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O frio e o calor que se sentem nas nossas casas

Artigo de opinião de Sofia Simões e João Pedro Gouveia, investigadores do CENSE- Center for Environmental e Sustainability Research da Universidade NOVA de Lisboa.

Quando convidamos colegas da Europa ou América do Norte a virem trabalhar connosco uns tempos em Lisboa, temos de os avisar sempre: “Tragam roupas quentes, não temos aquecimento central na maioria dos edifícios em Portugal!” Esta foi uma recomendação que aprendemos que tem mesmo de ser feita depois de várias reuniões com diversas pessoas semi-enregeladas. Na grande maioria dos países do hemisfério Norte é impensável o grau de desconforto térmico com que vivemos em Portugal.

De acordo com a informação do EUROSTAT, Portugal é o 2º país da União Europeia com maior fração de pessoas que afirmam estar desconfortavelmente quentes nas suas habitações no Verão (34%), atrás apenas da Bulgária. Poderíamos então pensar que como temos um clima mediterrânico temperado ao menos no Inverno a situação será melhor. Na verdade, de acordo com a mesma fonte, 21% dos Portugueses declara ser incapaz de manter a sua habitação confortavelmente quente no Inverno. Somos o 5º país mais desconfortável no Inverno de toda a União Europeia, atrás da Bulgária, Lituânia, Grécia e Chipre.

Este grau de desconforto térmico dos nossos edifícios é o resultado de uma combinação de diversos fatores. Em primeiro lugar, uma grande parte do edificado foi construída nas décadas de 70 a 90, antes de haver regulamentação sobre níveis mínimos de desempenho energético. Temos assim um parque habitacional com um grau de eficiência energética baixo. Segundo dados do Observatório da Energia cerca de 75% das habitações Portuguesas atualmente certificadas têm baixa eficiência energética (classe C ou menos). Como se não bastasse, cerca de 26% das habitações apresenta infiltrações e/ou humidade – somos novamente um dos piores países da Europa neste indicador, apenas atrás do Chipre.

Somos um país com desconforto térmico e com pobreza energética.

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Além da má construção dos edifícios, em Portugal não existe cultura de climatização a níveis de conforto – estamos habituados a passar frio e calor e a usar mantas no sofá ou a sentarmo-nos em frente a uma ventoinha. Não conhecemos, e praticamente não usamos, soluções centralizadas de climatização – cada habitação tem a sua solução individual que é normalmente pouco eficiente e é usada apenas numa ou duas divisões. Nos meios rurais, e mesmo em algumas zonas urbanas, recorre-se muito a lareiras abertas que têm uma eficiência energética bastante mais baixa do que as salamandras com recuperador de calor. Por último, os preços de energia para consumidores residenciais são dos mais caros da Europa. Em 2018, os preços da eletricidade e gás, com todas as taxas incluídas, foram, respetivamente, 12% e 28% superiores à média europeia. Por todas estas razões somos um país com desconforto térmico e com pobreza energética.

O desconforto térmico tem um impacto muito relevante na incidência de doenças no aparelho respiratório, circulatório e na saúde mental. Em 2018, Portugal foi o país europeu com maior taxa de mortalidade por pneumonia. Além disso, o desconforto térmico afeta negativamente a produtividade de adultos e crianças em idade escolar. Se é verdade que o frio no Inverno deverá diminuir com o efeito das alterações climáticas, vamos por outro lado ter Verões cada vez mais quentes e desconfortáveis. Quando se combina esta tendência com o envelhecimento da população soam campainhas de alerta. Os idosos e crianças são especialmente vulneráveis ao desconforto térmico.

Neste quadro algo desolador há várias formas de melhorar a situação. É fundamental caracterizar o grau de desconforto térmico no país para encontrar locais prioritários para intervenção. Este é um trabalho que temos vindo a desenvolver aqui no CENSE, também em colaboração com a ADENE – Agência para a Energia. Em paralelo, é necessário fazer uma revolução nos nossos edifícios e reabilitá-los energeticamente, instalando opões de isolamento em paredes e telhados, janelas eficientes e soluções de ensombramento. Temos de optar por soluções de climatização altamente eficientes como as bombas de calor (que são diferentes dos equipamentos de ar condicionado que se multiplicam como cogumelos). Por fim, é crucial redesenhar as nossas cidades e torná-las mais verdes, mais frescas e mais resilientes em antecipação das ondas de calor futuras.

Sofia Simões é doutorada em Sistemas de Energia pela Universidade de Leiden e está registada no portal GPS-Global Portuguese Scientists. João Pedro Gouveia é Doutorado Alterações Climáticas e Politicas de Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Lisboa e Universidade NOVA de Lisboa. São ambos investigadores do CENSE- Center for Environmental e Sustainability Research da Universidade NOVA de Lisboa e têm trabalhado no mapeamento da pobreza energética em Portugal.

Artigos científicos sobre o tema

Simoes, S., Gregório, V., Seixas, J. (2016). Mapping fuel poverty in Portugal. Energy Procedia (106). pp. 155–165. doi: 10.1016/j.egypro.2016.12.112.

Gouveia, J.P., Seixas, J., Long., G. (2018) Mining households’ energy data to disclose fuel poverty: Lessons for Southern Europe. Journal of Cleaner Production (178), pp 534-550.

Palma, P., Simoes, S.G., Gouveia, J.P. (2019) Mapping the energy performance gap of dwelling stock at high resolution scale: Implications for thermal comfort in Portuguese households. Energy and Buildings Journal (190), pp. 246-261.

Fotografia de Lisboa por Diego Garcia para o Unsplash.

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