Cientistas GPS #60: «Talvez ajude ter além-fronteiras pessoas qualificadas a falar português?»

Entrevista a Susana Teixeira, Bióloga Estrutural da Universidade de Delaware, trabalha no centro de neutrões do NIST (Instituto Nacional Americano para as medidas e padrões)

A rede global de portugueses cientistas cresceu muito nos últimos anos. Resta saber o que se vai fazer com todo este potencial, que Portugal criou quando investiu na sua formação superior. Reconhecer a existência e o valor dos cientistas portugueses espalhados pelo mundo é um passo importante.

O que faz profissionalmente?

Sou Bióloga Estrutural, o que trocado por miúdos quer dizer que investigo a estrutura da matéria viva, a maneira como as moléculas se organizam para formar proteínas, ADN, açúcares ou gorduras. Estas mesmas moléculas estão também presentes em fármacos, alimentos, cosméticos e outros materiais, pelo que a formação que recebi em Química é um grande trunfo. A razão pela qual me interesso por estas estruturas é simples: quero saber como funcionam. Por exemplo, como esterilizar um sumo natural sem destruir o seu valor nutricional, sabor ou textura? A que temperatura deve ser mantido um medicamento enquanto é transportado ou armazenado? Podemos produzir adoçantes saudáveis? Questões deste género ocupam boa parte do meu quotidiano.

O que há de particularmente entusiasmante na sua área de trabalho?

Acho fascinantes os contrastes, o aspecto concreto e palpável dos materiais que estudo, face às idiossincrasias das técnicas a que preciso de recorrer. Senão vejamos: estudo matéria viva com radiação mortal, e manipulo partículas que cabem no núcleo dum átomo utilizando instrumentos que ocupam áreas de hectares. Porquê? Para medir estruturas de moléculas com a resolução apropriada, é preciso utilizar radiação com energias muito elevadas. É o caso dos feixes de raios X, com uma gama de energias desde as que se utilizam no dentista às que se produzem em aceleradores de partículas (os sincrotrões). Outro exemplo, menos conhecido do público em geral, são os neutrões, partículas cuja má reputação já não se justifica. Se é certo que para produzir neutrões é preciso uma reacção nuclear, possível apenas nalguns centros especializados, também importa saber que são muito diferentes da escala, objectivos e risco aliados às centrais para produção de energia.

Fui contratada pela Universidade de Delaware para trabalhar no centro de neutrões do NIST, a sigla por que é hoje conhecido o instituto nacional americano para as medidas e padrões (à distância duma viagem de metro da Casa Branca). 

É aqui que meço coisas minúsculas com instrumentos gigantescos. Uma parte importante do meu trabalho é preparar instrumentos e experiências para cientistas vindos do mundo inteiro. Consoante o tipo de matéria, que pode ser chocolate, um fungo, cimento, ou até um pedaço de fóssil, trabalhamos em conjunto para conseguir extrair a informação que procuram. Como sempre tive um fraquinho pela comunicação, coordenar trabalho com pessoas de culturas e especialidades tão variadas é um desafio estimulante.

Por que motivos decidiu fazer períodos de investigação no estrangeiro e o que encontrou de inesperado nessa realidade académica?

Comecei por fazer investigação no estrangeiro no século passado, e dizê-lo não me faz sentir mais nova... No Instituto Superior Técnico, onde me formei em Engenharia Química sem recurso a emails nem internet, fui encorajada a fazer estágios de engenharia na Europa. Num desses treinos interessei-me pela estrutura das moléculas, e quando terminei a licenciatura comecei a aprender a investigar proteínas em Portugal. Passados 2 anos, sem perspectiva de progresso, estava ansiosa. Senti-me em desvantagem face a estudantes europeus com licenciaturas muito mais curtas do que os meus 5 anos de engenharia. Tinha bem presente que, com a minha idade, outros já estavam a lançar-se no mercado de trabalho com uma pós-graduação no bolso. Recebi a oferta duma bolsa de doutoramento numa universidade britânica e decidi não esperar mais, saí de Portugal convencida que voltaria poucos anos depois.

O que de mais inesperado encontrei na realidade académica inglesa foi o quanto lhes falta, também a eles, financiamento. Muitos laboratórios no limite do viável, e ainda assim a produzirem muito. Não é magia, claro, recorrem a colaborações porque o total é mesmo muito mais do que a soma das partes. Este país que votou o Brexit era e continua a ser um ávido parceiro europeu e internacional na investigação científica.  Quando aceitei dar aulas numa universidade na Inglaterra, mas insisti em continuar a ser cientista num centro líder mundial de neutrões em França, ninguém me apontou as desvantagens de trabalhar em dois países ao mesmo tempo. Em vez disso, sublinharam que faz todo o sentido aproximar as próximas gerações da tecnologia de ponta.

Que apreciação faz do panorama científico português, tanto na sua área como de uma forma mais geral?

Na minha área específica o panorama científico português continua pobre. Existe um centro europeu de investigação de neutrões em França. Está a ser contruído outro mais moderno na Suécia – o chamado ESS (European Spallation Source) - que a Espanha concorreu para acolher, e se tivesse ganho talvez a proximidade geográfica alterasse as consciências lusas. Tanto quanto sei, o nosso país não é nem nunca foi membro de nenhum destes centros europeus. São poucos os cientistas em Portugal a trabalhar ou utilizar estes recursos, embora a semente da esperança fosse plantada em 2015 quando Lisboa acolheu o primeiro dia das parcerias do ESS. Sendo portuguesa e trabalhando nesta área há já quase 18 anos, não estive envolvida nestas discussões e nunca fui contactada por um grupo nacional com interesse em fazer biologia estrutural com neutrões. Embora me contactem indústrias e académicos de países como a França, o Japão, China ou os Estados Unidos. Em Portugal há tradição e know-how topo de gama em inteligência artificial, tratamento de dados, física nuclear, todos fortes atributos para um membro dum centro de neutrões. Na área da biologia estrutural com neutrões não há formação em Portugal para promover um interesse sustentável, a meu ver é ainda vista como um luxo num país onde a investigação científica conta com recursos muito limitados. Descarta-se a possibilidade, aponta-se para outras prioridades. Claro que o financiamento é essencial, mas tudo começa pela formação e pela vontade de colaborar. Talvez ajude ter além-fronteiras pessoas qualificadas a falar português?

 

Sendo portuguesa e trabalhando nesta área há já quase 18 anos, não estive envolvida nestas discussões e nunca fui contactada por um grupo nacional com interesse em fazer biologia estrutural com neutrões. Embora me contactem indústrias e académicos de países como a França, o Japão, China ou EUA.

Susana Teixeira

Porque é que o GPS lhe parece um instrumento interessante?

Voltamos ao ponto das colaborações e das redes... A rede global de portugueses cientistas cresceu muito nos últimos anos. Resta saber o que se vai fazer com todo este potencial, que Portugal criou quando investiu na sua formação superior. Reconhecer a existência e o valor dos cientistas portugueses espalhados pelo mundo é um passo importante, importa pensar para lá de estereótipos absurdos de apátridas ou de privilegiados que vêm roubar lugar a quem cumpriu penitência anos a fio em laboratórios nacionais. Portugal parece querer esquecer que é um país de descobridores, e o GPS pode aqui preencher uma lacuna importante. Não para promover carreiras pessoais nem viagens, há canais melhores para o efeito, mas para formar uma base de dados de especialidades, de ciências. Para se poder perceber onde estão, como se fazem, que oportunidades há, estabelecer condições para projectos criativos. É aqui que vejo o GPS, a promover a comunicação entre os portugueses no estrangeiro, mas acima de tudo entre estes e a ciência em Portugal. 

Voltando a exemplos concretos: sou estudante, professor, cientista, quero saber sobre neutrões ou tenho uma ideia que não cabe na austeridade. Vou ao GPS, vejo que está uma portuguesa no NIST a trabalhar nisso.Vou contactá-la, sem pagar mais por isso, e discutir - em português, se podemos colaborar.

Susana Teixeira

GPS é um projecto da Fundação Francisco Manuel dos Santos com a agência Ciência Viva e a Universidade de Aveiro.

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