A revolução no emprego já começou

E procuram-se soluções para o futuro. Texto de introdução ao tema do novo programa Fronteiras XXI.

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As mudanças estão em marcha. Já há supermercados sem empregados nas caixas, refeições entregues por drone em Coimbra, fábricas onde robôs fazem quase todo o trabalho. As novas tecnologias têm potencial para ameaçar 1,2 mil milhões de empregos. Os grandes arautos da tecnologia estão preocupados.

No último mês, dois dos maiores empresários de tecnologia do mundo avançaram com propostas surpreendentes. O patrão da Microsoft, Bill Gates, defendeu que a utilização de robôs deve estar sujeita a impostos. E o multimilionário Elon Musk, criador do primeiro voo comercial para a lua, quer que todos os cidadãos recebam um rendimento básico para viverem.

Na origem das duas propostas está uma mesma preocupação: encontrar soluções para a avalanche de desemprego que a inteligência artificial, a robótica ou a nanotecnologia ameaçam provocar no mercado de trabalho.

Os números do mais recente estudo da McKinsey são reveladores da dimensão deste impacto: Há 1,2 mil milhões de empregos com potencial para serem automatizados à escala global até 2055. Na Europa são 62 milhões de trabalhadores que estão em risco, apenas nas cinco maiores economias, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Espanha, revela a análise publicada em Janeiro passado.

Nos EUA, prevê-se que metade das profissões possam desaparecer ou ser parcialmente esvaziadas nas próximas duas décadas, diz um estudo da Universidade de Oxford publicado em 2013. E para os europeus, a factura será ainda mais pesada: em média, 55% das profissões correm o risco de se tornarem redundantes, segundo a análise de um dos economistas do think thank Bruegel.

Dos supermercados aos seguros

Estas mudanças já começam a ser visíveis. Há um supermercado nos EUA de onde se sai sem ter que pagar na caixa. Tudo é feito com uma aplicação de telemóvel, que substitui os operadores das registadoras e põe fim a filas de espera. O mesmo já acontece em sete restaurantes da cadeia de fast food norte-americana Easta. Ali é possível escolher um prato, encomendar e levantar uma refeição sem vislumbrar um único empregado.

Com vários modelos de carros sem condutor a circular em testes nos EUA e na Europa, profissões como motoristas de transportes, táxis ou estafetas também podem ter os dias contados. O Parlamento Europeu calcula que dentro de alguns anos "milhares" de veículos autónomos viajem nas auto-estradas europeias (ver texto As dez tecnologias que vão mudar as nossas vidas).

As encomendas também já chegam aos clientes pelo ar. E não são apenas as da gigante de vendas online Amazon. Em Portugal, já há um drone a entregar refeições ao único habitante da aldeia de Podentinhos, nos arredores de Coimbra, numa experiência entre a empresa Connect Robotics e a Santa Casa da Misericórdia de Penela.

Na Ásia, este impacto tecnológico ganha outra dimensão. No ano passado, a multinacional Foxconn, fabricante de componentes para telemóveis da Samsung e da Apple com sede em Taiwan, substituiu 60 mil pessoas por robôs.

E a vaga de automação não se limita apenas ao sector da indústria. Há dois meses que a seguradora japonesa Fukoku Mutual Life Insurance passou a usar um programa de computador que cruza os dados das fichas médicas dos clientes e determina o valor do pagamento dos seguros. O resultado é que 34 dos seus empregados se tornaram redundantes.

Uma revolução a grande velocidade

Preocupado, o cientista britânico Stephen Hawking alertava em Dezembro para o enorme risco de desigualdades sociais provocadas pelas alterações no mercado de trabalho.

“A automação das fábricas já dizimou o emprego nas manufacturas tradicionais, e a inteligência artificial deverá alargar esta destruição à classe média”, explicou o físico teórico, num artigo publicado no jornal britânico The Guardian.

Para Hawking, ao impacto tecnológico apenas resistirão as funções humanas ligadas aos “cuidados, criatividade e supervisão”.

 

Vamos atravessar a fronteira da substituição de empregos de uma só vez em certas actividades

Bill Gates

Este cenário negro é partilhado pelo homem mais rico do mundo, sobretudo pelo ritmo acelerado com que está a chegar a chamada 4ª revolução industrial. "Vamos atravessar a fronteira da substituição de empregos de uma só vez em certas actividades", explicou Bill Gates numa entrevista ao site de notícias Quartz, publicada a 17 de Fevereiro. "Há algumas categorias profissionais que certamente desaparecerão nos próximos 20 anos", frisou, dando como exemplo os motoristas e os empregados de armazém.

O problema é que será difícil abrandar a velocidade desta inovação, permitindo que o mercado de emprego se reajuste. Para Gates, uma das soluções passará pela aplicação de "impostos específicos" às empresas que usam robôs. Os governos poderão depois canalizar esta receita para apoiar todos aqueles que terão de dedicar-se a novas funções, defende.

A proposta é vista por muitos especialistas como um entrave à inovação. E na véspera das declarações de Gates foi rejeitada pelos eurodeputados, que recomendaram à Comissão Europeia a aprovação de um conjunto de medidas urgentes para regular os avanços tecnológicos.

Um rendimento básico para todos?

Já outra medida para aliviar este impacto ganha cada vez mais adeptos: a criação do chamado rendimento básico incondicional, uma prestação mensal paga pelo Estado a todos os cidadãos, que lhes garanta uma vida com dignidade.

Entre os mais recentes defensores deste rendimento está Elon Musk. O multimilionário patrão da Tesla Motors não tem dúvidas de que será útil para enfrentar o desafio social criado pelo "desemprego em massa" que a tecnologia provocará. Mesmo acreditando que, com a automação do trabalho, "quase tudo se torne muito barato".

Acabaremos por criar algum modelo de rendimento básico. Acho que será necessário. Haverá cada vez menos e menos empregos que um robô não possa suplantar

Elon Musk, durante a Cimeira Mundial de Governos no Dubai

Na Finlândia esta solução está a ser testada em larga escala. Desde Janeiro que dois mil finlandeses desempregados recebem 560 euros mensais, um valor garantido que substitui o subsídio de desemprego e outros apoios. Vão ter direito a este rendimento durante dois anos, mesmo que entretanto arranjem trabalho, podendo acumular o apoio do Estado com o novo salário.

O objectivo é aliviar a pobreza e estimular o emprego no país, já que actualmente quando um desempregado volta ao mercado laboral, perde grande parte dos apoios sociais, mesmo quando o novo salário é muito inferior aos apoio da Segurança Social.

Para economistas como Guy Standing, o rendimento básico poderia ser um "novo mecanismo de redistribuição da riqueza que daria aos cidadãos uma sensação de segurança”. Este professor da Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres, considera que já hoje os trabalhadores enfrentam uma insegurança laboral crónica que não tem sido combatida com eficácia.

O trabalho flexível tornou-se a “regra”, deixando muitos milhões de pessoas “sem uma âncora de estabilidade” e sem "uma identidade baseada no trabalho", explicou num artigo publicado no site Business Insider. No futuro, a situação vai agravar-se ainda mais.

Robôs e humanos lado a lado

Os investigadores do McKinsey Global Institute traçam um cenário global mais optimista.

Apesar de concluírem que 50% das actividades de emprego poderão ser automatizadas até 2055, defendem que o debate sobre a automação tem estado erradamente centrado no desemprego.

Acreditam que em 2055, ao contrário dos cenários hoje mais debatidos, os robôs serão fundamentais para o funcionamento do mercado, dado o envelhecimento da população um pouco por todo o globo. Ou seja, prevêem um cenário futuro onde existirá não um excesso mas antes "um déficit de mão-de-obra humana".

Mais consensual parece ser a ideia que, nas próximas décadas, "a natureza do emprego irá mudar", com os trabalhadores a dedicarem-se a tarefas complementares às das máquinas. Só assim, lê-se no estudo, será possível atingir o aumento de produtividade que a revolução tecnológica promete.

A análise da McKinsey estima que a produtividade global disparará com a automação: passará dos actuais 0,8% para 1,4% por ano, devido ao aumento da eficiência, qualidade e à redução de erro do trabalho automatizado.

Estes benefícios económicos só serão alcançados se humanos e robôs trabalharem lado a lado. "Pelas nossas estimativas, os desempregados pela automação vão encontrar um novo trabalho", tal como aconteceu no século passado nos sectores da agricultura e das manufacturas, onde foram criadas novas ocupações que não eram previsíveis na altura, defendem os investigadores.

Cabe aos governos criar políticas para fazer face ao previsível impacto do desemprego. Para os investigadores da McKinsey, "isto obrigará a repensar a educação e a formação porque as pessoas necessitarão de novas competências nesta era da automação".

Em alta estarão qualificações profissionais nas áreas da ciência, tecnologia, engenharia e matemática, mas também o aperfeiçoamento de muitas das características inatas aos seres humanos, como a criatividade, a capacidade de resolução de problemas, competências emocionais e um pensamento crítico. Precisamente aquelas mais difíceis de conseguir replicar em máquinas.

Saiba mais sobre as profissões do futuro, as que estão em risco de desaparecer e como nos devemos preparar para os desafios que aí vêm: Como será o trabalho no futuro?, dia 15 de Março, às 22h na RTP3 e online.

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