Defesa: o que vai ter de mudar na Europa?

Como e com que nível de compromisso é que a guerra na Ucrânia vai mudar a política de defesa na Europa? As respostas do historiador Bruno Cardoso Reis nesta entrevista «O Mundo Que Se Segue».

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A União que fez a paz, que fez a força económica dos europeus, surgiu sempre mais débil na hora de afinar um tom consensual nas áreas da política externa e defesa. Até agora a guerra está a servir de cimento para uma voz comum na condenação à Rússia, nas sanções e no acolhimento de quem foge.

Está em curso uma viragem no adeus às armas que parecia dominar a política europeia, mais confiante no peso dos argumentos comerciais do que nos bélicos. A guerra voltou à Europa e com ela regressou esta urgência da defesa às agendas políticas. Quando se fizer a história destes dias, é seguro dizer que há um antes e um depois da invasão da Ucrânia?

Vai ser um marco na história europeia e nos livros de história. Falar de uma viragem histórica não quer dizer o fim da história, não resolve todos os problemas, não acaba com todas as divisões e tensões, mas cria uma nova realidade e também uma nova perceção, a Rússia como uma ameaça. Estamos num período de insegurança para a Europa que não víamos desde a Segunda Guerra Mundial, desde o início da Guerra Fria.

 

Essa perceção de ameaça, já existiam sinais? Não foram lidos bem, ou a ideia era de que esse era um tempo passado, de que a ameaça ficaria apenas pela ameaça, não haveria esta concretização no terreno?

As democracias por natureza são sistemas políticos que rejeitam a violência. Ao nível das lideranças e dos especialistas neste tema já havia noção de que o mundo se estava a tornar mais perigoso, de que a Rússia se estava a tornar mais agressiva. Mas apesar de tudo em 2014, que é o ano da ocupação da Crimeia pela Rússia, temos a Cimeira de Gales e o compromisso, ao nível da NATO, de aumentar a despesa em defesa até aos 2 por cento até 2025. Esta invasão torna isso uma preocupação de todos, sobretudo ao nível da opinião pública.

 

Essa pré-disponibilidade das opiniões públicas poderá de alguma forma pressionar os governos a terem esse tipo de investimento nas agendas políticas?

Em democracia as prioridades têm que ter apoio da população. Há margem para os decisores em termos da política externa, da política de defesa, mas geralmente não é a área prioritária para as pessoas, à partida elas são mais suscetíveis de serem influenciadas pelas opiniões dos líderes, mas estão menos disponíveis para assumir custos. Quando essas perguntas são feitas em todos os países, os investimentos em saúde e educação são sempre prioritários. A boa estratégia é um equilíbrio entre prioridades e meios, prioridades definidas em função dos interesses, dos valores, e meios que são sempre por definição delimitados. Não é boa ideia, do ponto de vista da análise estratégica, investir tudo em meios militares, precisamos de uma boa economia, investimento em infraestruturas, em educação em saúde, etc.

 

Quando falamos em investimento, estamos a falar em melhor investimento ou também em melhor coordenação?

A Europa já gasta à volta de 200 mil milhões de dólares, está mais ou menos ao nível da China. Gasta muito mais do que a Rússia, que gasta à volta de 60 mil milhões de dólares. E só é ultrapassada largamente pelos Estados Unidos da América [EUA], que sozinhos gastam tanto como as outras 15 maiores potências, mais de 700 mil. Estima-se que os projetos europeus, em termos de investimento em defesa andem à volta dos 25 por cento, é pouco, ainda, e isso numa despesa muito fragmentada, um investimento pouco eficiente. A União Europeia [UE] pode trabalhar aí muito bem porque é a área da economia, da indústria, tem mais experiência do que a NATO.

 

Temos assistido na Europa a essa falta de sintonia, não só na gestão de meios, mas até na própria afirmação da Europa como uma voz comum. Isso pode mudar agora, ou tenderá a durar apenas o tempo de responder a esta crise?

As alianças em tempo de guerra não são uma espécie de união por via do Espírito Santo, em que de repente todos estão de acordo. Sabemos hoje com detalhe que durante a Segunda Guerra Mundial os aliados ocidentais, o Churchill e o Roosevelt, tiveram imensas divergências. O que foi fundamental no contexto da Segunda Guerra e no contexto da Guerra Fria, foi que se percebia sempre qual era o inimigo principal e quais eram os limites dessas divergências. Essas tensões continuam a existir, por exemplo em relação à questão da energia, o que é crucial é até que ponto é que isso não se traduz em posições muito divergentes em relação, por exemplo, a como lidar com a crise da Ucrânia ou com a Rússia.

 

Voltando ao paradigma energético, podemos estar à beira de uma mudança desse paradigma na Europa? Ou seja, procurar outras formas de resolver o problema energético. E com que ritmo, tendo em conta que estes processos normalmente são longos?

Já estamos a pensar nesses termos por causa da crise climática e da necessidade de depender menos de energias fósseis, que são altamente poluentes. É difícil dizer que há um efeito positivo de uma invasão sangrenta, mas do ponto de vista da questão energética, talvez tenha um efeito positivo ao demonstrar a urgência de se mudar de mentalidade e de paradigma. Há um certo consenso, seria desejável suspender já a importação de gás natural e de petróleo russo, que é uma enorme fonte de rendimento para o estado russo. É difícil porque as alternativas, em termos de energias renováveis, não são suficientes, têm o problema de não garantirem um fornecimento constante. Para já aquilo que parece estar a avançar a ritmo mais acelerado são as alternativas de diversificar fornecedores.

 

Estará a Europa preparada ao nível de coesão para enfrentar esse outro lado da guerra, que vai ser ter os povos europeus a passarem dificuldades no dia-a-dia, a sentirem no bolso o custo da guerra?

Vai ser um teste fundamental. As sanções foram muito mais longe do que se esperava, pelo efeito do choque, por ser uma invasão em grande escala. Os líderes também se sentiram capazes, por causa da reação da opinião pública, maior do que se podia esperar. Se víssemos as sondagens, quando se falava em abstrato nessa possibilidade, aquilo que prevalecia nos países europeus e nos EUA era a vontade de algum distanciamento. Os números invertem-se com os sentimentos de revolta das pessoas perante estas imagens chocantes. Quando as pessoas são confrontadas com a ideia de pagar um preço, nas sondagens têm dito que estão disponíveis, mas na prática, sobretudo se esse preço for muito pesado, isso vai criar problemas. A União Europeia funciona a 27, tem uma tradição muito gradualista, mas é justo reconhecer que neste contexto tem respondido com alguma rapidez.

 

Já vimos o filme antes, a tal divisão norte sul, entre aqueles que acham que não têm de pagar a crise dos países mais pequenos, é um cenário que é cíclico, quase.

Essas divisões resultam de factos, temos economias que têm mais capacidade de resposta do que outras, umas mais vulneráveis ao gás natural, às ameaças russas, do que, por exemplo os países do Sul que estão menos dependentes. Há assimetrias que já têm gerado algumas tensões. A guerra económica é muito pesada, sobretudo se se prolonga.

 

Têm estado mais ou menos adormecidas, com este conflito, outras tensões latentes na Europa, o respeito aos direitos humanos, pelas democracias, pela imprensa livre. Quando é que poderão regressar esses desafios, tendo em conta que a UE tem à porta vários países a quererem participar no alargamento, que desafios vai colocar esse alargamento?

Aquilo que seria racional era que esses países, que estão na linha da frente desta crise, que fazem fronteira com a Ucrânia ou com a Rússia, percebessem como é importante fazerem parte de sistemas de aliança sólidos, não só militares, mas também económicos. Estas sanções à Rússia conseguem ter impacto por causa da importância do mercado europeu para a Rússia, muito mais importante do que a China.  Tudo o que seja minar a coesão dos 27 é péssimo para os interesses nacionais neste contexto, mas a política não é só o campo da razão, é também o campo das emoções, das políticas identitárias, da aposta nos slogans nacionalistas. Vimos a UE avançar com medidas de suspensão de financiamento à Hungria com base na infração do estado de direito, é isso que tende a acontecer. Para este modelo continuar a funcionar é fundamental que os estados respeitem as regras. Não é possível ter uma união a 27 a funcionar se o tribunal europeu não for um tribunal de última instância em tudo o que diz respeito à lei europeia.

 

A UE continua a ser muito atraente para outros países europeus que não estão integrados nesta união. Esse processo de adesão, o que é que pode trazer, e em que ritmo é que pode ocorrer nos próximos tempos, sobretudo agora com a questão da guerra?

É uma grande virtualidade, a tradição política ocidental europeia, esta valorização da crítica, do pluralismo, da autocrítica, mas há pessoas neste momento a morrer para poderem fazer parte da NATO ou da UE. O grande drama do Presidente Putin é que o modelo russo não é atraente, o modelo europeu é muito mais atraente. A UE é uma organização com enorme densidade de regras, de leis, mesmo havendo boa vontade no sentido da adesão da Ucrânia, não pode ser feito instantaneamente, implica requisitos pesados e que são essenciais para esse país poder funcionar dentro deste sistema. Há outros países que têm pedido a adesão, os Balcãs ocidentais, onde aliás a Rússia também procura criar problemas, também têm expectativas legítimas.

 

Ainda esta semana a Suécia e a Finlândia tiveram uma espécie de luz verde da Aliança Atlântica, se for necessário poderá haver um processo mais rápido para que se tornem membros, que sinal é que isto dará a Moscovo, que tem claramente visto na NATO uma tentativa de cerco em relação à Rússia?

O problema desse argumento do Kremlin é que esses países insistem tanto em fazer parte da NATO, os países do leste europeu, porque têm receio da Rússia. Quanto mais a Rússia assume uma postura agressiva, mais valida esses receios. A NATO é também uma organização com regras, mas menos complexas do que as da UE. E a Finlândia e a Suécia só não são membros formais, treinam com a NATO, adotaram a doutrina, são convidados a participar nos concelhos, há uma parceria próxima e isso torna muito fácil que cumpram as condições formais que às vezes demoram anos.

 

Há quem defenda que a NATO devia estar em estado permanente de alerta, como aconteceu nos tempos da Guerra Fria, podemos assistir agora a uma viragem na NATO que obrigue a Aliança Atlântica a estar mais alerta a eventuais conflitos?

A NATO é a organização militar mais robusta da história, não é simplesmente uma aliança militar, tem uma estrutura de comando integrado que funciona permanentemente. Temos quartéis-generais da NATO que permitem projetar 40 mil homens para a linha da frente de outros países da NATO, e eles trabalharem em conjunto, comunicarem e receberem ordens, isso não se faz de improviso. Enquanto a Rússia estiver em operações militares na imediata vizinhança da NATO, enquanto houver declarações equívocas sobre se pode ou não haver ataques ao abastecimento de armamento por países da NATO à Ucrânia, a NATO tem que estar num estado de alerta muito elevado. Deve-se investir mais em defesa, mas está muito longe de ser verdade que a Rússia é uma espécie de gigante militar.

 

É previsível que o novo conselho estratégico da NATO possa já refletir alguns dos desafios que a guerra na Ucrânia tem colocado em cima da mesa?

A Bússola Estratégica, aprovada em março, já apontava no sentido certo, foi possível rever com rapidez e aprovar no prazo previsto para ter em conta a invasão. No caso do Conselho Estratégico, é expectável que isso aconteça ainda mais. Espero que não se caia na armadilha de ser um conselho demasiado condicionado pela atualidade, haverá tendência para se valorizar a questão da defesa territorial, mas seria um erro excluir outros aspetos de conflitos irregulares, a gestão de crises em zonas periféricas, que a Rússia tem explorado no passado, no Médio Oriente, em África, e que pode voltar a explorar.

 

O que está a dizer é que não deve ser a visão de curto prazo, muito inspirada no que está a acontecer, mas pensar qual é o passo seguinte a ser tomado.

Exatamente, uma lição errada seria voltar ao modelo da Guerra Fria ou da Segunda Guerra Mundial, grandes guerras convencionais. A Rússia não vai deixar de investir na dimensão do “ciber”, no espaço, e não vai deixar de investir na criação de problemas nas zonas periféricas onde há conflitos.

 

Esta é também a primeira guerra do século XXI que tem uma forte componente tecnológica, e até mesmo com a utilização das redes sociais pelas duas partes envolvidas. Que mudanças na forma de fazer a guerra é que já podemos constatar quando olhamos para o que está a acontecer?

É um instrumento muito importante de difusão de poder. Coloca problemas de gestão, de centralização de controlo da informação pelos estados. Cria mais possibilidades a estados autoritários em estados democráticos, que são mais abertos, mais pluralistas, que tem muito mais possibilidades de promover desinformação, de criar divisões. Há algum esforço, quer da parte da UE, quer da parte da NATO para desenvolver capacidades, mas há sempre limitações, sobretudo no caso dos estados democráticos, não podemos usar censura. Podemos apostar mais nos órgãos de comunicação e na questão do fact checking, a verificação de dados.

 

Tem ficado fora da nossa conversa a questão da China, que é um ator fundamental em todo este processo, ainda esta semana os EUA deixavam uma ameaça velada à China, que caso tenho a veleidade de atacar Taiwan também será alvo de sanções.

Há 20 anos atrás a China aderiu à Organização Mundial do Comércio, transformou-se na grande base industrial da economia globalizada. Em termos militares ainda não tem a capacidade dos EUA, embora tenha reforçado os seus meios. Mas há 20 anos atrás ninguém falaria da China a respeito de uma crise de segurança na Europa. Isso dá-lhe uma capacidade de influência importante em relação à questão dos impactos disto na própria Ásia. Esse aspeto tem sido muito discutido, se vamos ter um sistema global mais propenso a crises militarizadas. A China resiste a essa comparação, diz que a Ucrânia é um país soberano, Taiwan é parte da China, são questões diferentes. Os EUA têm uma posição ambígua em relação a Taiwan, mas essa ambiguidade diplomática não significa que exista ambiguidade em termos do compromisso dos EUA para defender militarmente Taiwan.

 

Temos falado aqui de uma nova ordem Internacional que apareceu com este conflito, podemos esperar que esta nova ordem faça surgir outras instituições, ou as que temos, a NATO, a ONU, a UE, são suficientes, cabendo apenas uma certa renovação no sentido da coesão entre elas e dentro delas próprias?

Esta crise veio dar uma nova vitalidade e reforçar a utilidade da NATO. A UE também tem uma oportunidade de se reforçar. Quem sai mais enfraquecida é a ONU, provavelmente vai voltar a funcionar como fórum diplomático, mas com dificuldade em manter uma ação eficaz. Quanto mais o mundo estiver dividido em blocos ideológicos e estratégicos, antagónicos, mais difícil é haver um entendimento na ONU. Tudo funciona com base no consenso e com esta dificuldade adicional que é a possibilidade de veto por um dos membros permanentes, e temos, quer a China quer a Rússia como membros permanentes. A minha expectativa é de não surgimento de novas organizações, mas de alguma crise em organizações que já existem.

Pode ouvir na íntegra esta conversa da jornalista Judith Menezes e Sousa com o professor do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL, no 7 º Episódio do podcast «O Mundo Que Se Segue

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