Exame de tradução

Um artigo de Jacinto Lucas Pires

Na mesa do fundo o Tradutor folheia um calhamaço de capa vermelha. O título: Portugal Europeu. Agora levanta os olhos, faz sinal ao Empregado. “Bom dia”, diz. “Queria um disco branco de porcelana, com um recipiente branco de porcelana em cima, e dentro o habitual líquido negro, quente, aromático, intenso.”

“Sai uma bica!” grita o Empregado.
O Tradutor olha para nós.

É um homem da nossa idade, com os nossos olhos e o nosso modo de apoiar a cabeça num punho fechado. Acaba de receber um estudo de 600 páginas sobre os anos europeus de Portugal. Tem de traduzir aquilo tudo num prazo impossível. Mas traduzir números? E, já agora, traduzir para inglês, francês ou para tradução (a língua oficial da União Europeia, segundo Umberto Eco)?

Foi trabalhar para o café porque precisa de cafeína para traduzir muito e muito rápido, e também porque, em casa, a internet distrai-o (a percentagem de utilizadores de internet no país caiu da média europeia em 1999 para 28% abaixo da média em 2010) e o silêncio mete-lhe um bocadinho de medo (a percentagem de famílias sem filhos dependentes subiu para 90% da média europeia em 2010). O Empregado traz o café, o Tradutor lê. Nós olhamos pela janela ou para a reprodução da pintura famosa que estiver na parede e assim passa o tempo. Como quem acaba de ter uma ideia, o Tradutor levanta-se. Mas, afinal, vai só à casa de banho.

Em Portugal, o chamado “conforto da habitação” (leia-se “acesso a instalações sanitárias”) está precisamente na média europeia.

Na casa de banho, pára, incrédulo. Não se vê no espelho. Como é possível? O seu reflexo desapareceu. O homem toca até no espelho como quem não quer acreditar no que os olhos lhe dizem, mas, sim, não está lá, desapareceu.

De maneira que o Tradutor sai à procura de si mesmo. Vai pelas ruas perguntando às pessoas se viram alguém como ele. “Assim desta idade, com uns olhos destes e um modo de apoiar a cabeça num punho fechado que... Não?” Várias pessoas, de diferentes tipos e classes sociais, fazem que não com a cabeça. A proporção de portugueses a viver nas cidades tem crescido e é agora 21% mais alta do que a média da União Europeia. Pelo caminho, o homem espreita ou rouba livros para sacar citações fixes. Agora é uma senhora reformada, sentada num banco de jardim, que pousou ao lado um livro de contos de Tchékov. “A cidadezinha era pequena, pior que uma aldeia, habitada apenas por velhos que morriam tão raramente que era mesmo um desgosto.” Que frase, caramba. No Portugal de 2010, o índice de envelhecimento estava 6% acima da média europeia.

Mas não há maneira de o Tradutor encontrar o raio do reflexo. Vemo-lo agora de costas, afastando-se contra o sol, de regresso ao café, derrotado. Até que recebe um telefonema. Muito espantado, olha para nós sem saber o que fazer. “É o meu nome”, diz, apontando para o ecrã do aparelho. Pálido e hesitante como o homem só, o anti-herói, o protagonista passivo das histórias modernas. E de repente vêm-lhe à memória as palavras que leu de raspão na rua, ao passar por trás de um rapaz com ar de estrangeiro na paragem do autocarro, “...que pudesse responder ‘meu nome é eu’” (Clarice Lispector), e atende o telefonema de si mesmo. “Estou?” A voz do lado de lá diz-lhe para ir ter à biblioteca da aldeia Estatística. “Estatística?”, pergunta o Tradutor. A desigualdade entre regiões está melhor do que em 1999, mas ainda é demasiado alta (55% acima da média europeia). Tudo aquilo lhe parece muito esquisito, estranho demais. O nosso homem está muito nervoso. Toma outro café, fuma outro cigarro e depois mete-se no automóvel (em 2010, é já perceptível uma forte tendência de subida da emigração). Vai pela estrada secundária a acelerar.

Olhamo-lo do lugar do morto (o crescimento da população portuguesa, depois de uma grande subida na mudança de século, é agora muito baixo, mesmo comparando com a média do Velho Continente). Grandes planos das mãos no volante, do cigarro na boca, dos olhos transparentes. No rádio dá uma canção pop em que se fala de um futuro com mais política, mais imaginação, outra abertura. Uma canção sem rimas que diz que a democracia falha ao querer ser igualdade pelo mínimo, mas há-de vencer se se tornar a possibilidade de todos os máximos. Somos deuses, oh sim baby, somos todos deuses.

O homem vai doido a cortar curvas e, claro, tem um acidente. Despista-se, choca contra um sobreiro. Nesse momento o reflexo aparece-lhe no retrovisor. Um momento de perfeito silêncio. O Tradutor leva a mão à cabeça: sangue. Como é possível? O que vai ser dele agora? Do retrovisor, o reflexo informa-o (no tom de quem debita dados do estudo) que Portugal tem uma rede de auto-estradas espantosa, com uma densidade 86% acima da média europeia.

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