Cosme Velho, Montemor-o-Novo

Um artigo de Alexandra Lucas Coelho

No Alentejo, tudo parece virar-nos para dentro. É uma terra de silêncios. No Rio de Janeiro, tudo nos vira para fora. É uma cidade de ar livre e de festa. Duas experiências de vida na primeira pessoa.

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Mudei-me para o Rio de Janeiro no auge do consumo tropical, fins de 2010. A economia brasileira bombava com os 40 milhões de ex-pobres que agora pagavam a crédito em prestações e tinham ajudado Dilma Rousseff na sucessão a Lula da Silva. Eu acompanhara como repórter as duas voltas da campanha presidencial, entre Setembro e Outubro, e a 1 de Dezembro voltei para ficar como correspondente. Era o último mês de Lula em Brasília, Dilma tomaria posse a 1 de Janeiro, pleno Verão no hemisfério sul, fervilhante. Contraste total com Lisboa, de onde eu vinha, e onde tudo era Inverno. Lembro-me de que, na primeira ida a Portugal, pouco depois, Lisboa e Porto me pareceram cidades fechadas, silenciosas, desertas, até de carros, porque não havia dinheiro para gasolina. Passados quatro anos, neste Outono de 2014 em que escrevo, pode continuar a não haver dinheiro para gasolina mas será difícil Lisboa e Porto parecerem cidades fechadas, silenciosas e desertas, porque o turismo bomba, como o mercado brasileiro bombava em 2010. O espírito do tempo atravessa assim o espírito de uma cidade, moldando-a e sendo moldado por ela: o Rio de Janeiro ufano de 2010 será certamente diferente do Rio de Janeiro tenso de 2014, tal como ufanismo e tensão serão diferentes noutra cidade. A experiência de uma cidade resultará daquilo que nela está a ser mudado e daquilo que é mudado por ela, ou seja, do que nela é mais, ou menos, forte do que o espírito do tempo.
 

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Para falar do Rio de Janeiro é, então, relevante o quando, mas também o onde, visto que a perspectiva de uma cobertura no Leblon é radicalmente diferente da de um barraco na Cidade de Deus. Nunca dormi no Leblon, um bairro rico, nem na Cidade de Deus, uma favela, embora tenha amigos em ambos os lugares, e portanto a minha perspectiva será a de quem passou temporadas em pequenos apartamentos de classe média no Humaitá, Laranjeiras e Jardim Botânico e, sobretudo, durante mais de dois anos morou numa sub-casa no Cosme Velho.
 

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O Cosme Velho é um antigo beco sem saída onde, até aos anos 60, só entrava quem ia mesmo para lá. Carruagens, bondes (eléctricos) e, finalmente, carros tinham de dar meia volta para sair, porque o bairro encosta ao maciço do Corcovado. Depois, o Túnel Rebouças foi inaugurado e o Cosme Velho tornou-se uma passagem entre o Centro, quase desabitado à noite, e a abastada Zona Sul. Quem lá mora há muito lembra-se de outro sossego, antes do túnel, mas eu vejo-o como uma espécie de triângulo das Bermudas no meio de todo o ruído que é o Rio de Janeiro, pelo menos quando se está a meia encosta, naquilo a que os cariocas chamam “a ladeira”.
 

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Porteiro, câmaras, barras de metal: o carioca Zona Sul, ou seja, menos de um milhão dos seis que fazem a cidade, vive com o dilema da segurança. A parte mais famosa do Rio, em volta das praias, foi ficando cheia de barreiras. E ladeiras em frente a favelas, como a minha no Cosme Velho, entraram para a lista de risco: lugares no meio da vegetação, com fama de violações, roubos, mortos no caldeirão tráfico-polícia. Fui descobrindo essa fama aos poucos, e quando isso aconteceu já estava como em casa, então descer ou subir a pé a minha ladeira, de dia ou de noite, nunca foi inquietante. Era semelhante a Alfama antes do boom dos turistas, os autóctones dominavam a cena, e isso passava por reconhecer quem também morava no bairro, como eu, apesar do caldeirão tráfico-polícia no Rio de Janeiro estar mais para guerra urbana do que para bairro popular.
 

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Então, o Cosme Velho era uma mistura de casarões abandonados, casarões habitados há muito e favelas “não domadas” (onde ainda não havia uma Unidade de Polícia Pacificadora, esquema de segurança em curso, segundo o qual a polícia se instala em vez de fazer incursões), com um ponto apinhado de turistas: o bondinho do Cristo Redentor. E, sendo essa mistura de anacrónico com icónico, é um bairro que revela muito do que o Rio de Janeiro já foi, ainda é e nunca será, incluindo o duelo com a natureza.
 

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Quem mora no Cosme Velho sabe, a cada dia, como plantas, bichos e chuvas podem vencer a cidade. O Rio de Janeiro é uma cidade tomada à natureza e portanto tomada pela natureza. Talvez por isso, a displicência dos cariocas seja a de quem não constrói para amanhã, a de quem vive aqui e agora, mantendo uma fascinante imunidade ao temor. Os jesuítas portugueses que colonizaram o Brasil exasperaram-se com a inconstância dos indígenas; não que eles fossem teimosos, conflituosos; pelo contrário, eram dóceis, aceitavam o que lhes davam; e depois esqueciam, e voltavam a ser quem eram. O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro tem um belo texto sobre isso num livro justamente chamado A Inconstância da Alma Selvagem. Os cariocas são, de algum modo,herdeiros dessa inconstância. Eles constroem até no morro, têm empregos, conta bancária, mas na verdade vivem no ar. Tudo acontece como se a qualquer momento a floresta se fosse fechar sobre nós, ou houvesse sempre algo maior, um destino, deuses, espíritos, que já lá estavam antes e continuarão depois. O carioca é tão descolado (cool) quanto crente. Nada o desespera porque ele já está entregue a algo maior. O que será, será.
 

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Isso, somado a séculos de herança colonial, escravocrata, faz do espaço público uma babel que alguém, sempre acima, há-de resolver, do ruído ao trânsito. Ao longo dos anos, assisti à multiplicação de carros na rua, resultado aritmético do incentivo ao consumo, ao mesmo tempo que os autocarros se mantinham desembestados, poluentes e ensurdecedores, e o metro continuava escasso, em expansão segundo convinha à organização das Olimpíadas. A topografia do Rio, com os seus morros irrompendo a cada curva, não ajuda, claro, mas sobretudo a cidade parece nunca ter sido pensada para uma expansão heterogénea. Os brancos, letrados, ricos apertam-se na Zona Sul, onde os alugueres dos apartamentos, muitas vezes acanhados e em mau estado, dispararam para o inacreditável. E cinco milhões de “suburbanos” espalham-se por Zona Norte e Zona Oeste, o que inclui a Barra da Tijuca, aquela longa faixa de areia a ocidente do Leblon que podia ser o Rio no futuro mas é Miami no presente: torres de condomínios fechados e shoppings. Grandes arquitectos, utópicos como os grandes arquitectos em geral, chegaram a acreditar na Barra da Tijuca. Nunca consegui atravessá-la sem uma sensação de catástrofe, de que aquilo era o Rio de Janeiro com dinheiro no seu pior. A negação do Rio de Janeiro de chinelo no pé, sem lenço nem documento. Mas, se as manifestações de Junho de 2013 puseram fim ao ufanismo e contribuíram para a tensão em curso, essa tensão passará, creio, por movimentos de resistência em relação à escalada absurda dos preços.
 

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O Cosme Velho está nos antípodas da Barra da Tijuca, meio secreto, meio decadente, longe da praia. Eu passava dias na minha sub-casa sem ver uma superfície de água. Depois apanhava o 569, atravessava o túnel e dava um mergulho no Atlântico, ou fazia a Lagoa a pé, porque nunca se está assim tão longe da água no Rio de Janeiro. Mas a praia do Cosme Velho é mesmo a floresta, e, mais do que um jardim, o que eu tinha na minha sub-casa era mesmo floresta: jabuticabeiras e jaqueiras altíssimas, macacos do meu tamanho, cobras (pelo menos, uma), toda a panóplia tropical, incluindo elevadíssimos níveis de bolor, chamado mofo no Brasil. Humidade era mato, assim coisa de um desumidificador extrair litros de água em algumas horas. Na verdade, eu morava na selva. Há lugares do Rio que são assim, e neles dá para ver melhor como a natureza está prestes a engolir-nos.
 

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Sub-casa quer dizer duas divisões e meia na parte de baixo de uma casa, antigos aposentos de criados. Mas com acesso a todo o jardim, e incluindo os cães.
 

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É por aqui que se faz a ligação a Montemor-o-Novo. Comecei a pensar em Montemor no Cosme Velho, quando o Rio ficou demasiado caro para mim. Continuar lá obrigava-me a viver para ganhar dinheiro, quando o que eu queria era escrever livros, além do pesadelo kafkiano luso-brasileiro que é renovar um visto. Eu gostava de Montemor, parecia-me puro Alentejo sem o peso claustrofóbico que as pequenas cidades podem ter, um lugar onde recém-chegados urbanos podiam não ser esquisitos. E Montemor permitia pensar numa casa com quintal, porque depois de morar no Cosme Velho era difícil voltar a morar num apartamento. Foi assim que, no começo de Março de 2014,deixei o Rio de Janeiro, e, no fim do mês, mudei para o anexo de uma casa com quintal aos pés do castelo de Montemor, onde a renda era um quinto do que eu pagava no Cosme Velho, e um décimo do que se agora pagaria.

O melhor de qualquer cidade, pequena ou grande, no interior ou no litoral, quase aldeia ou metrópole, é poder ir e vir, e estar à vontade

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Se no Rio de Janeiro morava por baixo da casa grande, em Montemor passei a morar ao lado da casa grande, também partilhando o quintal, onde também há havia dois cães. E o clima, afinal, não era assim tão diferente: húmido, com um Verão de chuvas grossas, e terra a cheirar a chuva grossa, e copas brilhantes, como no Rio de Janeiro. Até os cães em pânico na trovoada, ou com os foguetes em dias de festa, eram um regresso ao Cosme Velho. E aquela coisa única de viver de porta aberta para as árvores. Isto é um mini-Cosme Velho, disse, ao chegar, uma amiga brasileira que estivera lá.
 

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As semelhanças acabam aí. Primeiro, há a escala, que é passar de uma selva para um quintal. A ameixoeira é alta o bastante para eu ter de me pôr em bicos de pés, quando ato nela a minha rede carioca, mas no Cosme Velho seria impossível fazer isso em qualquer árvore, a bifurcação dos ramos começaria muito mais acima. E o diospireiro é tão baixo que tenho de me curvar sob a copa. Isto faz com que a rede fique numa espécie de ninho, com ramos mesmo em cima dela. No Rio, as copas eram muito lá em cima no céu, e o céu era enorme.
 

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Depois, a diferença de escala continua porta fora. Em Montemor, a rua tem a largura de passar um carro, o pavimento é de carroças, as casas são térreas ou com um primeiro piso, a roupa estendida entre duas janelas, quase beirando o chão, cordas e cordas de roupa à confiança. Impossível imaginar roupa estendida assim no Rio, nem numa favela. Uma cidade pequena, sem indústria, como Montemor, tem esta coisa de aldeia da roupa branca. E lá vamos nós, de solas rasas, pedras abaixo, entre filas de peúgas e as mulheres de um lado e do outro, bom dia, boa tarde. Por isso, quando morre alguém, o corpo atravessa as ruas com um cortejo atrás, eventualmente cavalos à frente, é coisa de todos. A morte, numa cidade pequena, não se esconde.
 

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E a gente anda a pé, faz tudo a pé, supermercado, farmácia, ginásio, rodoviária, restaurante, lavandaria, teatro, castelo. Andar a pé talvez seja o grande indicador para medir a diferença entre morar no Rio de Janeiro e morar em Montemor. Se andamos a pé é porque a escala permite. E isso significa, luxo supremo em 2014, nenhum engarrafamento.
 

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Também significa, em geral, silêncio, para quem se habitua aos galos e aos sinos. E trânsito e ruído são dois dos problemas principais do Rio de Janeiro, a par do dinheiro. É outra vantagem de morar numa pequena cidade alentejana: além das rendas serem mais baratas, gasta-se menos dinheiro, porque se compra menos, porque não há muito para comprar, além da comida. Para quem pode trabalhar por conta própria, morar no Alentejo é certamente uma opção menos capitalista do que esse íman do capitalismo tropical em que o Rio de Janeiro se tornou.
 

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Há empates. Numa pequena cidade alentejana, a carne, o azeite, o queijo, o vinho, o pão tendem a ser locais, ou regionais. Mas nisso o Rio também dá luta, com feirinhas de rua. Se o pão ou o vinho no Alentejo são melhores, no Alentejo não há tapioquinha nem água de coco, e por aí vai. Cada lado tem muito de seu por que puxar.
 

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Uma pequena cidade alentejana é um daqueles lugares de onde os jovens partem para arranjar trabalho, e quem vem de fora é mais ou menos artista, ou agricultor biológico. O Rio é mais ao contrário, atrai jovens em busca de trabalho e afasta artistas pobres para lugares mais baratos.
 

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Por isso, mas não só, numa pequena cidade alentejana tudo parece estar voltado para dentro e voltar-nos para dentro, como no Rio de Janeiro tudo parece estar voltado para fora e puxar-nos para fora. Não é apenas aquela inquietação das grandes cidades, de tudo o que se estará a passar naquele momento, mas a inquietação das cidades de rua, de floresta, de praia, como o Rio, cidades de estar ao ar livre. Carioca adora um pé fora, em todos os sentidos.
 

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Nenhum dos meus amigos cariocas que cresceram na Zona Sul mora fora da Zona Sul. Tenho amigos em vários outros bairros e em favelas, mas ou já cresceram aí, ou vieram de outro lugar. O que mostra como o Rio, dinástico por tradição, resiste àquele movimento, muito europeu, de saída dos bairros de origem para bairros antigos ou novos onde se produz uma nova energia. Claro que há gente que se instala, ou instala projectos, na Zona Norte ou em favelas como a Maré, até na mais longínqua Zona Oeste, mas é uma muito pequena minoria. Santa Teresa ainda será o mais perto de um bairro alternativo dentro do raio da Zona Sul, e longe vai o tempo em que era barato. Carioca da Zona Sul é carioca da Zona Sul, o que faz com que a Zona Sul seja uma grande aldeia. E, nesse sentido, se possa tornar tão claustrofóbica quanto uma cidade pequena.
 

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Aí, a desvantagem de Montemor é que não há 569 que nos leve à água em 10 minutos. Mudar do Rio de Janeiro para Montemor, finalmente, é desistir da água, seja Lagoa ou Atlântico Sul.
 

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Estou a escrever este texto na última semana que passo na sub-casa com quintal de Montemor-o-Novo, onde aliás é difícil alugar uma casa com quintal, talvez por todas as vantagens de que já falei, mais ficar a uma hora de Lisboa com boa estrada. A actual sub-casa é impraticável no Inverno, e talvez se tivesse achado outra não saísse de Montemor tão cedo, ou talvez não. Porque há outra coisa que Montemor tem em comum com o Rio de Janeiro, do meu ponto de vista nómada: o melhor de qualquer cidade, pequena ou grande, no interior ou no litoral, quase aldeia ou metrópole, é poder ir e vir, e estar tão à vontade na Travessa dos Almocreves, pisando calhaus do século XVIII, como na Vieira Souto, que é a avenida de Ipanema, certamente uma das mais caras do mundo. E aquilo que trazemos da Travessa dos Almocreves (calhaus e roupa branca e arcos em ogiva e silêncio cortado por sinos) nos fazer estar de outra forma no Rio de Janeiro, como ter estado no Rio de Janeiro nos faz estar de outra forma em Montemor. Ideal mesmo seria ninguém ser forçado a ir ou vir quando não quer, e não ser impedido de ir e vir quando quer.
 

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