Uma Leitura da Europa Ou: Conrad, Nabokov, Lispector

José Tavares

Nascimento: Conrad, ou Józef Konrad Korzeniowski, nascido em 1857, educado como polaco na cidade de Berdichev, então parte da Rússia, hoje norte da Ucrânia. Vladimir Nabokov, esse sim, né Nabokov e Vladimirovich pelo pai, nascido em 1899 em São Petersburgo, no seio da última aristocracia europeia, pouco antes da sua queda. E Lispector, Clarice. Ou melhor: Haia Lispector, nascida em 1920 no vilarejo de Tchetchelnik na Ucrânia Ocidental, também parte da então Rússia imperial, e transplantada com menos de um ano para os trópicos de Maceió, Brasil Será possível entender algo da Europa através destes três europeus daquele Leste que quase escorrega para fora do sombreado das notas de euro, três escritores oriundos de uma Europa que adormeceu brevemente para lá da Cortina de Ferro, que se transformam impelidos por viagens extraordinárias para o outro, o outro europeu e o outro extra-europeu?

MOVIMENTO

Conrad viaja antes de escrever. Viaja muito. Os mares mundiais, a Ásia e a África e os comércios. Conrad é o antigo navegador transformado pelo pragmatismo do comércio em marinheiro europeu que, longe da obsessão por míticas baleias descoloridas, pratica a navegação que é instrumento do poder e da riqueza europeias. A sua baleia branca não é Moby Dick mas a escrita. Escrita que Conrad captura e domina, sem jamais se afundar. Conrad é o europeu que se desloca à superfície de um mundo então ferozmente exótico, preenchido por orientalismos inconscientes e habitado pela presença dominante, poderosa e irresponsável do europeu. Um mundo real em que a omnipresença natural do mar e da floresta, mais do que a dos próprios homens, interroga a presença europeia, o seu lugar e a sua calma em paragens estrangeiras.

Nabokov nasce na Rússia vasta e distraída da última aristocracia europeia. Uma aristocracia cujos representantes mais pequenos, mais infantis, ouviam das amas importadas do Ocidente o francês e o inglês. Uma aristocracia, no caso dos Nabokov, decididamente liberal, cujo ethos levaria Vladimir a abominar o “país dos sovietes”, enquanto a família se deslocava para Berlim, Paris, Londres, até descansar na vastidão norte-americana, regressando depois a essa miniatura emasculada de Europa que é a Suíça dos Alpes e das borboletas. Nabokov é o europeu das grandes altitudes, observador mas também caçador, sem contemplações. O europeu envelhecido, perversamente atento, que contempla em Lolita uma América jovem, poderosa e assustadoramente sexual. A América de Lola e Lolita, que sugere a fertilização popular do Ocidente, uma felicidade com o feminino que substitui, por baixo, a velha introspecção europeia e masculina.

Lispector muda-se para o Nordeste do Brasil com um ano e a família transporta nessa fuga apressada a memória dos pogroms leste-europeus. É à mãe, que viria a falecer em terras de Vera Cruz com a doença, rasto da violência de soldados europeus, que Clarice conta as suas primeiras histórias. Na pequena comunidade de onde escaparam os Lispector acreditava-se que uma gravidez curaria a doença. Lispector foi essa gravidez e as suas histórias esse princípio de literatura. A literatura de Lispector espelharia a busca perseverante da cura para uma violência e uma doença contraídas na Europa.

O OUTRO

Em Conrad a natureza é o personagem principal, e funciona por repetição, por sobrevivência, por entrelaçamento e revelação do que é humano. O Coração das Trevas oferece-nos a natureza como verdadeiro estrangeiro, um lugar onde o europeu se julga saqueador mas experimenta o contrário da redenção. As florestas do Congo de Conrad são seres vivos com uma imensa respiração a que não corresponde um coração, um ser calmamente feroz que revela a natureza humana, diga-se, a natureza europeia, do mal. Apocalypse Now, de Coppola, é o epílogo mais apropriado a esse coração das trevas, revisitando a queda de graça desse segundo ocidente americano que perdeu no Vietname. No Congo como no Vietname, a subida metafórica de um rio que é uma descida e uma descoberta de um inferno pessoal, privado, onde a luxúria da selva anuncia o fim dos futuros “europeus”. Por altura deste coração das trevas de Conrad, o seu amigo H.G.

Wells descreveria na sua A Guerra dos Mundos a ansiedade dos londrinos perante uma invasão luminosa de extraterrestres munidos de armas extraordinárias, que colocam a cosmopolita Londres no lugar exacto daquelas sociedades africanas e asiáticas inanimadas pela aterradoramente europeia metralhadora de repetição chamada Maxim.

A viagem de Nabokov é também uma descida da condição de privilegiado naquela velha Europa de amas e crianças tri ou tetralingues, a Europa dos grandes parques privados e das viagens de verão a Biarritz. A queda de Nabokov é pessoal mas não partilha de nenhuma amargura, uma descida para oeste que levará Nabokov até à plasticidade e democracia dos subúrbios americanos e de Lolita. Nabokov perde haveres e amigos, mas o que retém são saudades e ódios de estimação: ao país dos sovietes, uma aversão mais lúdica que política, uma saudade da Rússia que é mais saudade de uma paisagem do que de um lugar a que regressar. Nabokov é o europeu que se libertou com pequenos êxtases privados dos tiques aristocráticos, que alimentou a sua ironia com todos os personagens maiores da “civilização europeia”: os literatos, autores e críticos, os visionários, pequenos soviéticos de batas cinzentas, e até os arautos das novas ciências, como Freud e a sua psicanálise. Vladimir Nabokov é o europeu tranquilo que reconhece as forças poderosas, e tão pouco europeias, da sensualidade e da caça às borboletas.

Porquê uma Lispector europeia, se de um ano em diante ela é brasileira e de Haia resta Clarice? A literatura de Lispector é racional e emotiva, as duas coisas por debaixo da pele. É europeia em último grau na tentativa de ordenação de razão e sentir, uma literatura do espanto perante as possibilidades físicas do humano na América Latina. A literatura de um europeu que olha de fora e experimenta em silêncio as mundividências físicas dos “não-europeus”. Em contraste com Conrad, não é a natureza e a floresta e o mar quem revela a maldade do europeu e do poder; são o calor e o corpo não-europeu que sugerem o susto da sensualidade e da incompreensão. Lispector descobre no corpo a possibilidade de salvação do europeu no “exílio”. A maçã que Jerusalém ofereceu ao europeu, como símbolo do pecado original, e obscurecida, torna-se uma maçã no escuro. A paixão omnipresente, que se reflecte sobre a presença de baratas, é identificada com auxílio de iniciais, uma paixão segundo G.H., segundo C.L.

Lispector observa o corpo a partir de dentro, como Nabokov o espreita por fora. Clarice partilha a sua corporalidade, tornando-nos observadores espantados do seu interior. Nabokov, pelo contrário, torna-nos cúmplices do mesmo buraco de fechadura, acocorados ao seu lado numa posição que revela a nossa humanidade. Conrad não é do corpo, é da personalidade da paisagem. O mar, que em Conrad se torna universal e intencional, a floresta que cega, seduz e revela, esses são os dois corpos maiores de Conrad. Este europeu das viagens e do mundo, dos atropelos do outro, torna-se voyeur culto em Nabokov e voyeur permanente de si mesmo em Lispector. A famigerada consciência europeia em três encarnações sucessivas: mundo, os outros e, finalmente, nós mesmos. Um sumário breve da consciência europeia do contacto com o resto e consigo mesmos.

A natureza de Lispector abandona os mares antes europeus de Conrad, do fim do século dezanove e início do vinte, assim como o lazer e o ar livre de Nabokov, feito de borboletas e adolescências prolongadas. A natureza de Lispector é o mais humana possível, feita de vacas, cães, formigas e homens ontológicos, principalmente mulheres. É uma natureza que é toda humana por baixo, onde o olhar e as pausas animais escondem as mais ambíguas humanidades. As cidades sitiadas, o campo, as estrelas, não são para Lispector senão pretextos para descobrir humanidades. A abstracção dos grandes espaços abertos de Conrad e a omnipresença irónica dos desejos de Nabokov transforma-se em Lispector numa abstracção do humano que se revela verdadeiramente universal. Em Lispector uma humanidade confusa e sensível preenche todas as geografias, todas as coisas e animais. Há pouco de mais ecuménico e europeu que isto.

DUAS LIBERDADES

A primeira liberdade: a política, associada ao movimento. As tragédias genuinamente europeias e cosmopolitas, o totalitarismo e a violência sobre os outros não são explícitas em nenhum dos três escritores. Mas estão lá. A violência de Conrad é a mais antiga, a que resulta das bússolas, dos barcos e dos negócios armados dos europeus. Excessivamente confiantes na sua mobilidade cosmopolita, começam a ser confrontados com a sombra, as trevas que constituem o outro lado do comércio, do contacto com o outro. A viagem física e de amadurecimento de Nabokov distancia-o progressivamente da revolução e da utopia, do totalitarismo e, por fim, da própria Europa. A revolução bolchevique interrompe os passeios bucólicos do infante Nabokov, obriga-o a habitar uma Berlim pré-hitleriana onde a violência indiscriminada vitima o pai, assassinado numa conferência de exilados russos. Há algo de mais simbólico do desarmar do pensamento europeu perante as tempestades que se avizinhavam? Por fim Paris e Londres, nos alvores da Segunda Guerra, e o salto final, transatlântico, para a América que recebia gerações determinantes de intelectuais russos e alemães e tudo, fugidos a uma Europa em descida aos infernos, agora instalado nas salas de estar do continente. Perder a casa de família e a paisagem, perder o pai, abandonar a geografia fluida do continente europeu. A violência de que Lispector tenta escapar é ontológica, carregada como doença dentro da pele, aquele tipo de violência que nos encoraja a acreditar nas possibilidades mágicas de um recomeço. E mesmo nesses jovens trópicos, o espanto organizado de Lispector perante a construção de Brasília equivale ao culminar do cepticismo europeu perante os grandes projectos. Cepticismo que chega depois do imperialismo doente de Conrad, e depois da ironia como entretenimento e resposta ao totalitarismo, de Nabokov.

A segunda liberdade: a da língua, última fronteira. Conrad, Nabokov, e Lispector deslocaram-se para oeste e para sul. Conrad adoptou a língua dos ingleses, tornou-se um escritor maior numa língua não materna. Nabokov flirtou com o francês e por fim adoptou o inglês com as duas mãos. O seu feito, genuinamente europeu, foi o de escrever grande em russo e em inglês, uma encarnação exemplar e avant la lettre dos sonhos contemporâneos e burocráticos de fabricar europeus que se exprimem em duas línguas – serão três, agora? Também o português de Lispector, como o inglês de Conrad e de Nabokov, é uma “língua estrangeira”, feita do tipo de estranheza mais poderoso e reconfortante. Os três escritores conviveram com a língua como um estranho que a literatura transformou em amigo.

Que três europeus assim nascidos a leste, no que outrora foi Rússia, tenham caminhado tão valorosamente para oeste e para o interior do que significa ser humano, diz-nos muito dos limites da Europa, que serão sempre artificiais. A Europa onde primeiro se viveu a ideia de fronteira mas de onde emanou a cultura que ridiculariza todas as ideias de limite. A geografia do vazio permitiu aos Estados Unidos ensaiar politicamente o que os europeus – e por maioria de razão, Conrad, Nabokov e Lispector – tiveram de fazer contra e apesar da geografia. O destino manifesto da América é uma versão caricatural, mas grandiosa, da capacidade dos europeus para a viagem, os outros e a consciência de si mesmos. Viagem, exílio e observação. Conrad, Nabokov e Lispector foram europeus e fizeram literatura contra os limites e as fronteiras, em substituição do território. Nada de tão universal e europeu, nada que tanto urja tornar contemporâneo.

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