O debate do populismo em 8 perguntas

Resumo da estreia do programa Fronteiras XXI, sobre a ideologia do populismo e as suas consequências para os sistemas políticos.

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Na estreia do programa do Fronteiras XXI, o Presidente da República debateu com a investigadora da Universidade de York Mónica Brito Vieira e com o professor de Ciência Política João Pereira Coutinho o fenómeno que está a crescer na Europa.

As respostas a oito perguntas que ajudam a explicar as causas e o crescimento do populismo, um fenómeno de definição controversa, mesmo entre os especialistas. Mas as soluções para travar este crescimento foram unânimes entre os três convidados do primeiro programa.  

O que é o populismo ?

Mais do que uma ideologia, o populismo é uma “contraposição entre elite e povo, para que o povo volte a ter as rédeas do poder", defendeu Mónica Brito Vieira adiantando que a estratégia do líder populista “é mobilizar camadas marginalizadas e excluídas da população dando-lhes poder”. Como? Considerando que a elite que governa “é uma elite moralmente corrupta e que se serve do aparelho do poder para servir os seus interesses”. Esse líder assume-se então como o representante do “povo virtuoso, honesto, que trabalha, paga os seus impostos e se sente explorado”, resumiu a investigadora.

Para João Pereira Coutinho o populismo é sempre também um movimento anti-pluralista. Para o líder populista “a sua ideia é a única ideia” e “qualquer discórdia deve ser abolida por princípio”.  Por outro lado, o populismo defende que o exercício do poder deve ser exercido de forma directa. “As massas enraivecidas querem entrar no castelo. Querem que a arena política seja um Facebook em ponto grande” onde todos os elementos de mediação são abolidos, defendeu o professor da Universidade Católica. Mas, alertou, estes elementos de mediação são fundamentais: “nas nossas sociedade não fazemos justiça pelas próprias mãos, temos tribunais, nem governamos directamente temos governantes”.

 

Porque está a crescer na Europa?

Para o Presidente da República tem havido uma  “incapacidade da Europa para acompanhar as novas realidades científicas, tecnológicas, económicas, e sociais que deixam para trás uma parte significativa da população”. Estes cidadãos marginalizados sentem também que o sistema político não lhes traz respostas, nem soluções. “Os partidos políticos tornaram-se partidos de cartel. Perderam doutrina, perderam ideologia, descolaram da realidade”, defendeu Marcelo Rebelo de Sousa.

 “Hoje os partidos, em vez de representarem o eleitorado perante o Estado, representam o Estado perante o eleitorado”, resume Mónica Brito Vieira, acrescentando que isso acentua a sensação de exclusão e de alienação das pessoas que abre caminho para os populismos.

É inevitável o aparecimento de populismos?

Este é um dos preços a pagar por vivermos em democracia, admitiu a professora da Universidade de York. “Há uma relação intrínseca entre democracia e populismo: a democracia é uma promessa de participação no exercício do poder”. Mas se “somos soberanos, não governamos”, recordou, considerando que, essa exclusão pode gerar uma revolta populista. “Sentimos que o poder foi-nos roubado e queremos voltar a exercê-lo”, concluiu.

Já para João Pereira Coutinho é o vazio do espaço ocupado pelos partidos tradicionais que tem permitido o crescimento dos populismos. “Hoje a grande discussão na Europa é entre populismo e aquilo a que se chama pós-democracia”, defendeu. “O que existe a meio, o espaço dos partidos, foi quase esvaziado. Se este fosso não for repolitizado, se assuntos como a imigração ou a economia não voltarem a ser discutidos dentro das instituições, a nível parlamentar, o movimentos populistas vão crescer e tornar-se uma séria ameaça às democracias liberais”, alertou.

A nova presidência dos EUA pode tornar-se um perigo para Europa?

O chefe de Estado desdramatizou a actual postura do governo de Donald Trump considerando que “há uma tradição na política norte-americana de muitos presidentes, quando começam funções, serem isolacionistas e de considerarem que não faz sentido uma Europa unida”. Mas depois “convencem-se de que afinal a Europa unida é melhor do que a Europa desunida”. Marcelo Rebelo de Sousa disse, por isso, ter “uma certeza” quanto ao futuro relacionamento com o governo norte-americano: “Os EUA precisam sempre da Europa como aliada fundamental”, defendeu. "Há coisas onde a Europa é insubstituível. A Europa percebe África melhor do que os EUA, percebe melhor a componente Leste do que os EUA”.

Mais cauteloso, João Pereira Coutinho diz que “nada garante que a governação vanguardista e revolucionária que Trump está a trazer não vá continuar”. O cronista quer “acreditar que o presidente vá mudar” o rumo, mas “o seu grau de imprevisibilidade é elevado”.

O Brexit terá um efeito de contágio noutros países?

Mónica Brito Vieira não tem dúvidas de que pode haver contágio. “O que Inglaterra criou com o Brexit foi um modelo alternativo. Em que um país salta fora de um conjunto de outros países e renegoceia tudo à sua medida, à sua imagem, à sua vontade. E isso é uma ideia muito atractiva que vai ser explorada por outros eleitorados”.

Para a investigadora, a vitória do Brexit é também ilustrativa de como as divisões na sociedade inglesa passaram despercebidas ou foram ignoradas pelos partidos tradicionais. O Brexit “revelou uma sociedade de costas voltadas”, onde “duas camadas da população tinham modelos de sociedade e desejos para o futuro completamente diferentes”, explicou a professora da Universidade de York.

Portugal tem sido poupado aos fenómenos populistas?

Sim, defende o Presidente da República. “O sistema político português tem uma plasticidade, uma capacidade de adaptação dos partidos, da realidade política e de algumas instituições para se ajustar", que tem travado os radicalismos.  

Mesmo partidos como BE e no PCP, que representam as forças sociais que que podiam cavalgar uma onda populista, estão hoje “institucionalizados”,  tornaram-se parte da governação, adiantou Mónica Brito Vieira. Por outro lado, e apesar de em Portugal o precariado ser muito grande, há uma estrutura social e familiar que funciona como almofada, e isso levou a que no país não tivéssemos um Podemos ou um Syriza”.

A mesma ideia é defendida por João Pereira Coutinho. “Mesmo que BE e PCP tenham tido posições contra o euro ou o pagamento da dívida aquilo que verificamos, nos anos do ajustamento, é que estes partidos têm reivindicações conservadoras”, adiantou. “Se na retórica estes partidos são populistas, na prática são bastante conservadores”. Com os seus discursos“não quiseram um mundo novo, uma Europa nova, um Portugal novo”, mas sim “voltar a uma espécie de estado anterior à crise”, defendeu.

E à direita, pode surgir um líder populista em Portugal?

“Acho difícil que surja um líder capaz de aglutinar [essas vozes descontentes]", defendeu João Pereira Coutinho. “Existe em Portugal uma consciência transversal, da esquerda à direita, de que o país pela sua periferia e pobreza necessita da almofada europeia” para não cair numa situação económica ainda mais difícil. “É como se, ironicamente, o populismo fosse um luxo a que não nos podemos permitir”.

O Presidente da República também defendeu que “quer à esquerda quer à direita, a flexibilidade e o frentismo dos partidos permitiu-lhes absorver e integrar fenómenos que noutros países poderiam ir para as margens do sistema”.

Como é possível travar os populismos?

O chefe de Estado não tem dúvidas de que é urgente “o regresso à política, às ideias e ao debate sobre a realidade” para travar movimentos radicais. “Houve um período em que a obsessão do económico e financeiro fez com que houvesse um esvaziamento da político. Isso empobreceu a política. É da riqueza do debate que nasce a democracia”, frisou.

Também para João Pereira Coutinho “a única forma de vencer os populistas é ganhar nas urnas, voltar à política”. Para o professor da Universidade Católica qualquer sistema é capaz de lidar com crises económicas ou com o problema de refugiados. “Mas se não houver uma arena de debate nacional, parlamentar, para estas discussões, se houver apenas um vazio deixado pelo sistema tradicional, os movimentos populistas vão ocupar esse vazio”, defendeu.

Já Mónica Brito Vieira fala num problema de liderança política: “Faltam líderes e Merkel [a chanceler alemã] é a única que está a lidar com estes fenómenos de forma mais ou menos airosa”. A investigadora explica que quem perdeu nas recentes eleições em Inglaterra e nos EUA, está a cometer os mesmos erros que atribuiu aos seus adversários, e não tenta compreender o que levou as populações a chumbar as suas propostas. “Temos de ganhar o voto das pessoas, temos de entrar nas suas cabeças, perceber as suas vulnerabilidades, aquilo que querem”, rematou.

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