Para que serviu a conferência dos Oceanos?

Os decisores políticos precisam de conhecer o estado do planeta, suportar as suas decisões na melhor ciência e inovação e de ter a coragem de mudar de rumo, diz a professora da Universidade de Lisboa.

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Lisboa foi o palco mais azul do planeta, ao acolher a Conferência dos Oceanos 2022 das Nações Unidas e com ela os líderes mundiais de centenas de países, acompanhados de muitos outros milhares de participantes.

Entre eles empresários e industriais, cientistas e académicos, investidores e filantropos, ativistas e artistas bem como a geração futura de jovens e crianças que também por ali quiseram deixar a sua marca.

Durante uma semana a palavra mais ouvida em Portugal, e pelo mundo das Nações Unidas, de manhã à noite e em todos os meios de comunicação foi oceano. Mar, clima, sustentabilidade, explorar, conhecer, preservar, restaurar, oportunidades, ciências, objetivos de desenvolvimento sustentável, literacia do oceano, jovens, mulheres, líderes, compromissos, agenda 2030 foram muitas outras que também popularam a nuvem do léxico desse período e por isso pode dizer-se que o primeiro grande objetivo desta conferência foi amplamente conseguido – o de trazer para a agenda pública e civil o tema dos Oceanos e do que todos podemos e queremos fazer com o que sabemos deles hoje.

O primeiro grande objetivo desta conferência foi amplamente conseguido – o de trazer para a agenda pública e civil o tema dos Oceanos.

Helena Vieira

Mais de 300 eventos paralelos à assembleia central das Nações Unidas demonstraram a pujança e vontade da sociedade e dos seus atores se mobilizarem e trabalharem nos mais diversos temas azuis. Desde a presença, no fabuloso espaço do One Sustainable Ocean, de centenas de atores de toda a cadeia de valor do mar e às dinâmicas de networking aí geradas, às maravilhosas exposições de imagens e peças artísticas um pouco por toda a parte chamando a atenção para temas como a degradação da biodiversidade marinha, os microplásticos e as alterações climáticas; às centenas de eventos paralelos por todo o país, que cobriram tópicos relevantes para os diferentes sectores económicos como os portos e transporte marítimo, a aquicultura, a bioeconomia azul, as energias renováveis oceânicas, as algas, e a engenharia naval, entre tantos outros; passando por eventos relacionados com o vibrante ecossistema empreendedor e financeiro azul que está a nascer um pouco por toda a Europa e que, com a associação à filantropia, podem de facto fazer a diferença; ou ainda o enorme e crucial papel que a ciência e a investigação académica teve, tem e continuará a ter no caminho para um oceano saudável e um planeta mais sustentável; passando pela literacia do oceano e os inúmeros eventos de escolas e NGO’s de juventudes que procuram trabalhar os temas oceano nas suas diferentes populações criando a geração de decisores de amanhã mais consciente e preparada para a batalha ambiental e climática que os espera; não esquecendo ainda outros temas como o papel das mulheres na economia azul; o papel da governança e do financiamento público na criação do ecossistema azul que precisamos e ainda a conservação e proteção do oceano nas suas mais variadas formas.

Por todo o lado se ouvia –«estou a correr para ir ao evento X ou Y que vai ser super importante!» e se via e sentia a alegria e excitação de todos os que por lá estavam pelo privilégio de fazer parte daquilo que muitos consideraram um ponto de viragem na agenda do nexus clima-oceano!

Muitas das soluções são já conhecidas e grande parte delas existem e estão disponíveis, mas a relutância e resistência de fortes lobbies à sua adoção é ainda enorme.

Helena Vieira

O segundo, e não menos importante, objetivo desta enorme conferência é o de mobilizar a agenda política, e os decisores mundiais para a correção de uma rota que se tem relevado desastrosa no que concerne a mitigação das alterações climáticas e o reconhecimento do papel do oceano como crucial para o sucesso desta batalha.

O mundo caminha a passos largos para superar o aumento médio de temperatura global de 1,5 graus centigrados, continuamos a aumentar as emissões de CO2 e gases de estufa para a atmosfera, a desenvolver economias extrativas e danosas para o ecossistema planetário e a fomentar a dependência da humanidade nos combustíveis fósseis. Muitas das soluções são já conhecidas e grande parte delas existem e estão disponíveis, mas a relutância e resistência de fortes lobbies à sua adoção é ainda enorme.

Maximizar a capacidade do oceano de mitigar o aumento de temperatura, através do restauro dos ecossistemas e biodiversidade marinha que, em pleno funcionamento, mitigarão uma boa parte deste efeito através dos seus ciclos naturais; ou ainda a sua capacidade funcionar como um semiduro de carbono muito mais eficiente que qualquer outro em terra, restaurando florestas de algas ou pradarias marinhas que por si só têm 30 vezes mais capacidade de absorver e reter prolongadamente o que se chama de carbono azul; apostar em modelos de desenvolvimento bioeconómicos e circulares, onde se romperá definitivamente o ciclo repetitivo de ligar o crescimento económico ao da atividade extrativa dos recursos naturais, com exemplos como os que utilizam a biotecnologia azul ou aquicultura sustentável e multitrófica integrada como formas de fazer esta transição e de apostar na produção sustentável e não na extração industrial insustentável; ou ainda acelerando drasticamente a transição climática para as energias renováveis (oceânicas) e incentivando esta mesma transição nas indústrias tradicionais como soluções de inovação, são parte integrante da solução.

Nesta declaração final, países-membros da ONU mencionam «arrependimento profundo» ao reconhecer a ‘falha coletiva’ em alcançar metas ligadas ao ODS 14», mas renovam o compromisso em tomar, com urgência, medidas para mudar a maré.

Helena Vieira

Para tal ser possível, o oceano tem que ser restaurado da sua capacidade total, os ecossistemas protegidos e conservados nos modelos adequados e a ciência fomentada porque os dividendos desta estratégia são o futuro do planeta e das próximas gerações. Os decisores e líderes políticos precisam de conhecer o estado do planeta, suportar as suas decisões na melhor ciência que existe, conhecer o que de melhor se faz em termos de inovação nos diferentes setores e ter a coragem para mudar o rumo de políticas comprovadamente ineficientes e insustentáveis.

No final da Conferência dos Oceanos 2022 em Lisboa, 150 países das Nações Unidas acordaram assinar uma declaração final, onde reafirmam que «a mudança climática é um dos maiores desafios do nosso tempo» e assumiram voluntariamente vários compromissos para alcançar os objetivos da Agenda2030. Nesta declaração final, países-membros da ONU mencionam «arrependimento profundo» ao reconhecer a ‘falha coletiva’ em alcançar metas ligadas ao ODS 14», mas renovam o compromisso em tomar, com urgência, medidas para mudar a maré.

O texto tem entre os objetivos o apoio a ações inovadoras e baseadas na ciência para salvar os oceanos; proteger pelo menos 30% das zonas marítimas nacionais até 2030; reduzir a zero a poluição causada por plástico até 2050 e garantir que 100% dos stocks de peixes sejam mantidos dentro dos limites biologicamente sustentáveis.

Para culminar nada se consegue só com palavras. Durante toda a semana, várias entidades anunciaram investimentos para tornar as promessas realidade: o Desafio Protegendo o Nosso Planeta investirá US$ 1 bilhão para a expansão de áreas marinhas protegidas até 2030; o Banco de Desenvolvimento da América Latina promete investir US$ 1,2 bilhão para apoiar projetos que beneficiem o oceano na região e o Banco de Investimento Europeu comprometeu mais € 150 milhões para a Iniciativa Oceanos Limpos, na região do Caribe entre muitos outros.

Por tudo isto, devemos estar orgulhosos por Portugal continuar na linha da frente do oceano e ter reforçado os seus compromissos nesta que foi a 2ª Conferência dos Oceanos das Nações Unidas. Haja Esperança!

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