Maternidade
Maternidade

Uma lição em começos

Artigo de Susana Moreira Marques, autora do livro «Quanto tempo tem um dia - Experiências de maternidade», publicado na colecção de Retratos da Fundação.

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Todos os livros têm um princípio. Não falo da primeira linha que o leitor lê. Falo do momento em que o escritor soube que era aquele o livro que escrevia. Que o texto adquire uma autoridade própria. É aí que começa a luta para que o texto se pareça consigo mesmo (porque, como um filho, não sabemos onde foi buscar as suas características).

O livro que eu ia escrever sobre ser mãe, e que seria feito de textos curtos, precisos, fragmentados, começou quando o texto apareceu seguido, com frases longas, digressivas.
Comecei - confesso - pelo primeiro capítulo, e esse capítulo não era nada do que eu tinha planeado. Ainda me pergunto porque era tão importante descrever o que descrevo no primeiro capítulo: o percurso casa-escola, o meu bairro, os cruzamentos com outros nesses percursos, como o bairro se transformava à noite. Tudo o que via, a minha rotina com um detalhe quase tolo, arriscava ser aborrecido.

Talvez tenha pressentido - essas intuições que a criação conhece mas não os criadores - que, em breve, essa rotina deixaria de parecer monótona e passaria a ser valiosa.
Essas mesmas idas e vindas de casa para a escola e vice-versa, esses cruzamentos, essas conversas sobre as crianças sem qualquer consequência com os pais de outros meninos, parecer-me-iam um ano depois de escrever esse primeiro capítulo, quando o livro estava terminado, revisto, prestes a sair, a própria essência da vida: as minhas filhas e a rua. Essa imagem diária era, afinal, na primavera de 2020, um retrato de estar vivo e ter futuro.

A primeira frase não era como ficou no livro impresso: "Foi naquela altura que deixei de conhecer a cidade". A primeira versão começava assim: "Naquela altura, enquanto escrevia, Lisboa tornou-se uma cidade desconhecida para mim".
O que eu achava que estava a fazer quando escrevi essa primeira frase na primeira versão - enunciando o próprio acto da escrita - era um prólogo. Seria o prólogo do livro extraordinário que eu tinha na cabeça. Rapidamente percebi que não se tratava de um prólogo para qualquer coisa mas a coisa em si.

É possível que o livro tenha começado aí: quando aceitei que era aquele o livro que eu estava a escrever e não outro que tinha imaginado (como, às vezes, temos de aceitar que a vida que nos convém não é a que idealizámos).
Mas também é possível que o livro tenha começado quando a minha filha mais nova nasceu e eu me espantei de reviver o início dessa maternidade como se não fosse a segunda vez.
Ou é possível que o livro tenha começado na Maternidade Alfredo da Costa, quando a minha filha mais velha estava a passar as últimas horas na minha barriga e uma frase (que não chegou a entrar no livro mas certamente faz parte dele) se repetia na minha cabeça como um mantra. Ou, então, antes disso, quando numa ecografia ouvi bater o seu coração.
Ou talvez tenha começado mesmo muito antes disso, quando era apenas filha e olhava para a minha mãe. Quando brincava com bonecas e fingia que elas tinham filhas, quando me ofereceram um bebé que chorava se o apertava.

*

"Todas as famílias felizes são parecidas, cada família infeliz é-o à sua maneira.” Primeira frase de Anna Karenina, de Tolstoi.
"Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself." Primeira frase de um dos mais célebres romances de Virginia Woolf.
"We tell ourselves stories in order to live". Frase muito famosa no mundo anglo-saxónico, tirada do início de The White Album de Joan Didion.
"No dia seguinte ninguém morreu". José Saramago, em As Intermitências da Morte.
"Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo." Gabriel García Márquez contava que a frase lhe tinha surgido numa viagem de carro com a família e que ele voltou para trás para começar a escrever Cem Anos de Solidão. Mas era a frase pela qual tinha esperado a vida inteira.

*

Somos feitos de começos. Algo está sempre a começar mesmo quando parece que chegámos ao fim.
Quando olho para as minhas filhas neste momento, penso nisso. Isso é importante. Imaginar o futuro é um exercício de sobrevivência.
Que frase se está a começar a escrever na minha filha mais velha, neste momento, a dois dias de ir para a escola, com medo de voltar a separar-se de mim ao fim de tantos meses em casa?
Como é que a mais pequena utilizará, daqui a muito tempo, as palavras "vírus", "doença", "distância", "máscara", que já conhece com dois anos?
Quanto das suas escolhas e das pessoas que serão está a começar aqui, agora mesmo, por causa da pandemia ou apesar dela?
O meu livro também tinha uma última frase que eu esperei - atrasando a entrega do manuscrito - para poder usar. Lutei por ela mas não consegui salvá-la. O livro extraordinário que eu tinha na cabeça e que era uma homenagem às mães terminava assim: "nós [as mães] somos o fim e o princípio".

Susana Moreira Marques é autora do livro «Quanto Tempo tem um Dia: Experiências de Maternidade», publicado na colecção de Retratos da Fundação.

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