O Trabalho do Futuro em 13 perguntas

Homens e robôs vão trabalhar lado a lado. Muitas profissões desaparecerão, mas muitas outras irão surgir. É urgente mudar a formação e a educação das crianças, alertam os especialistas.

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A automação ameaça acabar com 62 milhões de postos de trabalho até 2055 só em em cinco países europeus. Como vão viver estes desempregados? O mercado tem capacidade para os absorver? A que custo? Os desafios da quarta revolução industrial estiveram em análise no programa Fronteiras XXI.

A cientista da Universidade de Carnegie Mellon Manuela Veloso, o administrador da The Navigator Company João Paulo Oliveira, o investigador e ex-sindicalista Carvalho da Silva e o sociólogo do trabalho António Moniz debateram este impacto tecnológico e como deverá ser a formação e a educação do trabalhador do futuro. Aqui encontra em 13 perguntas e respostas o resumo de 90 minutos de debate na RTP3.

1. O Fórum Económico Mundial (WEF) prevê que a automação acabe com mais de cinco milhões de postos de trabalho até 2020. No futuro, há muitas profissões em risco de desaparecer?

“Muitos empregos desaparecem, mas são também muitos os que surgem”, defendeu Manuela Veloso, que há 30 anos se dedica à programação e criação de robôs nos EUA. A cientista não tem dúvidas de que a aplicação da robótica e da inteligência artificial no mercado de trabalho é “inevitável”. Mas lembrou que não há que temer este futuro, porque ele “será construído e decidido por nós”.

Também para Carvalho da Silva é fundamental não olhar para esta revolução tecnológica “com medo”, nem “determinismo” porque o seu impacto “será positivo ou negativo pelas opções que nós tomarmos”. O ex-dirigente sindical, hoje investigador no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES), recordou que “só a crise económica, que não teve nada a ver com robótica, destruiu 20 milhões de empregos em poucos anos…”.

2.Os humanos já estão a tornar-se supérfluos em algumas funções?

 “A forma como algumas tecnologias estão a ser desenvolvidas tem como objectivo tornar os empregos supérfluos”, garantiu o sociólogo do trabalho na Universidade Nova de Lisboa António Moniz. O investigador, que também dá aulas no Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, na Alemanha, lembrou contudo que a tecnologia pode ser construída de forma a envolver os humanos e não apenas para fazer com que se limitem a carregar nos botões das máquinas. Hoje “estamos a assistir a uma revolução no conteúdo das tarefas e na forma como vão ser desempenhadas”, avançou, explicando que “será sempre preciso ter um nível de qualificação profissional muito superior ao actual para operar com as máquinas no futuro”.

3. Numa revolução tecnológica acelerada, haverá tempo para as pessoas se requalificarem?

 “Vamos ter uma grande quantidade de pessoas que terão de fazer uma mudança radical na sua vida”, defendeu João Paulo Oliveira, administrador da The Navigator Company, a antiga Portucel. “Há 100 anos, 70% da população trabalhava na agricultura e hoje são menos de 5%”, afirmou, acrescentando que, agora, a velocidade a que as tecnologias ficam disponíveis é tão elevada que todos temos de estar conscientes dos seus efeitos. “Os decisores políticos tem de perceber que o sistema de ensino tem de mudar”, alertou. “A formação vai ter de ter mais opções, não pode ser 'standard'. E vamos ter de seleccionar quais serão os empregos de futuro, como a programação…”

4. O que deve mudar na formação?

 “As universidades têm de perceber que necessidades vão ser importantes no tecido industrial”, adiantou o gestor. Hoje, a oferta formativa não acompanha as necessidades do mercado, criticou, dando como exemplo a grande procura dos cursos de Engenharia Civil quando a Engenharia Mecânica vai ser uma especialidade fundamental para o futuro.

Já para Manuela Veloso a formação deve passar a apostar nos “talentos”. “Acredito que a educação será assim: Olhar para uma criança e pensar nos seus talentos e naquilo que pode desenvolver com eles. É preciso, mais do que nunca, apostar na criatividade”.

5. Vamos trabalhar mais por conta própria?

“Hoje em dia nos EUA os recém-licenciados têm uma opção que não existia: o Estado ajuda-os a criarem startups. Isto é uma grande mudança em termos de trabalho”, disse a cientista portuguesa da Universidade de Carnegie Mellon. “Na minha universidade criaram-se centros só para fomentar o empreendedorismo e pessoas que sempre fizeram ciência pura passaram a promover este novo conceito de emprego”. Manuela Veloso acredita que o próprio conceito de trabalho já está em mudança: “As pessoas também já não querem o trabalho tradicional e rotineiro. Já pensam que vão fazer drones para entregar encomendas em casa e isto há dez anos não era assim. Acredito que no futuro, a economia vai ser acima de tudo, uma economia de talentos”.

6. O empreendedorismo jovem pode ser uma solução para o desemprego?

O empreendedorismo deve fazer parte da formação, “mas não é uma panaceia”, defendeu, por sua vez, António Moniz, lembrando que “muitos não conseguem” criar o seu próprio emprego, nem estão preparados para a rejeição dos seus projectos pelo mercado empresarial. Mas, tal como Manuela Veloso, o sociólogo do trabalho está convicto que a educação terá de mudar: “É importante que a escola estimule a criatividade das crianças. Temos uma educação demasiado formatada”.

7. A flexibilização do horário de trabalho pode ser uma solução para combater o desemprego gerado pela automação?

“A flexibilização de horário de trabalho pode ser importante, mas é preciso introduzir outras soluções”, alertou Carvalho da Silva, lembrando que “as máquinas vão produzir muito mais riqueza e é preciso discutir as diferentes formas de como se pode beneficiar dela”. Já para o empresário João Paulo Oliveira a flexibilização nunca poderá ser uma solução generalizada, só sendo possível em algumas funções. Na empresa onde trabalho, temos essa discussão diariamente. Temos linhas que trabalham 24 horas por dia, aí é impossível haver flexibilização”, explicou. “Mas temos outras áreas em que as pessoas podem fazer parte do seu trabalho em casa ou em que trabalham mais horas em certas alturas do ano”.

8. Nesta transição, as empresas vão requalificar os trabalhadores ou optar por contratar novos profissionais?

“A grande maioria das pessoas será reconvertível se tiver vontade de o fazer ” e se os gestores apostarem nessa reconversão, garantiu o administrador da antiga Portucel. “Quando comecei a minha vida profissional na indústria, a maior parte dos trabalhadores vinham de um meio agrícola e tinham uma formação básica. Houve a preocupação de qualificar estas pessoas, algumas delas continuaram a estudar e chegaram à universidade”, contou.

Para Manuela Veloso a própria evolução tecnológica tornará mais fácil esta requalificação profissional. “Já hoje nada me impede de ir à Internet ver palestras, vídeos e procurar informação para me redefinir”, explicou. “Estes sistemas de educação poderão um dia tornar-se muito mais sofisticados” e ser uma ajuda importante para a formação, concluiu.

9. Há profissões hoje consideradas condenadas, muitas delas no sectores administrativos, dos serviços, nos call centers

“Só nos EUA, há 3,3 milhões de camionistas em risco de perder o emprego” devido aos avanços da tecnologia dos carros sem condutor, lembrou o gestor João Paulo Oliveira. Já Carvalho da Silva encara estas previsões com cepticismo: “o que se diz em relação à robotização é que a tendência é para o desaparecimento rápido de várias profissões altamente qualificadas, desde advogados, mas também no sector dos serviços. Tenho dúvidas”.

10. O rendimento básico universal (RBI), um subsídio do Estado para todos os cidadãos, pode ser uma solução para apoiar esses novos desempregados?

Não, defendeu João Paulo Oliveira. O gestor considerou “muito perigoso” pensar-se num RBI sem se saber ao certo como se financiará esse apoio. Por outro lado, “o ser humano precisa de ser desafiado” e o facto de existir um apoio garantido pode ter um efeito desmotivador, alegou.

Também para Carvalho da Silva o RBI não é uma solução: “O trabalho hoje não é só fonte de rendimento, mas também o meio mais seguro de inclusão social e de responsabilização na sociedade” e por isso “não é substituível” por subsídios. Por outro lado, “se a robotização traz um aumento substancial da riqueza que lógica tem pegar em migalhas e dar um rendimento para garantir que as pessoas não morram à fome?”, questionou. “Usar esta ideia para desarmar o estado social não é aceitável”, criticou.

Já o sociólogo António Moniz acredita que este rendimento pode ser uma alternativa para os desempregados em situações extremas. “Pode ser interessante como estratégia de redistribuição de rendimentos, mas politicamente os governos olham-na com desconforto”, reconheceu.

11. Um rendimento básico ajudaria os desempregados a perder o medo de arriscar ?

Com este apoio as pessoas poderão sentir-se mais livres para se encaminharem para trabalhos que exigem talento, mas não são remunerados, defendeu Manuela Veloso. “Se se libertassem as pessoas da necessidade de dependência económica isso iria permitir à sociedade enriquecer-se de uma maneira espectacular”, disse. “Muita gente trabalha em coisas que não gosta porque precisa de ganhar dinheiro. O RBI iria permitir às pessoas seguir as suas ideias e realizar os seus sonhos”.

12. Resolver problemas complexos ter pensamento crítico ou ser criativo são competências exigidas no futuro, diz o WEF?

Nas empresas, explicou João Paulo Oliveira, “temos necessidade de criar equipas que trabalham mais e melhor”. É impensável hoje numa gestão moderna dizer: ‘cala-te estás aqui para trabalhar e não para pensar’”, resumiu. Também para a cientista de Carnegie Mellon o pensamento crítico e a capacidade de aprendizagem ao longo da vida serão ferramentas essenciais no mercado de trabalho.

13. No futuro, o homem será a extensão da máquina ou a máquina uma extensão do homem?

“Teremos de interagir com as máquinas inteligentes”, numa cooperação entre humanos e robôs, resumiu Manuela Veloso. Foi isso que a cientista percebeu quando criou os cobots, robôs que encaminham as pessoas aos gabinetes e desempenham várias tarefas dentro do departamento onde trabalha em Carnegie Mellon. “Criámo-los para serem totalmente autónomos, mas com o tempo chegamos à conclusão de que tinham limitações e então ensinamo-los a pedir ajuda aos humanos”, explicou. “Quando estão a desempenhar uma tarefa e não conseguem perguntam-nos: ‘Podes carregar no botão do elevador?’ ‘Podes dizer-me onde guardam o café porque tenho de ir buscar?’. E tudo o que nós dizemos eles aprendem”, adiantou. “Estes robôs começaram sem saber nada dos nove andares do edifício onde trabalho e dos seus 350 gabinetes. Agora têm acumulada informação sobre tudo isto e ficaram a saber mais: E essa informação chegou da interacção connosco”, concluiu.

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