Protestantismo
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A morte da religião foi uma notícia manifestamente exagerada

Excerto do livro 'Aleluia!', de Bruno Vieira Amaral.

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'Aleluia!' é o retrato urbano, pessoalíssimo, de uma nação de fés no plural, narradas na primeira pessoa por B, o guia desta demanda que talvez seja tambem a dele. Publicamos um excerto das páginas 83 a 85 do livro.

Ester, 21 anos, é uma presença frágil. Parece mais nova. O discurso é juvenil. Olha para o mundo como uma luta entre o Bem e o Mal. É com genuíno espanto, chocada, que fala de um sítio onde trabalhou durante uns meses: «Andavam todos metidos com todos.» Por um lado foi bom que não lhe tivessem renovado o contrato. Deus sabe sempre o que é melhor. Quando falámos estava desempregada. Mas as coisas iriam mudar. A confiança em Deus é total. O pai pede-lhe para dizer quantas vezes foi ao médico: «Nunca fui.» Nunca precisou. Conta-me que, certa vez, estava em casa sozinha, com febre, a sentir-se mal. Ligou ao pai que disse que se ia pôr a caminho. Quando o pai chegou a casa, Ester ardia em febre. O pai segurou-a e orou. Oraram juntos. Horas depois, a febre tinha passado. «Isto é mesmo verdade», diz Ester, rosto iluminado, como se a febre daquele dia ainda lhe inflamasse o olhar.

Assim como as igrejas milenaristas previram o fim do mundo, também já muitas vezes se previu o fim da religião. Com um optimismo que hoje nos parece deslocado, Sigmund Freud declarou que «quanto mais os frutos do conhecimento forem acessíveis ao homem, mais disseminado será o declínio da crença religiosa.» O futuro não lhe deu razão. Em todo o mundo a religião cresce. Nuno contou-me a história de um cristão na Nigéria que, ameaçado por islâmicos, se recusou a renegar a sua fé. Dispararam sobre ele mas o homem sobreviveu para contar a sua história. «Bastava-lhe ter dito uma palavra mas, mesmo assim, não o fez.» Nuno considera que é nas dificuldades, sem o apoio de uma estrutura, de uma organização, que a igreja cresce. Talvez a falta de dificuldades explique o facto de, na Europa Ocidental, a secularização ter tido efeitos mais vincados do que noutras paragens. Em Portugal, por exemplo, isso reflectiu-se na perda de influência da Igreja Católica na sociedade, quer nos costumes quer na esfera política. Se os recenseamentos mostram uma população maioritariamente identificada com o catolicismo, outros dados estatísticos indicam uma mudança profunda nas práticas. Diminuíram os casamentos católicos, os baptismos e, talvez o mais importante, diminuiu a prática dominical.

Em declarações ao Público, num artigo intitulado «Por que razão o baptismo é o rito que menos sofre com a crise da fé?», o porta-voz da Conferência Episcopal, Manuel Morujão, afirmou que «os ventos do materialismo prático e do relativismo ético têm feito esquecer os valores do espírito». Hoje mais do que nunca, há uma percentagem significativa de portugueses que diz não ter qualquer religião. Em 2011, eram 615 mil indivíduos, quase 7% da população. Para se ter uma ideia do crescimento, em 1991 eram 230 mil, menos de 3% do total. Porém, estes números são acompanhados de um crescimento sustentado das minorias. Além disso, não captam a reconversão religiosa, as práticas de bricolage, em que o consumidor, qual cliente Ikea, constrói a religião à sua medida. Neste sentido, quando a própria Conferência Episcopal declara que 88,4% da população é católica, apesar de no Censos de 2011 esse valor ser de 81%, ainda assim um valor muito acima das práticas (por exemplo, em 2012, houve 34 mil casamentos e, destes, só 13 mil foram católicos), a única forma de reconciliar esses números com a afirmação de Manuel Morujão é reconhecendo todo um conjunto de crenças e de costumes que escapa à quantificação habitual. Ou seja, a elasticidade e a diversidade das ofertas, mais do que o conceito de secularização, é que marcam a evolução do nosso panorama religioso. Ao partir da diminuição do número de vocações para a ideia de uma crise de fé, ignoram-se todos os outros modos pelos quais a fé se manifesta. Isto significa que, mesmo na Europa, a morte da religião foi uma notícia manifestamente exagerada. No caso concreto de Portugal, as mudanças ocorreram não só no interior da religião maioritária, como no restante território religioso.

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