Políticas de educação
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Recuperar os alunos do ensino a distância

«Impõe-se um ambicioso plano de recuperação dos alunos. A longo prazo, a eficácia e a amplitude desse plano determinarão a extensão do dano na vida de milhares de crianças e jovens.»

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Artigo de opinião de Alexandre Homem Cristo, especialista em políticas de educação e coordenador do livro «Escolas para o Século XXI», publicado pela Fundação.

O ensino a distância é um fraco substituto do ensino presencial, por duas razões principais. Primeiro, porque fragiliza a aprendizagem dos alunos com dificuldades ou risco de insucesso, que ficam ainda mais para trás e aumentam o gap face aos seus colegas — pois são esses alunos que têm menor resiliência e que mais precisam do apoio de um professor e do contexto escolar para progredir. Segundo, porque os efeitos negativos se manifestam mais entre os alunos em início do seu percurso escolar, pelo menos até ao 6º ano de escolaridade, por serem os menos autónomos e os que têm os seus conhecimentos menos consolidados.

Estes dois pontos resumem o fundamental do que a investigação existente e anterior à actual pandemia nos alertava sobre os efeitos possíveis do encerramento prolongado de escolas. Ora, em 2020, o que se verificou na prática foi ainda pior. É que, no contexto inicial da pandemia, aquilo a que se apelidou de ensino a distância foi, na verdade, uma solução de improviso, rudimentar e pouco eficaz. E, em demasiadas circunstâncias, significou a ruptura da ligação de milhares de crianças à escola, à aprendizagem e à socialização com os seus pares. Tanto quanto é possível estimar, partindo de avaliações internacionais, os danos de aprendizagem foram significativos, cavando um fosso social. E, nos casos extremos de crianças mais jovens e em contextos sociais desfavorecidos, a perda poderá atingir o equivalente a um ano escolar. Relembre-se: a opção portuguesa de manter o ensino básico em ensino a distância, desde Março até ao final do ano lectivo 2019/2020, agravou esse impacto negativo. A reabertura das escolas, ao dar prioridade aos alunos do ensino secundário, alargou o dano nas populações mais prejudicadas pelo ensino a distância (alunos do ensino básico), que só voltaram à escola em Setembro.

Obviamente, a actual experiência de ensino a distância, ainda em curso, teve tudo para ser mais bem-sucedida do que a anterior. Houve planeamento e preparação das escolas. Houve o saber de experiência feito, após o desgaste de adaptação durante o primeiro confinamento. Houve tempo para suprir as falhas de equipamento. Houve excepções previstas para receber os alunos mais frágeis e em risco em escolas de acolhimento, presencialmente. Houve um esforço suplementar das famílias para reforçar os meios de aprendizagem em casa. Por esses motivos, não há qualquer dúvida sobre o ensino a distância de 2021 ser melhor e mais eficaz do que o de 2020. Contudo, seria irreflectido traçar-se um balanço positivo de uma experiência educativa que continua a ser demasiado insuficiente.

Essa insuficiência tem duas raízes. Por um lado, a própria natureza do ensino a distância, cujas limitações poderiam ser contornadas em contextos pequenos mas, quando implementadas em grande escala, se tornam insuperáveis. Por outro lado, a preparação ficou aquém das necessidades e prejudicou a actual implementação do ensino a distância. Essas falhas de preparação tiveram dois pontos críticos.

O primeiro momento crítico de impreparação esteve nos atrasos na aquisição de computadores. O Estado executou apenas 60% da verba que tinha disponível para 2020 e, apesar de encomendas já realizadas com entregas previstas a partir de final de Março, só 100 mil computadores chegaram às escolas até ao momento, distribuídos sobretudo a alunos do ensino secundário com Acção Social Escolar. Ou seja, o ensino a distância está-se a fazer, hoje, sem muitos dos equipamentos necessários nas mãos dos alunos do ensino básico.

O segundo momento crítico foi a opção minimalista para receber os alunos em risco nas escolas de acolhimento. Os últimos dados apontam para cerca de 17 mil alunos nessas condições. Num sistema educativo com mais de um milhão de alunos, é uma gota no oceano. E mesmo entre a população mais desfavorecida, trata-se de um número muito baixo: só 5,7% dos alunos com necessidades educativas especiais está a ir presencialmente à escola; só o equivalente a 1,6% dos alunos da Acção Social Escolar foi referenciado como de risco e está a ir presencialmente à escola. Estes números colidem com as práticas de outros países, como o Reino Unido, onde uma percentagem significativa dos alunos continuou, apesar do lockdown, a ter aulas presenciais — 22% dos alunos do ensino básico e 15% do total de alunos das escolas públicas em Inglaterra.

Assim, conhecendo as insuficiências do ensino a distância e sendo prioritário retomar o ensino presencial logo que possível, o impacto deste novo período com escolas fechadas — na aprendizagem, no desenvolvimento das crianças, na sua saúde mental — impõe a apresentação de um ambicioso plano de recuperação dos alunos. A longo prazo, não há tarefa maior: a eficácia e a amplitude desse plano determinarão a extensão do dano na vida de milhares de crianças e jovens.

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