Fronteiras XXI
Fronteiras XXI

Resumo do debate Fronteiras XXI sobre religião e liberdade

Breve descrição dos principais argumentos aduzidos no programa pelos quatro convidados.

O debate contou com a participação do arcebispo e poeta Tolentino Mendonça, da socióloga Helena Vilaça, do antropólogo Alfredo Teixeira e do escritor Bruno Vieira Amaral. Se não pôde assistir ao programa, poderá ver o vídeo em https://fronteirasxxi.pt/religiao.

O debate Fronteiras XXI da noite passada começou com a apresentação das principais conclusões de um novo estudo da Fundação sobre a religiosidade na Área Metropolitana de Lisboa. Entre elas: os crentes católicos são hoje 55%, percentualmente menos do que em 2011; protestantes, testemunhas de Jeová, muçulmanos, budistas e outros representam cerca de 9%; há 10% de ateus e 7% de agnósticos; e os crentes sem religião aumentaram de 6% para 13% da população metropolitana. Mais: apenas 11% dos residentes na AML vão à missa ou a outro culto aos fins-de-semana; e 49% das pessoas rezam regularmente. (O estudo está disponível para download em https://goo.gl/eZ2jby.)

A mudança social nas últimas décadas foi acentuada: até há pouco tempo, 90% dos portugueses diziam-se católicos. A profusão de religiões registadas em Portugal (mais de 800) e a filiação religiosa não católica de uma camada cada vez mais significativa da população não têm, ainda assim, resultado em conflitos sociais. Com a excepção notória da entrada da IURD em Portugal, que foi o que verdadeiramente «mudou o paradigma religioso no país». Esta confissão neopentecostal «chegou com uma estratégia de confrontação e a reacção da cultura dominante, das pessoas, chegou a ter laivos de xenofobia», afirmou Bruno Vieira Amaral.

De certo modo essa reacção é natural porque «a religião teve um papel estruturante da realidade portuguesa» ao longo dos séculos e até muito recentemente, lembrou o arcebispo Tolentino Mendonça. Aliás, acrescentou Alfredo Teixeira, «nos anos 50 vinham antropólogos para Portugal estudar a nossa religiosidade enquanto algo exótico, como estudavam a religiosidade nas Américas e em África». «Portugal [ainda] é um país pouco exposto à diversidade» religiosa e social e é por isso que em geralmente a convivência inter-religiosa é pacífica: «Hoje vivemos um clima de grande abertura e aceitação das várias religiões. Não somos um paraíso, até porque os paraísos são frágeis, mas há um olhar positivo em relação aos outros» (Tolentino Mendonça). Ainda assim, se as religiões minoritárias crescerem «os portugueses poderão não reagir pacificamente», sugeriu Alfredo Teixeira.

Esse peso latente é o que faz com que, por exemplo, as religiões cristãs minoritárias tenham «uma certa reserva» pois recai sobre elas, e sobretudo sobre a IURD e as testemunhas de Jeová, «alguma discriminação». A «pressão da cultura dominante» existe, no entender de Bruno Vieira Amaral, e leva a que essas religiões «se resignem à invisibilidade». Por outro lado, alertou Helena Vilaça, a invisibilidade é parte do processo de «privatização da religião» que se deu em Portugal no contexto da sua integração na União Europeia: «a religião [ainda] é um assunto importante para os portugueses, mas manifesta-se sobretudo na convivência com a família e com os amigos. Não se manifesta em público como há 40 ou 50 anos», resumiu Alfredo Teixeira.

O curioso na animosidade latente, segundo Helena Vilaça, é que «o núcleo duro dos católicos em Portugal têm manifestações da sua crença em muito semelhantes às dos evangélicos». Ensinar os preceitos das várias religiões na escola pública pode ser uma forma de promover a tolerância e combater «a profunda ignorância» (Bruno Vieira Amaral) da generalidade dos católicos portugueses em relação a quem crê noutras religiões. «O grau de iliteracia [dos portugueses] em relação ao religioso e ao património cultural da religião é muito grande», rematou Tolentino Mendonça.

No que diz respeito à Igreja Católica, o grande aumento dos crentes não religiosos revelado pelo estudo levou Tolentino Mendonça a vaticinar que essas pessoas «sejam ouvidas e entendidas pela Igreja». Aliás, lembrou, «o Papa insiste muito no combate à auto-referencialidade, ao discurso da Igreja para si própria. Ele insiste no espírito de encontro, de diálogo com os outros religiosos e com as outras religiões. Penso que esse desafio é muito necessário para a Igreja».

Outro grande desafio é o dos refugiados que procuram a Europa, muitos dos quais crentes de outras religiões (em especial a muçulmana, que deverá representar 11% da população europeia em 2050, segundo outro estudo referido no programa). Os crentes cristãos devem abrir portas e corações aos refugiados? Por um lado, disse Bruno Vieira Amaral, «é natural o receio dos europeus em relação ao desconhecido». Por outro lado, afirmou Tolentino Mendonça citando Jesus Cristo: «no final da vida seremos julgados pelo bem que fomos ou não capazes de fazer pelo ser humano mais pobre».

Se não pôde assistir ao programa, poderá ver o vídeo no site do Fronteiras XXI.

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