Cuidados paliativos
Cuidados paliativos

«Seria desejável que mais portugueses elaborassem o seu testamento vital»

Excerto do livro «Cuidados Paliativos: Conheça-os Melhor», de Isabel Galriça Neto.

4 min. leitura
Ler mais tarde Remover artigo

Existe muitas vezes a dificuldade de reconhecer que doentes se encontram nos últimos tempos de vida — ainda que estejam hoje bem difundidos os critérios clínicos que nos orientam nesse sentido. Ao mesmo tempo, é doloroso reconhecer a proximidade da morte enquanto inevitabilidade, e não como derrota. Por estes motivos, mas não só, ainda continuamos a observar uma obstinação terapêutica corporizada em intervenções fúteis, que não revertem nem a situação de base do doente, nem contribuem para o seu bem‑estar.

Estas práticas, relacionadas com um modelo de Medicina de agudos e de «combate à doença», podem efectivamente prolongar e agravar o sofrimento do doente. Falamos de abuso no recurso a tratamentos dirigidos não ao conforto, mas à cura ou à doença de base, neste caso já avançada e irreversível: disto são exemplos alguns tratamentos tardios para o cancro, a realização de certas cirurgias ou de diálise, a utilização abusiva de antibióticos ou de entubações, ou admissões desnecessárias em unidades de Cuidados Intensivos. Existem critérios amplamente conhecidos que permitem aferir se um doente está ou não sob tratamentos desajustados. Por outro lado, há intervenções que deveriam ser mais praticadas nestes doentes em fim de vida — como o adequado controlo sintomático, o apoio psicossocial e espiritual, o apoio familiar — e que permanecem subutilizadas.

Através de ambas as abordagens — obstinação ou distanásia e subtratamento —, tratamos mal os doentes, prejudicamos as famílias, e deixamos que o sofrimento se adense e se torne difícil de suportar. Além disso, desenvolvem‑se práticas que conduzem a gastos excessivos e inúteis — o último ano de vida é aquele em que mais se gasta nos cuidados de saúde, e frequentemente em medidas desajustadas. Poder‑se‑ia, adoptando a abordagem correcta dos Cuidados Paliativos, tratar melhor e gastar bem, poupando. Há ainda um longo caminho a percorrer para reduzir o sofrimento decorrente da prática de distanásia (cuidados exagerados, que prolongam o sofrimento e não trazem benefícios ao doente).

Infelizmente apenas poucas dezenas de milhares de portugueses optaram por fazer o seu testamento vital. Seria desejável que este número aumentasse, pois revelaria maior lucidez e maturidade da nossa sociedade como colectivo.

Isabel Galriça Neto

Sabemos também, através de investigação bem fundamentada, que as pessoas em fim de vida sofrem porque têm medo de ser um fardo para os seus familiares, porque acham que perderam a dignidade e que a sua vida não tem sentido, ou porque têm medo de ser abandonadas.

Para responder a estas situações, convém relembrar os direitos das pessoas em fim de vida — consagrados em diploma legal de 2018 — e a imperiosidade de os executar, fazendo chegar os apoios sociais a quem deles carece, fazendo chegar estes cuidados de saúde a quem deles precisa. Dessa forma, ultrapassamos questões de isolamento, solidão ou falta de apoio social eficaz, bem como de sobrecarga dos cuidadores, ao mesmo tempo que promovemos intervenções que antes referi, com vista a majorar a dignidade das pessoas em fim de vida e a ajudá‑las a encontrarum sentido neste percurso de vida. Teremos de ajudar à compreensão de que uma situação não procurada de maior fragilidade e dependência por parte do doente não equivale a falta de coragem ou pieguice, não tem de ser olhada como uma circunstância de menoridade ou de indignidade, mas antes como algo que pressupõe enorme coragem e até grandeza de carácter — aceitar ser cuidado por terceiros —, como algo que faz parte de várias etapas da vida, numa sociedade inexoravelmente interdependente e em que é natural precisarmos uns dos outros.

[...] No que toca ao fim de vida, ainda é frequente ouvir‑se expressões do género «não vamos falar porque vai agoirar». Ora, bem sabemos que não é assim: contemplar a nossa mortalidade, reflectir e falar sobre os problemas de saúde e as opções que queremos no futuro não fará com que as doenças aconteçam ou se agravem. Pelo contrário, com esta atitude ganharemos tranquilidade face ao respeito que vamos poder garantir para a forma como queremos ser tratados.

Uma das formas mais eficazes de o fazer é através da elaboração de um testamento vital, com ou sem nomeação de procurador (substituto nas decisões, em caso de o próprio não poder comunicar), mas infelizmente apenas poucas dezenas de milhares de portugueses optaram por fazê‑lo. Seria desejável que este número aumentasse, pois revelaria maior lucidez e maturidade da nossa sociedade como colectivo.

Ler do início
Achou este artigo útil?

12 leitores acharam este artigo útil.