E o que vivem e pensam os alunos?

Nesta última crónica, o professor Paulo Guinote dá voz aos alunos: são eles que contam como se sentem e estão a viver os tempos de isolamento. E como a falta de liberdade também é um grande castigo.

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Logo que começou o 3º período e se (re)estabeleceu o contacto com os alunos no modelo de “tele-ensino”, não me interessou muito a solicitação apressada de tarefas com base nos conteúdos programáticos ou tentar criar uma (impossível) sensação de “normalidade”.

Em vez disso, interessou-me saber como estavam, qual a sua experiência desde o início do confinamento, como ocuparam o seu tempo, como evoluiu o seu estado de espírito, o que mais lhes agradou ou desagradou em todo este novo contexto.

Essa foi a tarefa, independentemente das disciplinas que lecciono (História, Português, Cidadania e Desenvolvimento), que lhes pedi: escreverem três a cinco parágrafos sobre a sua experiência, mais se quisessem, menos se nem isso conseguissem, acerca do que sentiram nas semanas que decorreram entre meados de Março e meados de Abril.

A resposta foi bastante mais diversificada do que o esperado e em alguns casos mesmo inesperada, em alunos que antes resistiram bastante a escrever mais do que um punhado de palavras.

Há traços comuns em vários testemunhos, como o maior convívio em família, o recurso ao telemóvel e à actividade física para ocuparem o tempo, as dúvidas quanto ao futuro. Há quem não se sinta mal e aproveite para desfrutar do que antes não tinham tanto tempo para fazer, mesmo se começa a acumular-se alguma inquietação quanto ao confinamento:

“Pessoalmente gosto de estudar em casa, porque eu não me tenho de me levantar às sete da manhã para ir para a escola a parecer uma sonâmbula cheia de sono (…). Eu tenho lidado mais ou menos com a quarentena [pois] podemos dizer que eu sou uma pessoa que é adepta de ficar em casa a ver filmes e essas coisas e não ir à rua. Mas eu já não saio de casa há praticamente quase dois meses e isso para mim está-se a tornar muito difícil e stressante, mas também não me posso queixar muito, pois eu [estou] no Alentejo onde a casa é grande com um quintal enorme. Mas já estou farta porque é sempre as mesmas paisagens, sempre os mesmos horizontes e isso não é fixe porque começa a ser demasiado tempo no mesmo sítio.” (S., aluna do 6º ano, 13 anos)

“Ocupar o meu tempo tem sido uma das coisas mais fáceis, mas tento fazer não só uma atividade e ir alternando para não ficar aborrecida, por exemplo vejo series, faço os trabalhos da escola, leio, passeio o meu cão e oiço música. Apesar de estar a desfrutar do facto de poder estar em casa, espero que o estado de emergência acabe e tenhamos a possibilidade de voltar à normalidade o mais cedo possível.” (A., aluna do 8º ano, 14 anos)

Há os que aproveitam para desenvolver novas competências: 

Nesta quarentena como não podemos sair de casa tenho feito muitas atividades divertidas com a minha família. Usei argila para fazer um prato para colocar as chaves e fiz atividades de artes plásticas sobre a Pascoa, com cartolinas fiz cestos de ovos e usei materiais recicláveis para criar cenouras e pequenos coelhos. Aprendi a cozinhar com a minha mãe, fizemos bolos e bolachas. A minha mãe diz que estou um Mini Chefe. Temos tido tempo para jogar em família a jogos de tabuleiro.” (T., aluno do 6º ano, 12 anos)

 

Os mais informados revelam preocupação com o que ainda poderá estar por vir, revelando perceber porque há expectativas que tiveram de ficar por satisfazer.

Paulo Guinote

“O pior desta quarentena é o “não sair de casa” (acho que quase todos os jovens pensam da mesma maneira que eu); nestas férias da Páscoa era para ter ido de férias para o Norte mas este vírus impediu-me disso e parece que este isolamento social vai durar bastante, já ouvi que ia haver uma segunda ronda deste vírus e que irá ser bem pior.” (R., aluno do 8º ano, 14 anos)

Há compreensão acerca do que se está a passar; mesmo um mês depois de ficarem em casa há quem considere que as coisas não começaram há muito tempo:

“A quarentena começou há pouco tempo, mas de uma forma ou outra já afetou a minha rotina diária, tal como a da minha família. Estamos todos a seguir as regras que foram aplicadas, não só para o nosso bem, mas para o de todos.” (E., aluna do 8º ano, 14 anos)

A ocupação do tempo é uma questão fundamental:

“Mesmo que seja difícil estar em casa 24/7, há várias atividades que me distraem, como por exemplo os trabalhos propostos pelos professores. Uma das consequências de ficar em quarentena é ter aulas online. Eu gosto das aulas online, os trabalhos que me são propostos na maioria das vezes são fáceis e simples, porém, às vezes são demais e mesmo pequenos tornam-se cansativos.

Com o tempo livre que me resta, quando pretendo ser produtiva, experimento fazer receitas que vejo na internet, arrumar o meu quarto. E graças a esse tempo livre consegui voltar/começar a fazer outro tipo de atividades como o exercício físico. Já que não posso sair de casa, faço exercícios na varanda.” (idem)

Há quem pareça sentir-se minimamente confortável com tudo:

"Tenho passado estes dias muito ocupada, tenho feito os trabalhos que os professores mandam e também a fazer outros das várias disciplinas que temos e aproveito para aprender mais algumas coisas. Descobri que a minha mãe podia ser professora, [pois] tem.me ajudado muito. Nos tempos livres entretenho-me a ler livros, até já li o livro “Robinson Crusoé“ [que] é muito interessante de ler. Também jogo PlayStation e brinco com a minha irmã bebé.

O melhor disto tudo é que estamos em casa com os nossos pais, irmãs e irmãos, todos juntos a divertir-nos, dividir tarefas. Apesar de que na minha casa sempre foi assim. (I., aluna do 6º ano, 11 anos)

Mas há alunos que se aborrecem com este excesso de convívio familiar:

“A pior parte está quarentena, é que às vezes estar perto da minha família me irrita.... e também estar sem aulas na escola.... [porque] eu não gosto de ter aulas virtuais.” (L. aluna do 8º ano, 15 anos)

As saudades da família que não se pode visitar, da escola e dos colegas é forte, mesmo se há quem recorra aos meios digitais para se manter em contacto:

Só espero que isto passe rápido para podermos voltar à nossa vida normal, estar com os outros familiares e brincarmos com os nossos amigos.” (Idem)

“Tenho saudades de todos. Espero que isto acabe logo, já estou farta de ficar em casa.” (K., aluna do 6º ano, 12 anos)

Claro que há quem aproveite para um refrescante acesso de sarcasmo:

"A minha quarentena está [a ser] o máximo: trabalhos de casa, acordar cedo desde o dia em que um pequeno vírus decidiu atacar pessoas inocentes na China. (…) gostaria de pelo menos voltar à escola, não porque tenho saudades de vocês, mais sim para melhorar as minha notas e passar de ano". (L., aluna do 6º ano, 13 anos)

E quem apenas queira recuperar a liberdade perdida ou, no mínimo, suspensa:

"Hoje estamos a viver um momento que toda a gente teme, um momento que todos tentam lutar pela sobrevivência, mas é uma sobrevivência muito diferente do que as pessoas pensam, porque não é uma sobrevivência [apenas] física mas sim mental e psicológica, porque uma pandemia consegue abalar toda a gente, principalmente os idosos e as crianças, porque essa pandemia conseguiu alarmar muitos países, uma coisa que não acontece há anos, para as pessoas verem a gravidade da situação.

(…) Já passou [um mês] que estou em casa e sinto falta de muita coisa porque eu tinha liberdade eu tinha liberdade de ir até à rua jogar um pouco a bola mas isto aqui é um grande castigo para todos mas também temos que perceber porque que estamos em casa, para proteção de nós mesmo e [dos que] queremos que fiquem bem, porque uma quarentena não significa férias, porque eu trabalho o máximo possível e quero mostrar o meu esforço. Porque isso é que significa quarentena; apesar de eu não gostar, percebo que é por uma boa razão.” (R., aluno do 8º ano, 16 anos)

 

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