O factor humano

Crónica de António Mega Ferreira

Em 2008, segundo as Nações Unidas, o número de habitantes das cidades ultrapassou, pela primeira vez, os 50% da população mundial, atingindo cerca de 3,3 mil milhões de pessoas.

Mais: de acordo com as previsões das Nações Unidas, este movimento de concentração urbana tenderá a acelerar-se, de tal forma que, em 2050, cerca de 60% da população mundial – uns 5 mil milhões de pessoas – viverão em cidades de grande ou média dimensão; e a percentagem sobe para 81% nos países em vias de desenvolvimento.

Na presente “segunda vaga” da urbanização (a primeira desenvolveu-se entre 1750 e 1950, sobretudo na Europa e Estados Unidos da América), o foco está voltado para as áreas menos desenvolvidas: aí, o número de urbanitas subirá de 309 milhões (em 1950) para 3,9 mil milhões, em 2030. Se juntarmos a isto os factores psicológicos e sociais de atracção gerados pelo fenómeno urbano, em conjugação com a globalização económica e a mediatização, não é difícil antecipar que o modelo urbano será o grande referente – possivelmente o único – de toda a organização geográfica e social nas próximas décadas. A condição urbana é já a condição humana do século XXI. 

Mesmo nas áreas metropolitanas do chamado mundo desenvolvido, a emergência de novos paradigmas da vivência urbana (terciarização, multiculturalidade, multietnicidade, policentrismo) veio colocar outros desafios aos políticos e planeadores. Nas nossas cidades, tornou-se urgente pensar em tudo o que não cabe na lógica pura e dura da intervenção física. As novas cidades são hoje lugares de convergência e afirmação de aspirações culturais novas, de novas formulações do desejo, de novas formas de procurar a alegria e o prazer, de partilhar a informação, de criar. Digamos que as novas cidades são elas próprias formas descentralizadas de aspiração e concretização cultural. Nas últimas décadas, consolidaram-se e disseminaram-se formas de expressão cultural eminentemente urbanas, ao mesmo tempo que se atenuavam – quando não desapareciam – formas culturais tradicionais, ligadas em grande medida à estrutura e aos modos de representação das sociedades rurais. Mesmo dentro do quadro da cultura urbana, as formas de expressão cultural alteraram-se profundamente. O quadro de aspirações, dentro e fora da cidade, também.

Poder-se-ia perguntar por que razões, num contexto de crise económica e social prolongada como o que estamos a viver, as grandes áreas urbanas continuam a ser poderosos focos de atracção. Ensaiemos, topicamente, algumas dessas razões possíveis, identificando algumas características do horizonte de expectativas das gerações mais jovens: na concentração urbana buscam a proximidade; na integração social procuram o anonimato; na coabitação julgam encontrar uma nova forma de coexistência; na autonomia que a cidade exige tentam fugir ao condicionamento social e familiar; na convivência que a urbe proporciona ensaiam novas sociabilidades. Junte-se a isso a procura do emprego e a efectiva oferta da diversidade, e talvez tenhamos um quadro razoavelmente adequado do que move os que procuram a grande concentração urbana. De horizonte de expectativas a cidade tornou-se horizonte de projecção, que resiste a todas as desilusões, mesmo quando não consegue dar resposta às aspirações mais concretas e materiais.

Se a cidade sempre foi, em última instância, aquilo que os seus habitantes fizeram dela, não é menos certo que o papel dos planeadores nunca nos apareceu tão condicionado como hoje. Por paradoxal que pareça, num contexto de monetarização das relações sociais e de imaterialização acelerada, é o factor humano que determina, quando não antecipa, a tarefa dos decisores políticos.

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