visitou Toronto e Montreal acompanhado de uma comitiva oficial do governo revolucionário para conhecer as expectativas dos emigrantes. Quase um ano depois, em setembro de 1975, foi a vez de Spínola, que veio à procura do apoio moral e financeiro da comunidade açoriana (especialmente) para uma contra-revolução conservadora; e encontrou-o, juntamente com os protestos dos apoiantes do MFA naquela cidade. Umas semanas antes, haviam sido os conservadores na comunidade a demonstrarem-se pelas ruas do bairro português de Kensington Market clamando "morte aos comunistas." Podia dar muitos mais exemplos, noutros períodos, noutras localidades, não só ligados à história política, que confirmam esta relação entre a história da diáspora e a de Portugal.

Para o público luso-canadiano, bem como para outras comunidades da diáspora, o principal destaque é a tomada de consciência de que têm a sua própria história, que vai para além dos momentos de partida e chegada ou dos anos de adaptação ao país de acolhimento e que é rica em eventos, personagens, e estórias de bastante interesse. São histórias que merecem ser preservadas, examinadas e divulgadas, não apenas no seio dessas comunidades mas também entre os membros das sociedades de origem e de acolhimento. Não se trata isto simplesmente de uma questão de afetividade ou compromisso, mas da constatação de que as histórias da diáspora estão intimamente ligadas com os seus contextos locais, nacionais, e globais, nos quais os emigrantes e seus descendentes foram agentes ativos e não meros espectadores. Por outras palavras, a história dos luso-canadianos é história do Canadá e é história de Portugal.

Se os investigadores não ocuparem os múltiplos espaços de disseminação de informação e criação de conhecimento, outros agentes mais ou menos preparados e organizados, e muitos vezes sem escrúpulos, continuarão a propagar narrativas na maioria dos casos incompletas, distorcidas ou simplesmente falsas

Gilberto Fernandes

Em que consiste o seu dia-a-dia de trabalho?

O meu trabalho varia muito de dia para dia, dependendo das prioridades com que me deparo não só como investigador mas também como professor universitário, historiador público e pai - trabalhar a partir de casa com duas crianças pequenas durante o confinamento tem sido um desafio muito grande. As minhas tarefas frequentes incluem a preparação e lecionamento das minhas aulas e apoio aos alunos; a liderança dos meus projectos de história pública, que engloba a preparação de orçamentos e de candidaturas a fundos, contratação de investigadores e outros auxiliares, produção e realização de vídeos, documentários e podcasts, desenvolvimento e curadoria de plataformas de humanidades digitais e de exposições itinerantes, alcance comunitário e apoio à doação de documentos históricos para os arquivos. Ocasionalmente participo em comissões de organizações comunitárias e sou convidado a fazer apresentações em painéis académicos e palestras públicas, ou a fazer intervenções nos órgãos de comunicação social.

No tempo que resta faço a minha investigação, que nos últimos três anos tem sido dedicada à história da indústria da construção no Ontário, especialmente o contributo dos imigrantes (inclusive dos Portugueses), as suas lutas laborais, a evolução das condições de segurança no trabalho e o impacto das novas tecnologias. Aí pesquiso um vasto leque de fontes primárias em diversos arquivos, inclusive jornais, fotografias, filmes noticiosos e de instrução, manuais de operação, legislação, correspondência e relatórios governamentais, entre outros. Felizmente, grande parte destes documentos estão digitalizados e disponíveis em arquivos online. Sem isso ser-me-ia impossível continuar a minha investigação durante a pandemia de Covid-19. Para uma ideia mais concreta do que isto significa, desde que dei início ao meu actual projecto, em janeiro deste ano, já compilei mais de 300 páginas de notas, fruto da leitura de dezenas de milhares de documentos, praticamente todos eles em arquivos online. Isto corresponde mais ou menos a um terço das fontes primárias que tenciono consultar para este projeto.

Ao longo da sua carreira, qual foi o episódio profissional que mais o marcou?

Não sei precisar um momento singular. Felizmente, a minha carreira de investigador, educador e historiador público, que sempre se entrelaçaram, tem-me proporcionado várias experiências marcantes. A primeira aula lecionada, a primeira exposição, o primeiro documentário, o primeiro livro, o primeiro prémio, foram todos momentos importantes para mim, uma vez que foram ao mesmo tempo conclusão e ponto de partida de muito trabalho. Mas o que mais me motiva é o contacto que tenho tido ao longo dos anos com o público não académico; pessoas que vêm aos meus eventos de história pública e que se aproximam nas minhas exposições e passeios históricos, que me escrevem ou telefonam depois de verem o meu documentário ou lerem o meu livro, e partilham comigo as suas memórias e impressões. Para além de ser bastante recompensador a nível humano, essa proximidade tem sido muitas vezes útil para a minha investigação, na medida que me alertam para novas fontes e questões que desconhecia.

No que toca à minha investigação sobre a diáspora portuguesa na América do Norte, a descoberta que mais marcou o meu trabalho foi a influência que os diplomatas do Estado Novo tiveram na formação das instituições e na relação com os líderes das comunidades portuguesas no Canadá e Estados Unidos, bem como a extensa penetração da propaganda lusotropicalista nos media norte-americanos. Outra revelação importante foi saber que o FBI e o RCMP vigiaram e partilharam inteligência sobre anti-Salazaristas exilados, alguns deles cidadãos americanos e canadianos, inclusive anticomunistas, com a PIDE, que por sua vez utilizou em alguns casos essa informação para os prender e interrogar quando voltavam a Portugal. Já na minha investigação sobre os imigrantes na indústria da construção em Toronto nas décadas de 1950 a 70, o que mais me marcou foi ler as notícias e escrever breves resumos sobre cada um dos mais de 240 trabalhadores que morreram em acidentes em projectos de construção, fruto das péssimas condições de trabalho e da fraca legislação e vigilância sobre a segurança no trabalho no Ontário.

Que impacto é que a sua investigação poderá ter na sociedade e no mundo?

No momento que atravessamos, em que o anti-ciência, o anti-intelectualismo e o populismo autoritário têm uma enorme influência cultural e política, é absolutamente essencial que os académicos desçam das suas torres de marfim, os que ainda lá estão, e que interajam com o público geral das mais diversas formas. Para investigadores que não estejam habituados (e mesmo para os que estão) a apresentar e discutir o seu trabalho fora da segurança das convenções académicas e do relativo conforto das universidades, a necessidade de simplificar argumentos sem perder a complexidade essencial das ideias e dos factos, e a perspectiva de ter de responder a perguntas não convencionais de um público provavelmente menos conhecedor, é por vezes assustador. Eu próprio já tive de moderar situações em que membros do público quase se exaltaram com as declarações perfeitamente substanciadas e pouco controversas, a meu ver, de uma colega historiadora durante uma palestra pública que organizei. Mas se os investigadores não ocuparem os múltiplos espaços, cada vez mais difusos, de disseminação de informação e criação de conhecimento, outros agentes mais ou menos preparados, mais ou menos organizados, e muitos vezes sem escrúpulos, continuarão a propagar narrativas na maioria dos casos incompletas, distorcidas ou simplesmente falsas. O facto de se debruçarem sobre nichos temáticos de interesse público limitado, como é o caso de grande parte dos investigadores sociais e das humanidades, não justifica a timidez. Com a internet, todos os nichos têm ao seu dispor meios que permitem reunir públicos numerosos espalhados pelo mundo e sustentar uma infinidade de conteúdos relacionados com os seus temas de estimação. A necessidade de comunicar com esses públicos é tanto mais urgente quando consideramos o facto de que, actualmente, é em nichos comunitários cibernáuticos que os movimentos xenófobos, misóginos, e outros populistas de extrema-direita se instalam e propagam.

Desde os meus anos de estudante de doutoramento que me dedico a divulgar os resultados da investigação com o público não académico, especialmente com os grupos que estudo. Faço-o por princípios democráticos e progressistas, e na tentativa de colmatar algumas deficiências do ensino público no que diz respeito à educação sobre história, que é a meu ver muita fraca no Canadá. Mas também o faço por necessidade da minha investigação. Sem a colaboração de diversos indivíduos e organizações comunitárias ter-me-ia sido impossível levar a cabo a minha investigação, visto que grande parte das fontes primárias que examinei não existiam previamente nos arquivos do Canadá. Através de entrevistas de história oral e da recolha e transferência de documentação histórica nas mãos de privados para os arquivos da York University, estabeleci ligações mutuamente benéficas entre a minha universidade e grupos comunitários locais tradicionalmente afastados do mundo académico, como era o caso dos luso-canadianos. Para além de comunicar directamente com o público que estudo, essa relação oferece-me regularmente novas oportunidades para divulgar o meu trabalho entre públicos cada vez mais alargados e oportunidades para criar colaborações e lançar novos projectos mais abrangentes, cujo interesse público está confirmado logo à partida.

Gilberto Fernandes é investigador da York University, no Canadá, e autor do livro This Pilgrim Nation: the Making of the Portuguese Diaspora in Postwar North America. Consulte o perfil de Gilberto Fernandes no GPS-Global Portuguese Scientists.

Fotografia de capa: Gilberto Prioste.

GPS é um projecto da Fundação Francisco Manuel dos Santos com a agência Ciência Viva e a Universidade de Aveiro.

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