Em certo sentido, aquele dualismo, usado por Eco para descrever os fenómenos da comunicação de massas, acabou por se tornar ele próprio num cliché ou lugar-comum da indústria da cultura, fazendo parte da realidade que, ao cabo e ao resto, visava caracterizar.
O mesmo sucedera já, aliás, com a contraposição entre dionisíaco vs. apolíneo que Nietzsche traçou em A Origem da Tragédia, ou a tantas outras polaridades que servem de ferramenta para alcançar o fugidio e o intangível de que a nossa contemporaneidade é feita. Kultur vs. Bildung ou Némesis vs. Hubris (para não falar da distinção entre o ouriço e a raposa celebrizada por Isaiah Berlin), a hegemonia do pensamento binário emerge em muitos lugares, fazendo parte de uma e de outra das two cultures que C. P. Snow apresentou numa famosa conferência proferida em Cambridge em 1959 – e onde, de novo, emerge a tendência para o dualismo como chave hermenêutica do nosso tempo.
Recorde-se que, no prefácio ao seu livro, Umberto Eco advertia, logo nas primeiras linhas, para o facto de ser «profundamente injusto subsumir atitudes humanas – em toda a sua variedade, em todos os seus cambiantes – sob dois conceitos genéricos e polémicos como os de “apocalíptico” e “integrado”». Dizia depois, com desarmante candura, que utilizou aqueles termos porque «dar título a um livro tem as suas exigências»; exigências que, acrescentava, se inscrevem no âmbito da própria cultura de massas…
Desta sorte, se os Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos parecem integrar-se de pleno na cultura de massas dos nossos dias – pela sua produção em larga escala, pelos seus propósitos de vulgarização do conhecimento, até pelo seu preço módico –, eles são também «apocalípticos» ou, pelo menos, procuram configurar-se como tal. Com esta afirmação não se pretende reclamar um estatuto cómodo ou travesso de marginalidade e iconoclastia, mas tão-só reivindicar um espaço singular na cidade dos homens. Espaço que é concedido pelo declínio progressivo da cultura do livro em face da hipertrofia doutros veículos de comunicação; lugar que emerge do crescente domínio da ficção de massas, de consumo fácil, no panorama editorial português e, convém dizê-lo, de todo o mundo dito «civilizado».
A esta luz, e pese a sua aparência «integrada» e – porque não dizê-lo? – «conformista», uma colecção de ensaios vocacionada para o grande público tem mais afinidades com a literatura de cordel de outrora do que poderíamos supor. Ambas comungam do mesmo propósito de levar aos outros – a muitos ou a poucos, isso não importa – o que é raro e escasso. Sem passadismos descabidos nem comparações excessivas, esta colecção pretende situar-se na melhor tradição das obras informativas (e, já agora, opinativas) publicadas em larga escala, como a Cosmos, dirigida por Bento de Jesus Caraça, ou a francesa Que sais-je? A circunstância de esta última se inspirar num dito de Montaigne não representa um acaso. Também a colecção Ensaios da Fundação, como o próprio nome indica, estimula e incentiva um olhar ensaístico, subjectivo, pessoalíssimo. Em certos títulos, esse propósito foi plenamente atingido. Noutros, pela natureza do tema, a componente informativa e didáctica sobrepôs-se à dimensão opinativa ou ensaística. Em qualquer dos casos, porém, a regra é sempre a mesma, uma só: aos autores é concedida inteira liberdade de escrita, tendo a colecção um objectivo preciso – fornecer a uma vasta comunidade de leitores, tão vasta quanto possível, visões distintas e plurais sobre assuntos de interesse relevante para a compreensão de Portugal e do mundo. Se esse objectivo foi alcançado, é algo que só o decurso do tempo o poderá dizer. Fica o esforço, dos autores e da Fundação. O que não é pouco!
António Araújo é director de publicações da Fundação. «Ensaios da Fundação» foi originalmente publicado na «Rua Lrga - Rvista da Reitoria da Universidade de Coimbra», nº 45.