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A segunda adolescência

Reflexão do ex-blogger Ivan Nunes, a propósito do livro «A Blogosfera Portuguesa: Da Coluna Infame ao ocaso de uma era», de Sérgio Barreto Costa.

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1. Hesitei bastante sobre o que devia escrever aqui: se uma evocação memorialística da minha experiência nos blogs na primeira década do século XXI (ou mesmo só na primeira metade dessa primeira década), se uma peça mais analítica, objetiva, sobre a história da blogosfera portuguesa. Ou se calhar não hesitei nada, e este teatro de hesitação é apenas uma manifestação de má consciência, uma tentativa de me justificar pelo exercício um pouco solipsista de falar sobre os blogs a partir de mim mesmo. De qualquer forma, o retrato que o livro do Sérgio Barreto Costa faz da era dos blogs – desse tempo e dessa comunidade – é muito mais completo e informado do que o que eu seria capaz de fazer, e tentar emular isso em versão reduzida seria redundante e pífio. O livro do Sérgio tem a generosidade de se deter sobre as coisas de que ele gosta, não sobre aquelas de que não gosta, e ele tem um assinalável talento para caracterizar em poucas linhas o que faz a singularidade de um particular blogger, como o maradona (com minúscula) ou o Rogério Casanova. Aprendi com o livro, e recomendo-o.

2. Para mim os blogs foram uma paixão súbita, que ao fim de poucos dias – literalmente: poucos dias – se tinha tornado tão central na minha vida a ponto de ser difícil imaginar como eram as coisas antes; e igualmente difícil imaginar como seria depois. No entanto, o dia em que os blogs deixaram de existir (para mim) chegou sem que isso constituísse um choque ou tivesse sequer uma data precisa: depois de irromperem e de preencherem muito espaço, os blogs saíram da minha vida de mansinho.
Se falo de uma experiência da ordem da paixão, é que ela comportou a idealização inerente, na descoberta deslumbrada dos outros e na descoberta deslumbrada do reflexo que os outros davam de mim. No Verão de 2003, tive a surpresa de saber da existência de vários coetâneos meus muito talentosos, pessoas de quem nunca tinha ouvido falar e que escreviam sobre coisas que me interessavam, de uma maneira que me era afim. Ao mesmo tempo, os blogs foram a promessa de qualquer coisa que não se cumpriu, e digo isso tanto no plano pessoal quanto no plano coletivo. Não achando solução de continuidade entre o momento da idealização e o quotidiano posterior, a porta acabou por se fechar sozinha. Com as paixões nem sempre temos uma consciência clara de por que é que o encantamento se quebrou; e, quando não somos capazes de matar a charada, o mais frequente é pôr-se a pedra da vida prática sobre o assunto. Foi o caso.
É possível que escrever assim sobre os blogs, com categorias de tipo sentimental, não faça muito sentido para quem não esteve lá; é possível que a analogia mistifique, em vez de esclarecer. Mas quem esteve dentro da paixão talvez não seja a melhor pessoa para a explicar aos de fora, e de resto talvez não haja realmente nada a explicar, visto que a experiência só é única quando vivida na primeira pessoa; compreendida é trivial, a repetição infinita de uma história de que só mudam os atores.

Com o blog, vi-me em público a falar num registo que eu não sabia qual era. Tinha sido visto sem ter a certeza de trazer as roupas adequadas, mas sabendo que eu é que tinha decidido sair assim à varanda.

Ivan Nunes

3. A sombra que paira sobre esta maneira de falar sobre os blogs é a do ridículo; por outro lado, trata-se de um risco apropriado ao tema, porque essa já era a sombra que pairava sobre a minha escrita nos blogs naquele tempo. Um autor que teve uma popularidade extemporânea, intensa e súbita entre os bloggers portugueses da época foi o dramaturgo e jornalista brasileiro Nelson Rodrigues, autor de muitas frases memoráveis. Uma que eu citava muitas vezes, como um mantra, era a seguinte:
“Só os imbecis têm medo do ridículo. Considero um soturno pobre-diabo o sujeito que não consegue ser ridículo de vez em quando.”
No meu caso, o ridículo começou no primeiro post de A Praia, cujo tom é de uma ingenuidade embaraçosa, mas que já na altura o era, porque não havia maneira de fugir ao embaraço sem fugir também à experimentação. Lembro-me da total hesitação do dia em que comecei, de não saber se estava a escrever notas para mim mesmo ou para ser lido; lembro-me também de descobrir, passadas poucas horas, que o que eu tinha posto na internet era efetivamente público e até fácil de encontrar, porque várias pessoas já o tinham lido. Lembro-me do desconforto e da estranheza, mas lembro-me também de uma vertigem de narcisismo. Já tinha escrito muitas vezes para os jornais, mas essa experiência não me preparara para isto. Com o blog, vi-me em público a falar num registo que eu não sabia qual era. Tinha sido visto sem ter a certeza de trazer as roupas adequadas, mas sabendo que eu é que tinha decidido sair assim à varanda.
Os blogs não se pareciam com os jornais, porque nos jornais há assuntos definidos, limite de caracteres, separação por secções, e uma hierarquia básica entre o importante e o desimportante, o que é público e o que é íntimo. Quando escrevemos nos jornais, precisamos além disso de saber quem somos para falar sobre um tema, isto é: qual é o nosso estatuto. Nos blogs – ou, mais exatamente, no meu blog e naqueles que eu lia – não havia nada disso: nem organização temática, nem hierarquia na página, nem periodicidade fixa, nem tamanho pré-definido. A única coerência ali era a da voz de quem escrevia. Aqueles que nos liam muitas vezes reagiam por email, estabelecendo uma relação direta entre autor e leitor que creio que nos jornais continua a ser rara, ou pelo menos muito mais mediada. Esta correspondência restabelecia uma hierarquia básica entre quem escreve e quem lê, confirmando o nosso estatuto de autores, coisa que dava azo a muita satisfação, muita vaidade e a não menos ansiedade. Para muitos de nós, a métrica mais significativa talvez não fosse quantas pessoas nos liam (um número objetivamente modesto, no fim das contas), mas quantas pessoas escreviam – por email ou nos outros blogs – sobre o facto de nos lerem. Era uma métrica parcialmente secreta, uma vez que só cada um sabia que correio recebia, mas que quase toda a gente arranjava forma de publicitar, com maiores ou menores subterfúgios.
Uma vez que a blogosfera era, como a internet, infinita, a única maneira de restituir ordem a esse caos passava pela fantasia de que apenas certos blogs eram os verdadeiros blogs, os importantes, aqueles que mereciam ser lidos, protagonistas de uma conversa de que cada um de nós ansiava por fazer parte. E, se é certo que o meio era pequeno, socialmente homogéneo – lembro-me de descobrir pelo blog que o Pedro Mexia vivia a 200 metros de mim – tratava-se ainda assim de um alargamento e de uma novidade em relação ao que eu na época conhecia pela imprensa escrita. O aparecimento dos blogs marcou o momento em que os jornais portugueses deixaram de ser o meu horizonte natural de referência, isto é, não apenas o centro do espaço público, mas o lugar exclusivo onde o debate público ocorria. Nos blogs, os hyperlinks permitiam que os textos conversassem uns com os outros, criando um diálogo imediato e um sentido de comunidade que, duas décadas mais tarde, os jornais ainda não são capazes de reproduzir. Os blogs eram além disso mais cosmopolitas do que a imprensa escrita, porque remetiam com toda a facilidade para textos em outras línguas. O mesmo se pode dizer hoje do twitter, uma fonte infinitamente mais útil de informação sobre o que se passa no mundo do que os jornais portugueses. Mas foi ali que começou: o aparecimento dos blogs envelheceu instantaneamente a imprensa.

Os blogs eram uma devoção, prosseguida por sentido de descoberta e de aprendizagem, mas também de validação social, por pessoas que não tinham (ou ainda não tinham) conseguido afirmar-se socialmente.

Ivan Nunes

4. A época dos blogs foi também a ocasião de uma espécie de adolescência tardia, para mim e para outros como eu. (Eu tinha 30 anos). Como escreveu na altura o Pedro Lomba parafraseando o título de um álbum do Lou Reed, os blogs eram uma forma de crescer em público. Como adolescentes, testávamos os limites daquilo de que se podia e não se podia falar em público; procurávamos expressar a nossa singularidade e mesmo a nossa extravagância, mas procurávamos também outros que se parecessem connosco, e encontrámo-los ali. A minha namorada da época referia-se, não sem certo sarcasmo, aos “teus novos amigos”. Éramos relativamente rebeldes em relação aos valores da sociedade mais ampla, uma vez que ali as preocupações do mundo adulto – ganhar dinheiro, ter uma carreira – eram postas em suspenso, mas tínhamos uma sensibilidade muito alerta ao que pensavam os membros da nossa tribo. Do ponto de vista das métricas convencionais de utilidade, os blogs eram uma perda de tempo, um luxo absoluto, um devaneio hedonístico. Eram uma devoção, prosseguida por sentido de descoberta e de aprendizagem, mas também de validação social, por pessoas que não tinham (ou ainda não tinham) conseguido afirmar-se socialmente. Daí terem uma marca geracional tão forte.
Os blogs alimentavam a utopia de se poder ser aquilo que se é, e de o poder dizer de maneira menos púdica; mas eram tanto uma forma de crescer em público quanto de não crescer, usando a comunidade particular da blogosfera como escudo contra o mundo adulto. De resto, creio que existia a consciência mais ou menos difusa de que, quando nos púnhamos transparentemente na escrita, de certa maneira evitávamos a intimidade nas relações pessoais. A vida imaginária dos blogs protegia-nos das dificuldades da vida real e das relações com os outros. Lembro-me de alguém ter escrito (não me lembro quem) que as nossas namoradas não ligavam aos nossos blogs, e isso era certamente verdade no caso da minha, que dava um pouco de ombros para aquela minha ego trip. Pelo contrário, o meu encontro ali foi com o meu avô, que aos 80 anos ficava acordado até altas horas da madrugada – quatro, cinco, seis da manhã – a ler blogs e a escrever o seu. Retomámos assim uma afinidade que se parecia apenas com a que tínhamos tido quando eu tinha nove ou dez anos e fazíamos um jornal que vendíamos à família; recuperámos esse prazer artesanal em comum, um regresso à minha infância que era uma memória igualmente grata aos dois.

Na fruição imediata do sensível não se escrevem textos. Ao mesmo tempo, só através das palavras é que a experiência pode ser partilhada.

Ivan Nunes

5. No meu caso, a ideia de praia era metáfora – ou utopia – de área aberta e completamente lúdica, um lugar onde se está mais ou menos despido, onde as coisas do corpo e dos sentidos se impõem às da cabeça e das regras, onde a fruição imediata do sensível ocupa quase todo o espaço, porque uma praia não é uma piscina e além disso na praia o horizonte prolonga-se para o infinito. Que a minha namorada dessa época vivesse no Rio de Janeiro, e que por isso eu fizesse o trânsito entre os dois lados do Atlântico com certa frequência, foi uma coincidência feliz, como se esses olhos postos no horizonte do mar tivessem uma correspondência literal nas minhas idas e vindas; como se os meus pés não estivessem assentes em terra firme, mas sempre nus e sob a areia. (De resto, o Rio de Janeiro visto pelos olhos de um turista presta-se muito a semelhantes fantasias.) Que o autor-fetiche na minha fatia da blogosfera portuguesa naquela época fosse – de maneira perfeitamente intempestiva, mais de vinte anos após a sua morte – Nelson Rodrigues, foi um segundo acaso feliz.
Em última análise, a utopia da fruição imediata do sensível é a utopia da abolição da palavra em favor da experiência direta das coisas, sem a hesitação sobre onde colocar a vírgula, onde cortar o parágrafo, sem lutar contra a ambiguidade nem se preocupar com a redundância e o cliché. Na fruição imediata do sensível não se escrevem textos. Ao mesmo tempo, só através das palavras é que a experiência pode ser partilhada, e no fim das contas a praia para mim era muito mais o blog do que o lugar físico: mesmo quando estava na praia, a minha cabeça estava muitas vezes ocupada a traduzir aquelas impressões em frases que havia de pôr no blog. Houve um momento em que A Praia era a coisa mais importante da vida, ou mesmo mais importante do que a vida.

6. Uma boa parte das pessoas da minha geração que escreviam nos blogs acabou por ser integrada na imprensa – e não só na imprensa mas no Expresso, que é desde sempre o seu segmento mais enfatuado, sentencioso e ridículo, e mais incrustado nas relações de poder duradouras da sociedade portuguesa. Os meus coetâneos integraram-se na velha imprensa sem que isso se traduzisse em qualquer renovação substantiva: a geração dos blogs acabou a preencher espaços, a cumprir tarefas, como se a velha máquina continuasse a triturar independentemente das pessoas concretas que lhe fornecem alimento. A natureza da nossa época não é propícia a explosões criativas, e se os blogs portugueses da minha geração foram manifestamente herdeiros da novidade do jornalismo do final dos anos 1980 – o período em que começámos a ler e a gostar de jornais – parece-me, até ver, que os blogs do começo do século não deixaram herança nenhuma. Comparado com o jornal de há trinta anos, o Expresso de hoje parece uma variação light, diluída, do mesmo velho formato, na atmosfera de decadência e ocaso que marca quase toda a imprensa. Os bloggers ajustaram-se, sem os mudarem, aos formatos que existiam, e isto aplica-se tanto àqueles que o fizeram de maneira medíocre como aos que o fazem com extraordinário talento, de que o Ricardo Araújo Pereira é o caso mais notório. Para encontrar alguma coisa que se pareça a novidade daquela época dos blogs – a mesma liberdade temática, o mesmo espírito de comunidade e de troca, o mesmo amadorismo – creio que será preciso procurar no Twitter; não todo o Twitter, claro, mas certos nichos.
Mas tudo isto são grandes generalizações e certamente injustiças; se quiserem uma avaliação mais equilibrada e completa, procurem pelo livro do Sérgio Barreto Costa.

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