5 Leituras #47: Evolução, ética, empatia, 'élites'

Sugestões de João Filipe Queiró, autor do livro «O Ensino Superior em Portugal», publicado pela FFMS.

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Novo artigo da rubrica «5 Leituras», em que autores da Fundação sugerem a leitura de cinco artigos ou a visualização de vídeos publicados na internet, em língua portuguesa, espanhola, francesa ou inglesa.

Selon Darwin
Alain

As espécies existentes são as espécies sobrantes. As formas de vida que há, há-as por essa razão mesma de que são capazes de sobreviver no meio em que estão colocadas. Constantemente nos maravilhamos com a perfeição do funcionamento dos seres vivos, com a sua fabulosa adequação ao meio e às necessidades da vida. Assim, por exemplo, para os humanos, cujo organismo é incessantemente glosado como uma máquina perfeita, na complexidade da miríade dos seus componentes. Que fantástico mecanismo! E até para a continuação da espécie está prevista a associação do prazer ao processo que a assegura, como forma de prevenir a extinção... Isto é ver as coisas ao contrário. Todas as espécies e mutações eram e são possíveis. Mas nem todas são constituídas de modo a conseguirem sobreviver mais que um momento (historicamente) fugaz. As que ficam são as que conseguem. Não as vejo a adaptarem-se, e a assumirem formas variáveis, por um fantasmagórico acto de vontade. Se as mutações “pegam”, ficam. Se não, nem sequer chegaram a existir. A complexidade dos organismos está associada ao tempo infindo que levou a apurá-los (no sentido de: escolhê-los). Houve tempo para tudo. As possibilidades eram infinitas e, das aleatoriamente concretizadas, sobraram as que podiam.

Chesterton's fence
G. K. Chesterton


A incultura histórica é um problema sério, porque quem julga que o mundo só existe desde ontem crê também, naturalmente, que o pode construir de novo entre hoje e amanhã.
A frase anterior pode ser vista como epígrafe a uma apologia do imobilismo. Desenvolva-se e complete-se a ideia, portanto. Um conhecimento aprofundado da história, e do papel dos indivíduos nela, permite traçar com maior precisão os limites da nossa capacidade de intervenção no devir da realidade. A palavra “limites”, se por definição algo deixa de fora, também deixa algo do lado de dentro. O grande teste, a prazo, é o da eficácia. Os golpes no destino dados pelos bárbaros acabam por ser ineficazes, e mesmo contraproducentes. Se apologia há, é a da anti-barbárie.
 
Commencement Address
Joseph Brodsky


Na maior parte das opções morais, sociais e políticas que se nos colocam todos os dias, são raríssimas as ocasiões em que as escolhas são claras como a água e as decisões simples como nos tempos bíblicos. Eu posso bater no ladrão que me tenta assaltar a casa, eu posso mesmo matar o monstro que me quer violar a filha, eu devo defender o fraco que na minha frente está para ser torturado ou perseguido, e devo ajudar o vizinho doente e pobre que nada tem. Mas fora de situações-limite imediatas, começam as dificuldades. Stephen Crane descreve algures a alienação do soldado que não se reconhece no conflito em que o obrigam a lutar. Todos os dias ouvimos falar de donativos desviados dos fins caritativos para que foram recolhidos. O perseguido de hoje às vezes não pensa senão em melhor perseguir amanhã. A acção moral está cheia de dúvidas, de zonas cinzentas, o mal e o bem perdem-se num continuum de indefinições. O refúgio é o direito codificado e a palavra abstracta. E passar a fechar os olhos ao sofrimento alheio.
 
This is Water
David Foster Wallace

  
Lendo o discurso de David Foster Wallace no Kenyon College, recordo com nitidez uma observação de infância. Eu ia no eléctrico, em Coimbra, num fim de tarde. Era o tempo em que o bilhete custava sete tostões, se fosse só para uma zona, e oito tostões se fosse para duas. Uma mulher entrou e entregou uma moeda de 25 tostões para pagar o bilhete. O cobrador ralhou, resmungando que não tinha troco. A mulher ficou aflita (ou devolveu o ralhete, já não recordo). Sendo pequeno, fiquei impressionado com o conflito. Pensei: quem terá razão? E imediatamente tive a consciência, que Wallace descreve na sua auto-estrada e no seu super-mercado, do que podia ter sido a vida dos dois intervenientes naquele dia, até àquela hora. O cobrador, em pé o dia inteiro, vendendo bilhetes e procurando trocos. A mulher, trabalhando sabe-se lá em quê, e chegando esgotada ao fim do dia. E respondi a mim próprio: não há razão, há duas vidas cansadas que se encontram em lados opostos de uma moeda de 25 tostões. Uma aprendizagem para toda a vida. Ficou-me barata: sete tostões, porque não ia mudar de zona.
 
The Strange Failure of the Educated Elite
David Brooks


Em 350 anos passámos da observação sobre o “moi haïssable” de Pascal nas Pensées para o império público e a adoração generalizada do eu. A evolução foi gradual. Na literatura começou no século 18. O indivíduo como sujeito da história chega no século 20, primeiro como parte da massa excitada por demagogos e depois por si. Hoje vivemos na era do narcisismo generalizado. Desprezamos a cultura e a civilização porque valemos mais que elas (e, de resto, porque não as conhecemos ou não as compreendemos). Uma manifestação de narcisismo detecta-se na opinião de alguns intelectuais sobre a História: todo o discurso histórico, dizem, depende de um ponto de vista presente; a indagação sobre os factos, o respeito pelos documentos, até a argumentação sobre as interpretações do passado, tudo vale nada porque só interessa a perspectiva – “ideológica”, dizem – do presente. Por outras palavras, só interesso eu, o que me apetece dizer, o que já decidi dizer.

E um texto clássico "fora de colecção":

O provincianismo português
Fernando Pessoa

 
Afirmação externa de Portugal mas também interna: uma preocupação exclusiva com a afirmação externa corresponde a uma dissolução nossa. Nós devemos conhecer, estudar, aprender, competir, admirar o que se faz fora. Mas nisso tudo somos nós: existe um sujeito, sem soberbas mas com personalidade própria, um sujeito que tenta pensar por si. O caminho entre a presunção patrioteira e o provincianismo bacoco e acrítico, que se deslumbra e ajoelha, literal e figuradamente, diante do estrangeiro, é estreito, mas é o único digno.

João Filipe Queiró é autor do livro O Ensino Superior em Portugal, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

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