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Opinião GPS #6 - Breve reflexão sobre domesticação animal

Artigo de Catarina Ginja, Engenheira Zootécnica e investigadora principal do grupo de Arqueogenética do CIBIO-InBIO na Universidade do Porto.

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A DOMESTICAÇÃO: QUANDO, ONDE E PORQUÊ?

A domesticação foi um acontecimento marcante, mas não deixa de ser relativamente recente à escala evolutiva de mais de 5 milhões de anos de desenvolvimento dos hominídeos e de, sensivelmente, 300 mil anos desde o aparecimento do Homo sapiens. Registos arqueológicos e análises genéticas indicam que o lobo (Canis lupus) terá sido o primeiro animal a ser domesticado há mais de 15 mil anos na Europa e no Sudoeste Asiático pelos nossos antepassados caçadores-recolectores. Em Portugal, os esqueletos mais antigos de cão doméstico datam do Período Mesolítico (aproximadamente 8.000–7.600 anos) e foram identificados nos Concheiros de Muge e Poças de S. Bento, respectivamente, no vale do Tejo e Sado. Mas foi há cerca de 11 mil anos no sudoeste Asiático, na região da Anatólia que hoje corresponde à Turquia e ao norte da Síria, que um grupo restrito de espécies selvagens terá sido domesticado pelo Homem (ver tabela), permitindo a transição de sociedades caçadoras e recolectoras para economias agrícolas baseadas no maneio de animais e plantas.

Este episódio primário de domesticação, denominado de revolução agrícola do Neolítico, revelou-se essencial para a produção de alimentos necessária para suportar o crescimento sucessivo das populações humanas e para o desenvolvimento subsequente de comunidades urbanas. Sabemos pouco sobre o que terá desencadeado este processo, mas podemos especular que esteja relacionado com a escassez de espécies animais de grande porte disponíveis para caça, eventualmente associada a instabilidade climática no final do Holoceno (época geológica que antecedeu a actual). Apesar das exigências, o trabalho agrícola é mais eficaz do que a caça para alimentar um número crescente de indivíduos.

Apenas um grupo muito limitado de um amplo universo de espécies animais - e plantas - reunia as características que favoreceram uma vida em maior proximidade com o Homem (ver caixa de texto). A necessidade de capturar e adestrar animais como fonte de alimento, mas também de agasalho e força de tracção para auxílio no trabalho agrícola, terá levado os seres humanos a domesticar algumas das suas presas, nomeadamente os ancestrais das ovelhas, das cabras e dos bovinos. No caso dos cães, gatos e porcos, a domesticação parece ter resultado de uma aproximação inicial de animais selvagens mais destemidos e, possivelmente juvenis, em busca de alimento junto das comunidades humanas fruto de um processo indirecto e comensal.

A ZOOARQUEOGENÉTICA E O ESTUDO DA DOMESTICAÇÃO

Por definição, numa espécie doméstica o Homem controla a sua reprodução e esta diferencia-se do ancestral selvagem através de “selecção artificial”. Os animais não precisam de se defender de predadores e são cuidados e alimentados pelo Homem, que lhes confere abrigo sempre que necessário. Ocorrem, assim, várias mudanças a nível anatómico, morfológico, fisiológico, comportamental e genético. Darwin, nos seus estudos pioneiros sobre domesticação, identificou algumas características transversais a várias espécies animais resultantes deste processo. Estas estão associadas ao designado “síndrome de domesticação”, em que espécies distintas compartilham mecanismos de resposta à selecção artificial, tais como: comportamento infantil e submisso; alterações da morfologia craniofacial, com redução do tamanho do cérebro; orelhas mais pequenas e descaídas e dentes menores; redução do tamanho corporal e padrões de coloração da pelagem distintos; ciclos reprodutivos frequentes e menos sazonais.

Os investigadores procuram perceber as origens das espécies domésticas, bem como as trajectórias evolutivas que moldaram a composição genética das diversas populações animais. A estrutura destas populações resulta de processos demográficos complexos associados à mobilidade dos indivíduos, adaptação a diferentes condições ambientais e, em particular, à selecção artificial mediada pelos humanos. Hoje, a genómica possibilita estudos a uma escala sem precedentes, incluindo a comparação de genomas obtidos de vestígios arqueológicos com os dos animais actuais. A zooarqueogenética é uma disciplina recente que permite:

  • Investigar a variabilidade genética e a estrutura populacional ao longo do tempo e nas diferentes regiões do globo - filocronologia;
  • Examinar o fluxo genético e datar a ocorrência de cruzamento entre os ancestrais selvagens (alguns já extintos) e os seus derivados domésticos;
  • Estudar os processos de adaptação e selecção, em particular perceber que regiões do genoma e genes específicos podem estar envolvidos, e analisar a variabilidade genética associada a práticas de melhoramento animal.

Nos últimos 5 anos, a sequenciação de genomas de ancestrais selvagens como o auroque, o cavalo e o lobo, bem como de vários animais domésticos do passado pertencentes às diferentes espécies, contribuiu de forma significativa para uma melhor compreensão das suas origens e do seu modo de dispersão. Um marco foi a sequenciação do genoma de um cavalo com 700 mil anos, preservado no Árctico, que permitiu estimar que o antepassado comum dos equídeos terá existido há mais de 4 milhões de anos! Mais recentemente, análises genómicas de um conjunto amplo de amostras arqueológicas de cabras e de bovinos foram fundamentais para confirmar episódios secundários de domesticação independente e de mistura entre animais domésticos e selvagens nestas duas espécies.

A PENÍNSULA IBÉRICA: REPOSITÓRIO DE BIODIVERSIDADE

As espécies domésticas apresentam uma enorme variabilidade fenotípica, basta pensar nas inúmeras raças de cães e gatos. No entanto, a sua diversidade genética é, em geral, inferior à das populações selvagens que lhes deram origem, devido ao efeito fundador associado à domesticação de um número relativamente exíguo de animais. Além disso, muitos destes animais foram selecionados de forma tão intensiva que a perda de diversidade é muito significativa. Por exemplo, existem vários milhões de cabeças de gado da raça Holstein-Frísia, a mais utilizada na produção do leite que consumimos, mas há uma única linhagem paterna representada. É por isso que os recursos genéticos dos animais domésticos de regiões como a Península Ibérica, onde persistem ecótipos distintos e mais diversificados, são extremamente valiosos. A localização periférica deste território e a multiplicidade de populações humanas que o habitaram, com as suas culturas e práticas específicas de produção animal desde o Neolítico, deixaram marcas na diversidade dos animais domésticos autóctones. Por exemplo, a primeira análise de genomas de bovinos autóctones de Portugal confirmou uma forte influência de linhagens de gado taurino oriundo do Norte de África. O facto de observarmos este fluxo genético em raças como a Barrosã, cujo solar é a região montanhosa do Norte de Portugal, sugere que é anterior à época de influência Islâmica.

Para datar estas ocorrências e perceber que culturas foram responsáveis por esta “mistura”, o grupo de Arqueogenética do CIBIO-InBIO está a estudar vestígios arqueológicos de diferentes épocas para testar várias hipóteses, de forma integrada e envolvendo pela primeira vez análises genómicas. Esta investigação multidisciplinar está a ser desenvolvida em colaboração com zooarqueólogos do LARC-DGPC e da UNIARQ-FLUL, mas também com investigadores internacionais em particular da Universidade de Estocolmo. Por outro lado, é importante perceber que parte da enorme diversidade genética destes bovinos autóctones poderá ter resultado do cruzamento, intencional ou fortuito, com auroques locais. Os bovinos Ibéricos podem representar relíquias dos auroques extintos, visto terem coexistido com os seus ancestrais selvagens durante vários milénios, pelo menos até ao final do Calcolítico há quase 4000 anos.

A diversidade genética dos animais domésticos da Ibéria não é exclusiva dos bovinos. Os cães domésticos que habitaram este território, antes da influência das culturas agrícolas do Neolítico, tinham uma composição genética distinta da dos seus contemporâneos de outras regiões da Europa e, possivelmente, mais próxima dos seus ancestrais selvagens locais – os lobos do Paleolítico. A análise genómica de vestígios arqueológicos de cavalos Ibéricos, datados de há 4800 a 3900 anos, permitiu descrever uma linhagem distinta que terá persistido neste território até há sensivelmente 2670 anos, mas que não terá deixado descendência nos cavalos domésticos actuais. No caso do porco, a coexistência até aos dias de hoje com o ancestral selvagem, o javali, implicou um processo de cruzamento continuado que praticamente substituiu as linhagens domésticas do Neolítico oriundas do centro de domesticação no Sudoeste Asiático.

O grande desafio vai ser o de identificar algumas características fenotípicas dos animais domésticos utilizados pelos nossos antepassados. Por exemplo, no caso dos bovinos, tentar perceber qual a diversidade da coloração da pelagem dos auroques Ibéricos, se o gado doméstico das urbes Romanas era distinto do de povoações mais pequenas e regionais, ou quais as diferenças entre os bovinos criados pelos Muçulmanos no Período Medieval e os bovinos de maior porte possivelmente melhorados pelos Cristãos do Período Pós-Medieval…Isto pressupõe continuar a utilizar os meios tecnológicos mais avançados para tentar ultrapassar as dificuldades da análise de material biológico arqueológico degradado, devido às condições de preservação sub-óptimas do clima temperado da Península Ibérica. Na prática estes estudos contribuem significativamente para a valorização dos recursos genéticos autóctones. A reinvenção do mundo rural e o combate à desertificação humana, de modo a manter o homem no território com as suas actividades agro-silvo-pastoris, revelam-se essenciais à conservação deste património cultural e genético único.

Catarina Ginja é investigadora de arqueogenética do CIBIO-InBIO na Universidade do Porto. Consulte o seu perfil no GPS-Global Portuguese Scientists.

Capa: vitelo de raça mertolenga. Fotografia de Joaquim Pedro Ferreira.

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