A covid-19, o ambiente, a cidadania e o futuro

Artigo de opinião de Sofia Guedes Vaz, autora do livro «O ambiente em Portugal», publicado pela Fundação.

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O confinamento devido à COVID-19 desacelerou a economia de forma abrupta. Os níveis de poluição baixaram e quase parecia que conseguiríamos cumprir o Acordo de Paris, além de outras normas de qualidade do ar ou água ou ruído. No entanto, apesar dos ganhos ambientais claros, um corte aleatório e acidental na economia não é solução e está a revelar-se um desastre socioeconómico. Mas não deixa de ser tentador fazer um exercício hipotético sobre como ultrapassar esse desastre, sem comprometer a sustentabilidade atingida.   

Quando estávamos em casa, com o consumo limitado aos bens alimentares e de primeira necessidade, eco-sonhámos alto. Usámos lojas de proximidade, os mercados e mercearias floresceram e habituamo-nos a pouco. Foi ilusório pensar que a situação se manteria? O teletrabalho e as reuniões virtuais, com todas as vantagens ambientais que acarretam, serão talvez a grande herança do confinamento e haverá comportamentos bons para o ambiente que irão subsistir. No entanto, as coisas não mudam de um dia para o outro e tendemos a querer o que conhecemos, um mundo igual ao que tínhamos, com consumismo, bens materiais, viagens, transportes, coisas. A quantidade de máscaras descartáveis nos nossos oceanos desacreditamuitas das nossas breves conquistas ambientais. Mas podemos continuar a eco-sonhar? Que sementes ficaram?

O desconfinamento veio mostrar que quando a conciliação entre ambiente e economia é dilemática, é quase sempre o ambiente que é sacrificado, pois os pressupostos do crescimento económico como resposta universal não mudaram.

Sofia Guedes Vaz

As companhias aéreas, petrolíferas e outras grandes indústrias dão trabalho, mas não equidade; dão muito dinheiro, mas a muito poucos; criam riqueza, mas permitimos a sua fuga para paraísos fiscais e continuam a ser subsidiadas para que o desastre económico não seja ainda maior, alega-se. Apesar da ideia de contrapartidas ambientais para as ajudas, o desconfinamento veio mostrar que quando a conciliação entre ambiente e economia é dilemática, é quase sempre o ambiente que é sacrificado, pois os pressupostos do crescimento económico como resposta universal não mudaram.

A Agência Europeia do Ambiente (AEA) publicou em 2019 o Relatório do Estado do Ambiente Europeu e a mensagem era a de que tínhamos melhorado, mas não o suficiente e não em todas as áreas. Não só temos de fazer mais, diz o relatório, como temos que fazer coisas de maneira diferente. As respostas nesta década terão de ser diferentes das que demos anteriormente. Qual a alternativa a uma trajetória de crescimento ligada a um sistema de produção e consumo insustentáveis? Quais são as instituições que temos de promover para subsistirmos bem sem crescimento?

Apesar do repto da AEA, os decisores continuam desesperados e à procura das mesmas soluções de sempre. Talvez tenhamos de mudar de perguntas. Os cidadãos são pouco ouvidos e envolvidos nos processos de decisão. Poderiam ser uma surpresa? Qual a importância para os cidadãos das alterações climáticas ou da perda de biodiversidade ou dos plásticos no oceano ou das florestas a arder ou de uma economia pouco circular obcecada em crescimento? Haverá uma cidadania ambiental latente? Queremos mais do que apenas participar em manifestações e assinar petições? Concordam os cidadãos com o rendimento básico incondicional? Querem as instituições ouvir os cidadãos? A inclusão dos cidadãos na coisa pública, em conjunto com a promoção de uma cidadania ambiental, poderia levar-nos a que caminhos?

As soluções múltiplas e sistémicas são complexas e porventura nem existem. Mas com imaginação e valores, inovação social e ética, criatividade e coragem, cidadania e participação a algum lado chegaremos. O que significa fazer as coisas de maneira diferente?

Sofia Guedes Vaz é autora do livro «O Ambiente em Portugal», publicado pela Fundação e disponível na loja online.

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