A Rússia de Putin

Nesta entrevista «Isto não é assim tão simples», o especialista em política e segurança russas Mark Galeotti explica quem é hoje Vladimir Putin e como se tornou um líder mais emotivo e perigoso.

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Já que escreveu bastante sobre Putin numa das suas obras recentes (We Need to Talk About Putin), quem é ao certo Vladimir Putin e qual é a intenção dele neste momento?

A resposta a isso podia preencher toda esta rubrica. Resumindo, trata-se de um homem que é produto do colapso da União Soviética.

Ele pertence, de certa forma, à última geração que sentiu isto como uma experiência visceral e emocional. Era um miúdo pobre de Leninegrado. Não veio de uma família da elite, conseguiu entrar para o KGB e pensou que o seu futuro estava assegurado. Depois, todo o sistema ruiu.

Para ele e para pessoas como ele, a experiência do fim do império, que tal como qualquer país imperial sabe, pode ser uma experiência difícil. Contudo, o foco de tudo isto mudou de "aquilo que perdemos" para "quem nos retirou isto?". E é isto que vemos. Esses são os princípios básicos.

Mas temos ainda uma camada adicional. O Putin que hoje vemos é muito diferente do Putin que víamos há uns anos. Ele já não é aquele líder calmo e tranquilo, nacionalista, sem dúvida, mas um líder muito avesso ao risco. Algo mudou. E vou ser sincero: não sei o que foi.

 

Há quem diga que ele está doente. Talvez esteja a ficar mais velho.

Talvez sejam só os efeitos de distorção de ser ditador do seu país há 22 anos. Cada vez mais rodeado de pessoas que apenas concordam com ele, que elogiam os seus preconceitos e não ousam dizer-lhe nada quando acham que está errado. Mas agora vemos alguém mais guiado pelas emoções, um homem mais velho disposto a arriscar e com pressa.

É por isso que ele é tão perigoso, agora.

 

As pessoas dizem que Putin é um mestre de xadrez. No seu livro, tenta desmistificar isso e diz que ele é mais como um judoca. Qual é a diferença e como o descreveria na sua forma de operar?

Há um cliché habitual de os russos serem mestres de xadrez. Eles jogam xadrez e nós só jogamos damas, etc. Quem joga xadrez a esse nível, tem uma estratégia a longo prazo.

Pensa: "Sim, posso fazer isto. Faço xeque-mate ao adversário em sete jogadas." Não há qualquer indício de que Putin tenha um plano a longo prazo. Ele tem a noção de onde quer estar, mas, tal como um judoca, procura as oportunidades. Tenta criar situações dinâmicas, em que as coisas seguem em direcções diferentes e ele pode decidir, no momento certo, que opção vai tomar. O judoca começa a lutar, cerca o adversário e espera por essa oportunidade. E essa é, em grande parte, a abordagem de Putin: criar situações dinâmicas e, muitas vezes, caóticas, que lhe darão muitas opções diferentes quanto ao momento da decisão. E o problema para nós é que é muito difícil de prever. Estamos sempre à procura de um grande plano, quando esse grande plano não existe. E o problema para ele é que ele agarra as oportunidades porque no presente isso parece ser uma boa ideia.

Mas talvez para a semana, isso seja desastroso. E é o que temos visto na Ucrânia. Ele arriscou e sinceramente, na minha opinião, já perdeu esse jogo. Aquilo que poderá ter feito sentido para ele na altura não foi pensado a longo prazo, como devia ter sido. Por muitas ideias ou projectos que Vladimir Putin possa ter na cabeça, elas só são bem-sucedidas – sobretudo neste caso – se as Forças Armadas russas as concretizarem.

 

Estudou a fundo as Forças Armadas russas. O que tem acontecido no terreno? E isso é muito diferente do que seria de esperar de uma das superpotências do planeta?

É uma pergunta interessante. Sabemos que as Forças Armadas russas investiram muito dinheiro, tempo e esforços políticos na sua renovação.

Foi um dos grandes projectos de Putin. E, antes desta guerra, havia indícios de que eram bastante bem-sucedidos. Se virmos, por exemplo, a intervenção na Síria, foi um tipo muito diferente de conflito. Mesmo assim, muitos observadores externos pensaram: "A Rússia não vai conseguir o que quer. Ou talvez comecem, mas não se aguentam a longo prazo." E, na verdade, vimos uma eficientíssima – e por vezes muito violenta – mas muito eficiente operação militar.

Na Ucrânia, vimos que quase tudo foi feito ao contrário do que as Forças Armadas fariam. As Forças Armadas costumam passar muito tempo a preparar-se cuidadosamente, a planear cada contingência e possibilidade. Depois, quando atacam, há um grande bombardeamento preliminar e depois um avanço muito metódico. Pelo contrário, o que vimos foi um bombardeamento e depois umas incursões estranhas nas principais cidades, como se algumas companhias de paraquedistas entrassem no meio de Kiev, detivessem o Governo e nomeassem um novo. E creio que a resposta para tudo isto é que isto foi muito mais uma estratégia de Putin, uma ideia de Putin.

Sabemos, pelos discursos cada vez mais erráticos de Putin sobre esta questão, que ele não acredita que a Ucrânia exista. Não a considera um país. Não acha que os ucranianos são pessoas de verdade. Ele claramente pensou que toda a estrutura do Estado ucraniano ruiria com um leve empurrão, e claramente não foi esse o caso. Mas, como resultado disso, ele impôs um plano aos seus generais, e não é assim que eles costumam combater. Correu desastrosamente mal. E agora, há claramente uma tentativa para reconquistar o terreno perdido. E infelizmente, a forma como ele está a ser reconquistado é recorrendo ao uso do poder bélico maciço.

Se virmos o que tem acontecido a algumas das cidades que estão na linha de ataque, locais como Mariupol, estão a ser reduzidas a escombros.

E essa é uma estratégia horrenda, mas é a que os generais estão a usar para tentar recuperar a vantagem, depois desta estratégia inicial errada.

 

Quanto mais tempo isto se prolonga, é importante para Putin saber que ainda tem apoio interno? E quanto disso depende da capacidade dele de controlar informações e controlar os média?

O controlo da informação é crucial no regime dele, há anos. Durante muito tempo, foi quase como um autoritarismo pós-moderno. Não se baseava na repressão, nas detenções e na intimidação. Baseava-se no controlo da narrativa, em dar às pessoas a sensação de que a mudança era impossível ou perigosa. E também um sentido de que, sejam quais forem as falhas da actual situação, ela encaminhava-se na direcção certa. Isto está tudo a mudar. Antes de mais porque, a dada altura, o Kremlin perdeu o controlo da narrativa e embora agora tenham apertado o cerco aos últimos vestígios de meios de comunicação independentes – fecharam muitos canais de redes sociais – os russos são especialistas em tecnologia. Sabem o que fazem, sabem usar VPNs para aceder a estas coisas. E não tiveram anos, nem décadas, mas talvez séculos de mentiras dos seus líderes. E são muito hábeis a ler nas entrelinhas. O que acontece agora é precisamente essa preocupação de perder o controlo da narrativa, o que em breve se tornará ainda mais grave, à medida que os primeiros grupos de soldados regressem da guerra. Uma coisa é dizer aos russos que esta é uma operação militar limitada, cirurgicamente, precisamente direccionada para evitar vítimas civis. E que se trata apenas de evitar que um suposto regime neonazi ataque os russos do Donbass. A experiência que os soldados russos enfrentam é muito diferente. E quando regressarem a casa, levarão com eles o conhecimento daquilo que se passa. Quando o Kremlin perder o controlo da narrativa, infelizmente, terá de recorrer a técnicas autoritárias antiquadas. Ou seja, veremos um maior recurso às tácticas de policiamento e policiamento secreto.

 

Fiquei estupefacto quando vi as imagens do vídeo daquele comício, em Moscovo, com um estádio cheio de pessoas de todas as idades. Não era apenas a geração mais velha que poderia ser influenciada pelo controlo das informações. Eram pessoas que supostamente teriam acesso a mais informação e, mesmo assim, apoiavam-no. Eram dezenas de milhares de pessoas. Durante quanto tempo irão apoiá-lo? E quando a vida se tornar mais difícil, devido às sanções – e já o questiono quanto a isso – durante quanto tempo conseguirá ele manter isto?

Isso terá um prazo de validade distinto, mesmo analisando aquele comício, no Estádio Luzhniki. Nós sabemos, graças aos próprios relatos deles, que muitas das pessoas que lá estavam não estavam lá porque o apoiam, mas porque lhes disseram para ir. Eram funcionários públicos ou, em muitos casos, alunos de escolas e universidades, a quem disseram: "Hoje tens folga para ver um concerto." Depois, veem-se no meio de um comício de Putin. Por outro lado, sim, há quem esteja ali para apoiá-lo. Existem sempre essas pessoas. A pergunta que esse comício suscita é: "A quem se destinava?" Seria para tentar convencer a restante opinião pública russa de que Putin continua a ser popular? Assim, os críticos de Putin pensariam: "Vou manter-me calado porque estou em minoria"? Seria uma tentativa de Putin para convencer a elite russa de que só ele conseguiria ter esse apoio popular e que nenhum deles poderia substituí-lo? Ou, de certa forma, seria um espectáculo destinado a uma pessoa só? O próprio Putin. Para que este homem sentisse que ainda era popular, com um acto encenado pelos seus representantes.

Uma percepção muito mais reveladora é o facto de, pelos últimos números que vi, 18 mil russos terem já sido detidos por protestarem contra a guerra. E isto significa algo. Ser detido na Rússia é uma experiência muito desagradável. E eles sabem que vão ser detidos, mas protestam na mesma. Esta é uma situação em que o país luta pela sua própria alma.

 

Mark, conhecendo-o como conhece e sabendo como é a política, sociedade e cultura russas, como é que alguém o atinge, como é que alguém o faz sentir o impacto das suas acções? E falemos das sanções. Estou sempre a ler e a ouvir histórias do quão rico Putin é. Calculo que nada disto o afecte. E os oligarcas? As pessoas que o rodeiam? Quem é afectado aqui? Ele sente algum impacto negativo em relação às sanções?

Não creio que ele próprio sinta o impacto. Esta ideia da vasta riqueza dele foi empolada. Em tempos, antes e nos primeiros anos da presidência dele, ele era tão ambicioso como qualquer outra pessoa.

Mas, actualmente, a verdadeira vantagem económica dele é o poder. A Rússia é uma espécie de mealheiro para ele. Se ele quiser um palácio novo, não tem de gastar um único rublo. Basta-lhe anunciar isso e um grupo de oligarcas ricos percebem que é melhor contribuírem para construir esse palácio, pois a sua sobrevivência económica depende disso. Ele já não precisa de se preocupar com dinheiro. Deve ser a única forma em que ele se compara à rainha de Inglaterra, pois nunca tem de andar com dinheiro.

Mas em termos mais abrangentes, esta é uma pergunta interessante. As sanções já estão a afectar os russos ricos, que têm perdido todos os seus bens no estrangeiro, e também o cidadão russo comum, que já sente o efeito da crise e irá sentir ainda mais. O que importa realmente a Putin?

Será que se importa com as provações do cidadão russo comum? Sinceramente, duvido muito. Ele importa-se, antes de mais, com a sua sobrevivência política. Depois, com o seu lugar na História. Sabemos que ele pensa no seu grandioso legado. E em terceiro lugar, ele pensa no sucesso e no fracasso. Não quer ser visto como um fracassado.

Nestas vertentes, as sanções têm um grande impacto.

Antes de mais, em termos de sobrevivência. Aos poucos, começam a criar um ambiente em que as pessoas começam a pensar se ele é perigoso para elas. Lembrem-se, este é um sistema que recompensa as pessoas pragmáticas, eficientes e impiedosas. Pessoas que fariam qualquer coisa para serem ricas e poderosas. E quando estamos em alta, isso é bom, pois são estas pessoas que têm um incentivo para nos apoiar. Por outro lado, quando começamos a tornar-nos perigosos para elas, estas pessoas não nos serão leais.

Há muito poucas pessoas genuinamente leais a Putin. Isso tem um efeito que o faz ficar receoso.

Em segundo lugar, tem um efeito em relação ao lugar dele na História. Ele não quererá ser o czar que fica para a História não só por perder a Ucrânia, como também por deixar na miséria o próprio país.

E em terceiro lugar, em termos de sucesso ou fracasso, ele precisa de sentir que tem algum tipo de vitórias ou êxitos. Se sentir que não tem, tenta mudar o jogo. O risco é que vai tentar a escalada de violência. Mas terá de fazer algo diferente. O problema é que tudo isto é um processo a longo prazo. E no mundo moderno, estamos habituados a que tudo aconteça rapidamente. Temos entregas em 24 horas e tudo. Infelizmente, nada disto é rápido. E temos de ver como isto se desenrola nas próximas semanas ou meses.

 

Pois na era da informação imediata e da resolução imediata da maioria das nossas tarefas diárias e problemas, esperamos que um ciclo destes seja muito mais rápido, mas só passaram umas semanas desta guerra em grande escala. Antes de haver uma resolução ou, pelo menos, a redução da escalada, pode demorar algum tempo. Quero perguntar-lhe qual é o papel dos aliados dele numa potencial resolução? Claro que se fala sempre na China e no papel que pode desempenhar, não só do ponto de vista geopolítico como financeiro. Onde estão agora os aliados da Rússia? Alguém consegue captar a atenção de Putin para ele ouvir uma mensagem ou dar-lhe conselhos?

Isto é interessante. Deve ser uma constatação deprimente para a Rússia, aceitar quem são os seus verdadeiros aliados: a Síria, a Nicarágua e a Venezuela. É basicamente isso. Mesmo a China, apesar de ter havido um grande acordo devido à forte amizade entre a China e a Rússia, tornou-se muito claro que sempre foi uma aliança de conveniência. Viam os Estados Unidos como um inimigo comum e viam uma vantagem comum em enfatizar a sua amizade. Sempre que o faziam, nós no Ocidente, reparávamos nisso. Mas vale a pena dizer que a China nem reconheceu a anexação de Crimeia em 2014, o que irritou a Rússia. E neste conflito, vemos que a China está muito dividida. Sente-se que entende algumas preocupações da Rússia

sobre a expansão da NATO e, de um modo geral, da arquitectura de segurança ocidental. Mas ao mesmo tempo, antes de mais, investiu fortemente na Ucrânia. E consome uma grande quantidade de produtos agrícolas ucranianos. A Ucrânia é o maior fornecedor de milho, por exemplo, para a China. E isso não acontece agora. Há razões práticas para estarem irritados. Em segundo lugar, isto está a galvanizar o ocidente e a tornar o Ocidente muito mais unificado. É interessante. Se olharmos para estas sanções económicas, vale a pena sublinhar que são mais coesas e mais poderosas do que alguém imaginaria. Falei com pessoas em círculos governamentais, na Grã-Bretanha e em Washington, que ficaram espantadas. Pensaram que seriam obrigados a fazer todo o tipo de concessões, mas sentem que receberam mais do que esperavam, nalgumas das sanções. É um sinal preocupante para a China. A China sempre presumiu que, quando chegasse esse momento, nós no Ocidente, seríamos demasiado preguiçosos e preocupados com as nossas conveniências, que não estaríamos dispostos a travar uma guerra económica, que é basicamente o que isto é.

Quando fosse às nossas custas, quando nos custasse algo. Da perspectiva da China, de um modo global, este é um problema. Mas por outro lado, sim, eles têm uma oportunidade. E voltamos à sua questão. Há alguns indícios de que os chineses talvez queiram intervir como mediadores de um acordo de paz. Primeiro, porque eles mais do que ninguém, querem poder dizer à Rússia: "Talvez tenham de fazer cedências para acabar com isto." Em segundo lugar, é uma forma subtil de Vladimir Putin parar, pois ele pode dizer: "Este não foi apenas o acordo de paz do ocidente "que nos foi imposto. Foi algo preparado pelos nossos amigos e aliados, os chineses."

Parece ser menos indigno. É possível, mas neste momento, estamos à espera para ver. Os chineses, acima de tudo, esperam que tudo isto acabe.

 

Isso está relacionado com a minha próxima pergunta. Como é que tudo isto pode ser resolvido e qual é o objectivo final de Putin? Como é que ele pode negociar a partir de uma posição de fraqueza, em que ele nunca imaginaria estar, mas que ele anuncia como sendo vitoriosa internamente, à Rússia e aos russos, o que é crucial para ele. Qual é o objectivo final? Se surgirem duas ou três soluções, qual poderá ser o desfecho aqui?

O objectivo mudou claramente. O plano inicial dele, a expectativa inicial dele era que Kiev caísse em dois dias e toda esta operação militar terminaria em duas semanas. Depois, seria instaurado um novo governo fantoche em Kiev. Grande parte das forças russas poderiam ser retiradas e ele teria reconsolidado o seu conceito da Ucrânia, como parte da esfera de influência russa. Claramente, nada disso acontecerá. O melhor que ele pode esperar é controlar certas zonas da Ucrânia, enquanto trava uma cruel luta de guerrilha contra os ucranianos, ou algum tipo de acordo de paz que lhe permita dar a sensação de vitória. Este é o melhor cenário, que não é o ideal, mas é o mais provável. Ele deverá fazer um acordo com os ucranianos, em que os ucranianos renunciam à adesão à NATO em troca de certas garantias de segurança dos países ocidentais. Eles dão à Rússia a Crimeia e as zonas do Donbass que foram disputadas na guerra anterior, as chamadas repúblicas populares. São zonas que a Ucrânia já perdeu, francamente. E em troca, os russos recuam. E Putin colocará assim a questão: "Sempre dissemos que isto não era uma invasão. Queríamos desnazificar o país." Foi a expressão dele. É uma afirmação ridícula.

A Ucrânia não é um país nazi. Mas podem dizer "Desmilitarizámos este país "rebentámos com muitas bases, "obrigámos os ucranianos a desistir de aderir à NATO, "que era a nossa maior preocupação. "E agora, vamos recuar um pouco "e concentrarmo-nos em proteger a etnia russa e os russófonos do Sudeste contra a opressão ucraniana." A nível internacional, todos saberão que é uma derrota. Mas internamente pode dizer que foi uma missão bem-sucedida e cria a sensação de que alcançou algum tipo de vitória.

Embora pareça errado dar algo a Putin, depois de ele ter lançado esta invasão terrível, gratuita e cruel, se ele achar que a única opção é entre uma escalada militar e a rendição total, provavelmente vai aumentar a escalada. E temos de perceber que os ucranianos pagarão esse preço. A questão é que, se pensarmos nas sanções, algumas delas serão levantadas nessas circunstâncias, mas outras mantêm-se. E este é um ponto-chave. Não haverá lugar ao perdão e esquecimento. Nunca mais voltaremos – enquanto Putin estiver no Kremlin – à mesma situação que tínhamos há um mês. Sinto que vamos voltar à década de 70. A era da Guerra Fria, em que havia uma clara sensação de divisão entre a Rússia e o ocidente. E para mim, alguém que visita frequentemente a Rússia, que tem grandes amigos lá e que é fascinado pelo país, isto é uma tragédia para os russos, tanto como para nós. Mas este é o melhor cenário que podemos esperar. O pior será a continuação desta guerra no restante território da Ucrânia.

 

Falou em escalada, e esta é a minha última pergunta. É possível que haja

uma guerra nuclear?

Receio sempre... E esta pausa é indicativa disso mesmo. É preocupante.

Tenho sempre receio em dizer que é totalmente impossível agora, pois temos aqui um Putin diferente, muito menos previsível e, tal como eu disse, disposto a correr riscos que não corria no passado. Penso que é bastante improvável, mas não porque... Em última instância, as pessoas que o rodeiam pensam no seu próprio futuro. Se ele pensasse em recorrer a armas nucleares, em vez de insinuar isso de vez em quando, como faz agora, esperando que isso nos assuste para afastarmos, há uma hipótese de que as pessoas do círculo dele discordem dele ou não obedeçam às ordens e isso seria muito perigoso para Putin. Em suma, tenho quase a certeza

de que isso não acontecerá. E se acontecer, estamos a falar de um ataque táctico nuclear no território da Ucrânia, para dissuadir os ucranianos da resistência. Não creio que isto evolua para algo maior, que nos conduza à Terceira Guerra Mundial. Contudo, este ainda é um dos pesadelos que pensávamos estar posto de lado e que agora temos de revisitar.

 

Para terminar quatro perguntas de resposta rápida.

Diga-me um traço de personalidade de que um líder mundial poderia beneficiar, se o tivesse.

A autoconsciência. Isso está relacionado com o que estivemos a falar.

 

Qual é o maior desafio para a Humanidade, hoje?

Seria reverter as alterações climáticas. Mas tem que ver com a nossa incapacidade de nos prepararmos para as crises do futuro, enquanto pensamos no que fazemos no presente.

 

Se pudesse mudar uma coisa no mundo, na política internacional, na sua área, o que mudaria?

Neste momento, devo confessar que seria Vladimir Putin desaparecer misteriosamente do Kremlin.

 

E por fim, qual foi o ensinamento mais importante na sua vida e carreira? Que levará consigo quando se reformar.

Sempre que falho redondamente. São os momentos mais embaraçantes, mas é com eles que aprendemos.

 

 

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