Bandeira dos Estados Unidos
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O tempo da hegemonia dos Estados Unidos passou

Excerto do livro «O Mundo de amanhã: Geopolítica Contemporânea», de Carlos Gaspar, especialista em geopolítica.

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O tempo da hegemonia dos Estados Unidos passou e o novo sistema multipolar, em que a principal potência internacional tem de contar com a China, a Rússia ou a Índia, é mais instável do que a unipolaridade ou a divisão bipolar: na Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética, a competição entre duas grandes potências nucleares com projectos opostos de dominação universal não impediu a balança do poder entre os dois “irmãos inimigos” que souberam evitar um conflito militar directo.

A instabilidade multipolar aumenta quando o sistema internacional é dominado por três grandes potências, como no caso dos Estados Unidos, da China e da Rússia. Com efeito, a configuração tripolar é uma forma de transição ou para um sistema bipolar, ou para um sistema com mais de três grandes potências. Pior, nas variantes da tripolaridade, um sistema em que uma potência conservadora — os Estados Unidos — se confronta com duas potências revisionistas — a China e a Rússia — é particularmente perigoso, como ficou demonstrado com a II Guerra Mundial, cujo resultado teria sido catastrófico se a aliança entre o III Reich e a União Soviética se tivesse consolidado para derrotar os Estados Unidos.

A conflitualidade internacional tem sido moderada pela assimetria entre os Estados Unidos e a China e a Rússia: a potência conservadora tem a força necessária para conter a escalada ofensiva das potências revisionistas, mas essa capacidade tende a diminuir com o retraimento norte‑americano perante a ascensão chinesa e o intervencionismo russo.

Nesse quadro, a delimitação entre as “esferas de influência” dos Estados Unidos, da China e da Rússia é um processo conflitual que não exclui a possibilidade do regresso das guerras entre potências regionais — no Golfo Pérsico, onde o Irão pode contar com a Rússia e a China na sua ofensiva contra Israel e a Arábia Saudita, aliados dos Estados Unidos; ou na Ásia do Sul, onde se confrontam duas potências nucleares, a Índia e o Paquistão. Essas guerras podem envolver directa ou indirectamente forças militares das três principais potências, sem tal significar um risco de ascensão aos extremos na luta pelo poder entre os Estados Unidos, a China e a Rússia. Nesse contexto, o resultado do processo de definição do perímetro dos espaços dominados pelos contendores é um impasse estratégico.

Em segundo lugar, a diferenciação dos valores e dos regimes políticos é central na competição entre os Estados Unidos, a Rússia e a China: a dupla polaridade estratégica e ideológica compromete a homogeneidade e a unidade do sistema internacional, e abre caminho para a formação de três ordens regionais separadas. Nesse quadro, é importante sublinhar tanto a divisão entre a democracia pluralista norte‑americana e as duas autocracias continentais, como a distinção entre a “democracia soberana” russa e o regime comunista chinês. Não há uma incompatibilidade radical entre a ordem liberal dos Estados Unidos e o concerto das grandes potências proposto pela Rússia; porém, o modelo hierárquico de dominação imperial da China exclui quer a ordem liberal das democracias ocidentais, quer a sociedade plural das grandes potências e, nesse sentido, a distância ideológica entre Washington e Moscovo é menor do que a distância que separa ambos de Pequim.

Em último lugar, como previu Pierre Hassner, o “momento americano” não foi sucedido “nem pelo concerto multipolar das potências, nem pelo reino das instituições multilaterais”. Nesse quadro, ficam em aberto três possibilidades: uma deriva caótica, onde é impossível estabilizar um quadro de equilíbrio internacional; a estruturação de três modelos de  ordenamento diferenciados, que definem as esferas de influência dos Estados Unidos, da China e da Rússia; ou a procura de um regime misto em que a ordem liberal se conjuga com a institucionalização do concerto entre as principais potências, necessária quer para limitar os riscos de escalada na competição internacional, quer para responder colectivamente aos problemas de segurança comuns.

Para Portugal, para a Europa e para os Estados Unidos é crucial restaurar os valores da unidade cívica, a coesão nacional e a confiança no futuro para garantir a integridade da comunidade transatlântica e a convergência das democracias à escala global na luta contra a ofensiva internacional das potências autocráticas e revisionistas. O mundo de amanhã depende do resultado desse combate. Raymond Aron ensinou que “a história é livre | e | imprevisível, como os homens”: enquanto as pessoas não perderem a esperança na liberdade, a aventura humana não pode chegar ao fim.

Carlos Gaspar é especialista em geopolítica e autor do livro O Mundo de Amanhã: Geopolítica Contemporânea, publicado na colecção de Ensaios da Fundação.

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