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As múltiplas periferalidades do jazz português no contexto europeu atual

Artigo de José Dias, professor na Manchester School of Art e investigador sobre o jazz na Europa.

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O jazz é por natureza periférico. Ao longo da sua história tem desafiado convenções estéticas, sociais e até políticas. Enquanto música improvisada porosa, tem anulado fronteiras entre as diversas tradições e géneros musicais; enquanto cultura musical inclusiva, tem combatido preconceitos de classe, género e de etnicidade enraizados nas sociedades; enquanto conjunto de práticas musicais de permanente negociação, tem enfrentado ameaças à democracia, ao ser exemplo da valorização da diversidade em palco e fora dele.

Em Portugal — um país geográfica, social e culturalmente periférico na Europa — o jazz não tem apenas sido permeável aos desenvolvimentos sociais e políticos das últimas décadas, como tem estado na linha da frente em muitos desses progressos. Embora sem atenção mediática generalista, o jazz português tem vindo a desempenhar diversos papéis determinantes no âmbito mais lato da dinâmica cultural do país, tanto no plano nacional como internacional. No contexto recente de híper-festivalização na sociedade portuguesa, alguns festivais de jazz em Portugal têm apostado em curadorias e programações que desafiam conceitos estéticos e que exigem do público um exercício reflexivo sobre as suas próprias noções do que é jazz, música ou mesmo sobre o papel da arte e da cultura. Rui Neves, programador do Jazz em Agosto, foi premiado em 2014 com o Award For Adventurous Programming, da Europe Jazz Network — o organismo europeu que reúne 156 programadores, promotores e organizações de jazz. E o mesmo prémio foi atribuído a Pedro Costa, programador do Ljubljana Jazz Festival, em 2018.

Mas talvez o exemplo mais manifesto do sucesso do festival português de jazz enquanto modelo simultaneamente periférico à realidade da oferta de festivais de música em Portugal e congregador de uma ecologia extremamente diversificada — de artistas, alunos, educadores, promotores, críticos e investigadores — seja a Festa do Jazz, que acontece anualmente desde 2003. Paralelamente aos concertos, decorrem uma competição das escolas dos diversos pontos do país, a atribuição de prémios em diversas áreas do jazz e sessões de debate. Foi aliás a partir dos encontros informais e formais que ocorreram na Festa do Jazz que a primeira Rede de Jazz nacional foi criada em 2018 e foi a partir da iniciativa do seu diretor, Carlos Martins, que Portugal foi o país escolhido, no mesmo ano, para acolher a maior conferência de jazz europeia — a European Jazz Conference.

Existem cada vez mais artistas de jazz portugueses com carreiras internacionais e que são hoje nomes de referência no jazz europeu, tal como a trompetista Susana Santos Silva ou o acordeonista João Barradas, entre muitos outros que têm sido elogiados pela crítica internacional.

José Dias

Da mesma forma, nos últimos anos, embora discretamente, o ensino do jazz tem representado em Portugal a mais importante oferta de ensino da música em modelo alternativo ao de conservatório. Desde 2005 foram criados quatro cursos superiores de jazz e cerca de duas dezenas de escolas de jazz em modelo de academia ou escola profissional. Este crescimento exponencial e espalhado pelo território nacional em muito tem contribuído para uma democratização do acesso ao ensino da música no país. A título de exemplo, o sucesso do curso profissional de Instrumentista de Jazz da Escola Profissional de Artes Performativas, em Albergaria-a-Velha, demonstra que é possível, longe dos grandes centros urbanos, subverter as desvantagens geográficas, culturais e até económicas. No plano internacional, existem cada vez mais jovens a estudar jazz pela Europa. Estes têm contribuído de forma determinante para uma maior diversidade de abordagens estéticas no jazz português. E a relevância do ensino de jazz em Portugal refletiu-se também no papel que Ricardo Pinheiro assumiu na direção da International Association of Schools of Jazz.

No campo da edição e distribuição fonográfica, a editora Clean Feed, a operar a partir de Lisboa, optou desde a sua criação, em 2001, por se assumir como uma label internacional. Desde então, tem vindo a ser destacada na imprensa especializada como uma das mais influentes no panorama global da música improvisada. Existem também cada vez mais artistas de jazz portugueses com carreiras internacionais e que são hoje nomes de referência no jazz europeu, tal como a trompetista Susana Santos Silva ou o acordeonista João Barradas, entre muitos outros que têm sido elogiados pela crítica internacional e que poderiam ser citados.

No âmbito da investigação académica e da escrita sobre jazz, a colaboração crescente entre académicos e críticos vai desconstruindo uma lógica obsoleta de trincheiras e resultando em trabalhos extremamente interessantes por nos oferecerem conhecimento a partir de diferentes vozes informadas. A contribuição conjunta sobre a história do jazz em Portugal de Rui Eduardo Paes, diretor da revista jazz.pt, e do investigador Pedro Cravinho, da Birmingham City University, para a obra The History of European Jazz, organizada por Francesco Martinelli (Equinox, 2017), ou a escrita a quatro mãos que tive o prazer de realizar com o jornalista Gonçalo Frota, do jornal Público, da obra Festa do Jazz Português/Portuguese Jazz Fest (INCM) a sair em 2020, são disso apenas dois dos muitos exemplos.

No entanto, o jazz feito, promovido, ensinado e investigado por portugueses tem pela frente muitos desafios. Também as preocupações do jazz português se alinham com os da restante Europa. Apesar do hibridismo cultural que o jazz representa, falta ainda compreender como pode ser fonte de maior inclusão social; apesar de profundamente democrático, falta combater alguns estigmas que ainda perduram no jazz relativamente ao género e à orientação sexual; apesar da consciência e o ativismo sociais serem centrais na história do jazz, falta ainda uma reflexão e estabelecimento de estratégias para que os eventos de jazz sejam exemplo de sustentabilidade ecológica. E para isso será decisivo, sem dúvida, ser-se periférico e pensar-se conta a corrente.

José Dias é 'senior lecturer' e investigador na Manchester School of Art. Consulte o seu perfil no GPS-Global Portuguese Scientists.

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