Regresso às aulas 2020: o que levamos nas mochilas?

Artigo de opinião de Inês Alves, especialista em Educação Inclusiva na Universidade de Glasgow, na Escócia.

4 min. leitura
Ler mais tarde Remover artigo

Este ano o regresso às aulas traz novidades na “lista de material”. Para além da habitual ansiedade - que todos os anos invade crianças e jovens, pais e professores - sobre horários, turmas e colegas, este ano as ansiedades multiplicam-se. Esta multiplicação deve-se ao ‘novo’ vírus que nos fez parar e redefinir as escolas no final do ano letivo anterior.

Mas não é apenas uma questão de adicionar ao material escolar máscaras e desinfetante, é a incerteza de quanto tempo a escola continuará a ser o edifício para onde os pais enviam as crianças para poderem ir trabalhar, e onde professores e alunos/as criam relações que os/as fazem querem ensinar e aprender.

Mas afinal o regresso às aulas é bom ou mau? O regresso às aulas veio pôr em evidência uma série de questões, frequentemente expostas de maneira polarizada, mas que na realidade não podem ser resumidas como “boas” ou “más”, porque a educação raramente pode ser analisada através de perspetivas bipolarizadas. Levanta-se uma série de questões práticas: Os alunos devem usar máscaras? Se sim, em que espaços e condições? A partir de que idade? E os professores? (As máscaras fazem com que a acessibilidade do que é dito se veja diminuída, não só para alunos com deficiências auditivas, mas para muitos outros). Como podemos monitorizar a habitual assiduidade se agora não sabemos ao certo quem está em casa doente ou de quarentena? E há também questões “maiores”: o regresso às aulas é bom ou mau... para quem? Para as crianças e jovens? Para os pais e as famílias? Para a economia? E o desafio continua, por um lado, quando as respostas as estas perguntas não se alinham, e por outro lado quando pensamos que todas estas decisões podem ser tomadas com uma visão de curto, médio ou longo prazo. Este ano letivo traz com ele situações dilemáticas. Situações em que sabemos que cada decisão terá ‘prós’ e ‘contras’ e em que não haverá soluções perfeitas. Dilemas são comuns a qualquer prática educativa que tenha como objetivo assegurar uma educação de qualidade, inclusiva e equitativa – como nos propõem as Nações Unidas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, mas os dilemas são também desconfortáveis – um pouco como as máscaras, quando as usamos um dia inteiro.

Para pessoas em grupos de risco, para crianças com deficiências, para famílias que perderam ou arriscam perder os empregos devido à COVID19, para aqueles com empregos que não são possíveis de realizar através de teletrabalho, ir ou não ir à escola pode ser uma questão de sobrevivência.

Inês Alves

Em parte, a realidade deste ano letivo reforça o desafio de ultrapassarmos o modelo industrial de escola/ linha de montagem em que a maioria dos alunos é organizada em turmas, e chegam e saem (mais ou menos) ao mesmo tempo e aprendem (mais ou menos) as mesmas coisas. Este modelo industrial não se coaduna com os valores da educação defendidos internacionalmente e no último quando legislativo português: inclusão e equidade. Se a ‘escola inclusiva’ for definida como aquela em que todos têm acesso, participam e têm oportunidades reais de sucesso, sabemos que nem todas as crianças e jovens terão acesso equitativo à educação, mas sabemos também que ‘dar o mesmo’ a todos os alunos não vai proporcionar igualdade de oportunidades. A COVID19 veio aumentar as desigualdades; certos grupos da população, por exemplo aqueles a viver em situação de pobreza, depararam-se com situações extremamente desafiantes – e a escola é muitas vezes um ‘porto seguro’ onde crianças e jovens têm acesso não só a conteúdos programáticos, mas também a espaços e recursos que dificilmente terão fora da escola. As ansiedades não afetam as pessoas de maneira equitativa: para pessoas em grupos de risco, para crianças com deficiências, para famílias que perderam ou arriscam perder os empregos devido à COVID19, para aqueles com empregos que não são possíveis de realizar através de teletrabalho, ir ou não ir à escola pode ser uma questão de sobrevivência.

Na Escócia, onde vivo e trabalho, o ano letivo começou, como é habitual, a meio de Agosto e o sentimento de muitos foi de expectativa: quando voltamos a ter de transformar casas em salas de aula, e pais e tecnologia em professores? Os dados parecem sugerir um decréscimo quase diário no número de crianças e jovens nas escolas: de 95.8% de alunos na escola a 17 de Agosto, para 84.5% a 28 de Agosto, mas não sabemos ainda ao certo quantas destas ausências são devidas à COVID19.

A COVID19 veio renovar um desafio que existe há muito: o desafio de termos escolas que incluam e façam sentido para todas as crianças e jovens, escolas em que a prioridade seja que os/as alunos/as tenham oportunidades de se desenvolverem como pessoas, como cidadãos e cidadãs. Escolas que não sejam apenas edifícios e espaços de preparação para testes, mas que sejam entendidas como comunidades de aprendizagem, em que todos aprendem, e em que a aprendizagem não se faz necessariamente com vinte e tal crianças sentadas numa sala de aula.

O desafio é agora aproveitar o ‘empurrão’ da COVID19 para desenvolver uma versão de escola-comunidade, em que as mochilas não transportem ansiedade, para além das prováveis máscaras e desinfetantes. Em que as salas de aula, físicas ou virtuais, sejam espaços para a criação de relações e comunidades em que todas e todos sintam que têm algo para ensinar e aprender. A COVID19 veio enaltecer o papel da escola nas vidas não só das crianças e jovens, mas também nas vidas das famílias: tornou-se claro que a escola é muito mais do que um sítio para “dar matéria”, mas esta situação também nos ajudou a aceitar que a educação pode acontecer fora das salas de aula. Não podemos, no entanto, começar por ‘resolver a situação’ da maioria, e só depois pensar nas crianças e jovens em situações de desvantagem. Vamos aproveitar para desenvolver as nossas comunidades educativas como ambientes de saúde e bem-estar, equidade e inclusão (e não como linhas de montagem)?

Inês Alves é 'Lecturer' em Educação Inclusiva na Universidade de Glasgow, na Escócia. Consulte o seu perfil no portal GPS-Global Portuguese Scientists.

Ler do início
Achou este artigo útil?

13 leitores acharam este artigo útil.