Afinal o Populismo já tem barbas em Portugal – não perca este contundente ensaio

A análise de Mário Beja Santos ao novo livro da Fundação «Populismo - Lá fora e cá dentro», de José Pedro Zúquete.

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O trabalho do investigador José Pedro Zúquete intitulado Populismo – Lá fora e cá dentro, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2022, não só veio para fazer polémica pela leitura que faz recusando a “excecionalidade portuguesa” do Populismo, pois mostra cabalmente como se tem vindo a manifestar no passado distante e recente na nossa terra e como possui ingredientes suficientes para prosperar no futuro; mas igualmente introduz um quadro de referência sobre a ideologia populista, por aqui começa o seu ensaio, não esquece o Peronismo nem o Varguismo, são ilustres precedentes de Hugo Chávez, Eva Morales e Rafael Correa, deixa bem claro que estes partidos populistas da nova vaga constituem uma família alargada, heterogénea e por vezes disfuncional, há partidos de protesto, regionalistas, outros vindos de subculturas extremistas, aqueloutros herdeiros de uma tradição pós-comunista, mas podemos rotulá-los de nacionais populistas.

O Populismo é uma estratégia, usa com maior ou menor eficiência as redes sociais e a televisão, os seus mantras passam por um discurso que opõe o povo às elites, procura exacerbar os excluídos, os descontentes, os ressentidos contra o bloco do poder, usa uma retórica em que o seu orador, ou oradores, pretende apresentar-se como a voz do povo, a autêntica, que denúncia as corrupções, os políticos profissionais.  O discurso populista pode ser proferido por multimilionários como o norte-americano Donald Trump ou o tailandês Thaksin Shinawatra, mesmo que o móbil do seu discurso se diferencie, o norte-americano Buchanan fazia a defesa da classe trabalhadora, Trump preferia atacar a globalização, os emigrantes mexicanos; aos populistas que jogam na dissimulação, caso de Viktor Orbán que se diz fiel ao projeto de ocidentalização do país, diz apoiar a integração europeia e a aliança transatlântica enquanto privilegia apresentar uma outra imagem de defensor do povo húngaro e da família tradicional, guerrilhando com Bruxelas e outras forças supranacionais “malignas”.

O autor dá-nos um convincente quadro de utilização dos media, da procura de causas menos impulsionadas por outras forças políticas concorrentes, são adeptos das lideranças carismáticas, permanentemente contestatários do sistema democrático, pois acreditam no povo soberano, é nele que assenta a democracia real, é uma contradição de base mas quem é ressentido e não gosta da democracia parlamentar ou do conceito de democracia liberal, o importante na narrativa populista é estar sempre a bater no desprezo elitista. Daí o cuidado com que o autor equaciona populismo e antipopulismo, como observa: «Há que entender o combate entre populismo e antipopulismo é moral antes de ser político ou ideológico: ambos veem e impugnam o outro sob o prisma e uma ética de combate, afirmando em primeiro lugar a superioridade do seu posicionamento; ambos sobem ao púlpito e pregam; ambos dividem maniqueistamente o campo sociopolítico Bem e Mal, retirando aos maus a legitimidade democrática, considerando-os inimigos ou da democracia ou do povo. Não admira, portanto, que, num contexto em que os adversários atuam como agentes morais absolutamente certos da probidade da luta, grasse a violência verbal nas barricadas da sobrevivência do regime democrático».

E temos as manifestações face ao poder, o populista pode sentir-se na contingência de entrar numa coligação de Governo, mas a sua luta determinante é de apear os líderes do mercado, sempre sobre o labéu de que já não professam os interesses do povo, são corruptos e não acreditam na identidade nacional.

A segunda parte do ensaio tem os ingredientes explosivos sobre o Populismo português, o autor vai ao passado remoto, não se esquece de Fernão Lopes, nem do rei D. Miguel, nem de Sidónio Pais, e entramos na contemporaneidade com o movimento de Humberto Delgado, Spínola, Otelo Saraiva de Carvalho, Sá Carneiro, o Partido Renovador Democrático que tinha Ramalho Eanes na sombra, o Partido da Solidariedade Nacional, a campanha presidencial de Basílio Horta, “um homem às direitas”, Manuel Monteiro, um liberal conservador que queria ser populista, Paulo Portas, o Bloco de Esquerda, Fernando Nobre, Marinho e Pinto, Alberto João Jardim, autarcas como Avelino Ferreira Torres, Isaltino Morais, Fátima Felgueiras e Valentim Loureiro… Isto para dizer que o Populismo sempre passou por aqui e que agora tem um rosto novo no rosto carismático de André Ventura, que se apresenta como moralizador do sistema político, faz-se fotografar a rezar, ostenta a sua fé no culto mariano, diz-se o continuador de Sá Carneiro, vê no Chega uma sociedade unipessoal em vez de um partido político. Alguns dos atingidos pela leitura de José Pedro Zúquete são capazes de se contorcer, mas à cautela, pois manda a prudência, não os veremos rugir.

Goste-se ou não, o Populismo veio para durar entre nós, a capacidade demagógica de prometer a democracia direta e de fazer cumprir a vontade popular é um aliciante que até mobiliza os últimos nostálgicos do Estado Novo, os que ainda mantêm crença de que somos uma nação civilizadora decorrente do nosso projeto imperial, que isto do multiculturalismo e do imigracionismo são tretas de gente que não gosta de Portugal. Em torno desta ideia acéfala da soberania nacional, estão criados os ingredientes para gritar que estão a roubar ao povo a escolha do tipo de comunidade que queremos ser no futuro, não podemos esquecer que «os zangados não serão apenas os antipartidos ou antipolíticos ou os que não apanharam o comboio da mobilidade social, mas também os que perderam as coordenadas etnoculturais e que se sentem – interessando sobretudo essa perceção – discriminados no novo Portugal».

Pela sua originalidade, contundência e rigor, ensaio de leitura obrigatória.

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