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Hoje é Dia Nacional do Mar. Damos-lhe a conhecer «Os Últimos Marinheiros» portugueses

Hoje é Dia Nacional do Mar. Damos-lhe a conhecer «Os Últimos Marinheiros» portugueses

No seu livro, Filipa Melo fala-nos dos «bíblicos» homens do mar. Nelson Caçador e Márcio Sousa são dois deles
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Em Março de 2015, Filipa Melo subiu a bordo do Neptuno, um navio de pesca de arrasto. Num passeio ao largo da Figueira da Foz, conheceu mais sobre a vida marítima e sobre a dos marinheiros que entrevistou. O resultado foi o livro «Os Últimos Marinheiros», um Retrato da Fundação. Reunimos excertos.

 

A importância do mar na economia portuguesa actual

«Em Portugal, os homens do mar estão em vias de extinção, ou quase. Os dados referentes aos últimos vinte anos são esclarecedores. O número de pescadores nacionais caiu de 30 mil em 1995 para menos de 19 mil em 2011 e para cerca de 16 mil e setessentos em 2013. [...] Entre os países costeiros da Europa Ocidental, somos dos que registam menos barcos de recreio por habitante e dos que geram menos emprego no sector das actividades marítimas (restringindo-se a maioria dos postos de trabalho ao turismo costeiro). De acordo com o Censos 2011, apenas cerca de 1 % da população residente empregada exerce a sua profissão em actividades directamente relacionadas com o mar, sendo que esta percentagem representa uma população bastante envelhecida para a média geral.» (pág. 10)

O mar visto pelos marinheiros

«Para a generalidade dos profissionais da marinha de pesca, o mar não motiva devaneios: significa apenas o ganha-pão, o meio de sustento. "A vida aqui serve para ganhar dinheiro, mais nada. Tenho de lutar muito", desabafa o marinheiro Arménio José Pata Ribeiro, 49 anos, desde os 17 "neste dia-a-dia de sacrifício".» (pág. 38)

Traços da vida do marinheiro Nelson Caçador

«Há 36 dos seus 54 anos que Nelson Caçador anda "nisto". É bisneto, neto, filho de pescadores. Herdou a fibra de Maria Rosa, "viúva em vida" porque o marido andava, na maior parte do tempo, pelos mares do Norte. Para criar os cinco filhos, ela ia nas bateiras. Nos canais estreitos da ria de Aveiro, fisgava as enguias, puxava os cabos, colhia a rede. "Ganhávamos hoje para comermos amanhã. A minha mãe usava muito o livrinho de contas de fiar, mas nunca deixou mal o merceeiro."» (pág. 17)

Se [o mar] é a religião da Natureza, a poucos homens é concedida a verdadeira graça do culto. Chamam-se os homens do mar. Trabalham nele, são dele. Pertencem-lhe. São uma raça à parte.

Traços da vida do marinheiro Márcio Sousa

«O pai de Mário era marnoto (salineiro), uma profissão típica de Aveiro e hoje quase extinta. [...] "Lembro-me do meu pai, com uma cana da índia e um pesa-sais, a preparar a salinidade da água, até ela ter pelo menos vinte e cinco graus e começar a formar os cristais de cloreto de sódio. Depois passava os dias a mexer as águas de um meio [um compartimento] para o outro, até evaporarem e o sal estar pronto para ser extraído, com o rodo. Aquilo era uma arte!" No verão, o sal era transportado das silhas para os armazés (construídos em madeira de pinheiro), para mal das vértebras dos carregadores, sobretudo mulheres e crianças.» (pág. 32)

O mar e a sua relação com a Bíblia

«Regresso a bordo. Como a rede veio "empachada", com a malha desfeita aqui e ali, há que conserta-la antes de ser lançada de novo. O mestre Paulo vem ajudar e completa a cena, que é das mais belas do dia. [...] Os homens, debruçados sobre a rede tingida de verde e azul intensos, remendam-na com agulhas e cordas. Ao fundo, planam ou picam os voos das gaivotas, alcatrazes, pardelas e cagarras, mergulhando entre os dois azuis. Fora o piar das aves, o rangido monótono do navio e o rumor do marulhar contra ele, não se ouve mais nada. Mesmo pelo olhar de um ateu, este parece um quadro bíblico. Ou não foi nesta postura que Jesus viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, e os chamou a juntarem-se-lhe, tornando-se pescadores de homens, consertadores das redes entre eles e com Deus? Pescar é um acto de fé, disso não há dúvida. Inclui momentos com uma iluminação misteriosa.» (pág. 35)

A opinião de Filipa Melo sobre o mar e os marinheiros

«O mar chamou-me desde que me lembro. Mas sei que não lhe pertenço. O mar tanto oferece, tanto ruge, segundo leis desconhecidas. Despreza mitificações e romantismos, faz pagar caro os despiques, exige submissão absoluta. Se ele é a religião da Natureza, a poucos homens é concedida a verdadeira graça do culto. Chamam-se os homens do mar. Trabalham nele, são dele. Pertencem-lhe. São uma raça à parte.» (pág. 9)

O livro «Os Últimos Marinheiros» está disponível na loja da Fundação, com 10% de desconto e portes de envio gratuitos.

O acordo ortográfico utilizado neste artigo foi definido pelo autor.