Homens e mulheres no momento da decisão: quem manda ter filhos?

Texto de João Miguel Tavares, a propósito da sua participação no debate do Mês da População «Quem manda ter filhos?»

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Mandam elas. Ou melhor (que é preciso ter cuidado com as palavras nos dias que correm): mandam sobretudo elas. Pela simples razão de que as mulheres têm do seu lado os três trunfos mais importantes na hora de se tomar uma decisão.

O trunfo biológico: desde a invenção da pílula, a mulher só é mãe se assim o desejar. O trunfo cultural: desde a invenção da família, a mulher só não manda na vida doméstica se não quiser. O trunfo moral: desde a invenção do mundo, é a mulher quem tem de suportar o maior peso da decisão de ter um filho – é sua a barriga onde ele cresce, é seu o sofrimento durante o parto, é sua a tarefa da amamentação, é nas suas costas que recai o maior impacto do nascimento de um bebé, tanto a nível emocional como profissional.

Por isso, quem mais sofre e quem mais pena é quem tem mais direito a mandar na decisão de ter um filho. E não, juro que isto não é um processo de alienação dos meus deveres parentais. Estou do lado de quem acredita que há ainda um longo caminho a percorrer na questão da igualdade entre homens e mulheres. Julgo apenas que nesse necessário e meritório combate cultural convém não terraplanar certas diferenças biológicas (ainda pensei em escrever “diferenças naturais”, mas temi ser maltratado) que são próprias da espécie e não vejo forma de serem removidas. Ou seja, enquanto as mulheres possuírem útero e os homens não, e enquanto os bebés crescerem em úteros e não em mochilas que possamos transportar às costas, independentemente dos sexos, não me parece que, no campo da fecundidade e da gestação, uma genuína, pura e milimétrica igualdade venha algum dia a ser possível. Logo, elas mandam.

O meu caso pessoal, no entanto, é um pouco sui generis, porque, devido a uma mistura de desleixo e problemas com métodos contraceptivos, eu e a minha mulher acabámos com quatro filhos não planeados. Eles foram aparecendo meio por acaso, o que leva toda a gente a tirar uma de duas conclusões: 1) que eu sou do Opus Dei; 2) que eu sou muito estúpido. Posso garantir que 1) não é verdade, mas não posso garantir que 2) seja mentira. Até porque há estudos que garantem que as pessoas mais inteligentes são as que querem ter menos filhos, e há estatísticas que provam que o desejo de não ter filhos aumenta com o nível de educação do casal.

São estudos e estatísticas muito interessantes. Porque não só demonstram que a melhor forma de se controlar o excesso de população no planeta é educar as pessoas, como desmonta essa extraordinária balela que é afirmar que os portugueses têm poucos filhos somente porque não têm suficiente apoio do Estado e passam dificuldades económicas. Não, meus senhores. É exactamente o contrário disso. Os portugueses não têm poucos filhos porque são pobres. Os portugueses têm poucos filhos porque são ricos. Foi no ocidente anglo saxónico que se inventou a expressão childfree people – gente que assume não querer crianças na sua vida. E não quer porquê? Não quer porque a vida é excelente sem elas.

Sim, a vida é excelente sem elas, como sabe qualquer pessoa inteligente, com algum dinheiro e um bom nível de educação. Consigo lembrar-me de tanta coisa divertida para se fazer sem filhos, tal como me consigo lembrar (com pesar) de uma enorme quantidade de coisas divertidas que deixamos de fazer quando temos filhos. No mundo burguês, saudável, globalizado e endinheirado do século XXI ter filhos não é uma decisão racional. Ter filhos era uma decisão racional em 1816, quando precisávamos de braços para trabalhar. Em 2016, ou é uma decisão biológica (no sentido “natural” de “relógio biológico”), ou é uma decisão espiritual, em função de uma ideia metafísica de sentido para a vida, seja ela religiosa ou não. Racional é que não é. E como cada vez há mais gente inteligente, há cada vez menos filhos. E assim continuará a ser, com excepção de uma ou outra família pouco esperta, como a minha.

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