Entrevista GPS #59: «A informação sobre Ciência nem sempre chega ao conhecimento dos cidadãos»

Entrevista a Bruno Rocha, doutorando em Ciências e Tecnologias da Informação na Universidade de Coimbra e investigador no projecto WELMO, que tem como objectivo a monitorização contínua dos pulmões.

Produz-se ciência de grande qualidade em Portugal, apesar dos recursos para tal serem mais escassos do que em outros países europeus. No domínio da inteligência artificial, por exemplo, há algoritmos que apresentam resultados ao nível do estado da arte em concursos internacionais.

Pode descrever de forma sucinta o que faz profissionalmente?

Actualmente, frequento o Programa de Doutoramento em Ciências e Tecnologias da Informação da Universidade de Coimbra. A minha tese centra-se na análise automática de sons respiratórios, nomeadamente tosse e sons adventícios. Estes sons, apesar de poderem aparecer em pessoas saudáveis, estão habitualmente associados a determinadas disfunções respiratórias como a asma ou a doença pulmonar obstrutiva crónica. O meu trabalho consiste em desenvolver algoritmos que detectem e caracterizem a tosse e os sons adventícios sempre que estes apareçam sobrepostos ao som respiratório normal. Para tal, utilizo ferramentas de processamento de sinal áudio e inteligência artificial.

Agora pedimos-lhe que tente contagiar-nos: o que há de particularmente entusiasmante na sua área de trabalho?

É fascinante poder fazer parte da revolução na saúde que a aplicação de algoritmos de inteligência artificial vai provocar. O projecto europeu que integro, WELMO, tem como objectivo a monitorização contínua dos pulmões. O impacto desta tecnologia no dia-a-dia dos pacientes será significativo, uma vez que a monitorização contínua e a intervenção precoce são peças fundamentais na gestão de doenças respiratórias. Os profissionais de saúde também poderão usufruir desta ferramenta que os irá ajudar a tomar melhores decisões, consolidando o seu conhecimento e fortalecendo a evidência médica sobre o sistema respiratório. Sentir que o meu trabalho é útil para a sociedade é particularmente entusiasmante e uma grande motivação.

Algo que me surpreendeu no modelo holandês foi o facto de todos os estudantes de doutoramento serem reconhecidos como trabalhadores e terem um contrato. As nossas autoridades deviam rever o paradigma das bolsas e reduzir a precariedade dos investigadores inspirando-se em modelos como o holandês.

Bruno Rocha

Por que motivos decidiu fazer períodos de investigação no estrangeiro e o que encontrou de inesperado nessa realidade académica?

O meu interesse pela investigação começou durante o mestrado em Computação de Som e Música na Universidade Pompeu Fabra de Barcelona. A minha tese de mestrado permitiu-me começar a trabalhar no ramo da informática musical. Depois de terminar o mestrado, tive a oportunidade de ir para a Universidade de Amesterdão, onde desenvolvi algoritmos de segmentação e similaridade de música electrónica de dança.
O que mais me espantou, tanto em Barcelona como em Amesterdão, foi a grande abertura dos grupos de investigação para colaborar com empresas no desenvolvimento de projectos de parceria, inclusive na área das humanidades. Em Amesterdão concretizaram-se vários projectos de "humanidades digitais", incluindo o meu, envolvendo pequenas empresas e investigadores de campos como a história, a música, a psicologia ou a ciência política. Algo que também me surpreendeu no modelo holandês foi o facto de todos os estudantes de doutoramento serem reconhecidos como trabalhadores e terem um contrato. As nossas autoridades deviam rever o paradigma das bolsas e reduzir a precariedade dos investigadores inspirando-se em modelos como o holandês.

Que apreciação faz do panorama científico português, tanto na sua área como de uma forma mais geral?


Estou convencido de que se produz ciência de grande qualidade em Portugal, apesar dos recursos para tal serem mais escassos do que em outros países europeus. No domínio da inteligência artificial, por exemplo, há algoritmos desenvolvidos em universidades portuguesas que apresentam resultados ao nível do estado da arte em concursos internacionais. Infelizmente, e apesar de boas iniciativas como o podcast da Antena 1 "90 segundos de ciência", a informação sobre a ciência portuguesa nem sempre chega ao conhecimento dos cidadãos. Penso que as universidades deviam apostar mais na divulgação da ciência produzida pelos seus investigadores, não só junto dos meios de comunicação social como também através das estruturas locais.

Que apreciação faz do GPS – Global Portuguese Scientists?

Penso que o GPS pode ter um papel relevante na ligação entre investigadores portugueses do mundo inteiro. Espero que se transforme num grande foco de divulgação da ciência feita em Portugal ou por portugueses. A relevância da investigação para o futuro do país também depende de projectos como o GPS.

Consulte o perfil de Bruno Rocha no GPS-Global Portuguese Scientists.

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