Aventuras e desventuras de se querer ser empresário

Quando tomámos a iniciativa, não queríamos ser empresários de sucesso nem grandes em- preendedores. De nós os três, só um estava empregado. A motivação era criar dois salários ao fim do mês.

Enquanto a Nova Democracia e o Syriza não formavam governo, a Espanha se recusava a pedir ajuda e o euro parecia colapsar, decidimos tirar o dinheiro do banco, ganhar coragem para abrir um negócio e acreditar no lucro das vendas do nosso artesanato.

Foi quando marcaram novas eleições na Grécia que vimos o anúncio da loja para alugar. Location, location, location, a rua era turística, a senhoria era simpática e a renda, podíamos pagá-la. Naquele cubículo todo sujo, íamos cumprir o futuro da economia portuguesa: valorizar os nossos recursos endógenos, criar valor acrescentado e aumentar as exportações, vendendo as nossas criações inovadoras e diferenciadas aos estrangeiros que passavam.

O desafio era renovar e abrir portas enquanto o Verão ainda trazia turistas. Para fazer as obras era preciso arrendar a loja. Para celebrar o contrato de arrendamento em nome da empresa era preciso constituir a nossa sociedade comercial.

A Empresa na Hora é fantástica. Levámos o cartão do cidadão e escolhemos a firma e o pacto para assinar entre os três. Trezentos e tal euros depois, éramos sócios gerentes de uma sociedade por quotas e estávamos devidamente instruídos para depositar o capital social no banco em cinco dias e para contratar o técnico oficial de contas (TOC) que entregasse a declaração de início de atividade nas finanças nos 15 dias seguintes.

No meio de toda esta modernização administrativa, a única dificuldade foi mesmo não mudar o objeto social quando nos deram para a mão aquela lista de nomes possíveis para a empresa. «Escapadinhas latinas»? «Desfile de traquinices»? «Bastidores da ternura»? «Quadrado amoroso»? «Pose gratificante»? «Gnomos e ninfas»? A sério, adorávamos saber: quem é que no Estado anda a propor firmas destas aos novos empresários do país?

Rumo ao banco para depositar o capital social e descobrir que a narrativa de criar uma empresa com um euro não é bem assim. Apesar de o montante do capital social ser agora livre, a abertura de uma conta bancária para o depositar continua a implicar muito mais.

Depois da abertura da empresa e da conta, o resto dos primeiros mil euros foi para contratar a nossa TOC, uma encarregada de educação obrigatória que nos elucida sobre o mundo real e as obrigações legais da contabilidade.

Enquanto ela discorria sobre o pagamento especial por conta (PEC) e o resultado líquido do período, sobre os custos e as perdas e a variação dos inventários, sobre o perigo de acharmos que o IVA é nosso, desliguei, olhei para a parede repleta de calendários e prazos de pagamento e compreendi finalmente o que é ser empresário.

Abrir uma empresa é predispor-se a pagar. Em vez de permanecer quieta, tinha acabado de entrar na corrida. Mal a sociedade é constituída, o contador é prontamente acionado e há logo segurança social e TOC para pagar todos os meses. Depois vem a renda, a água e a luz, o IVA, o PEC...

Não queríamos perder mais tempo até começar a lucrar. Tínhamos de abrir ao público o quanto antes para pagar as contas ao fim do mês. Mal assinámos o contrato de arrendamento da loja, corremos a gastar o resto do investimento nas paredes, no chão, na decoração e no stock para a loja.

A nosso favor tínhamos o Licenciamento Zero, criado um ano antes para “reduzir os encargos administrativos sobre os cidadãos e as empresas, mediante a eliminação de licenças, autorizações, validações, autenticações, certificações, atos emitidos na sequência de comunicações prévias com prazo, registos e outros atos permissivos”. Parecia rápido. Fomos à Câmara Municipal saber se ainda faltava algum papel para podermos abrir o nosso estabelecimento comercial.

Passado este tempo todo, ainda não consigo falar objectivamente sobre o que se passou depois de o Bruno Alves ter rematado à trave da baliza de Espanha. Entre deslocações à senhoria e à autarquia, demos conta de que a loja não podia abrir porque, embora ainda fosse loja, tinha entretanto a decorrer um processo para se converter numa casa e só depois de concluído o processo para converter a loja em casa é que poderia ser iniciado o processo para reconverter a casa em loja.

Enquanto Mario Draghi fazia aquele discurso do “whatever it takes” para salvar o euro, os três sócios faziam contas à vida. Tínhamos enterrado o dinheiro num beco sem saída.

Não sabíamos quantas semanas ou meses demoraria todo o processo loja-casa-loja. Não podíamos transferir o investimento já realizado na loja para outra loja. Só podíamos deixar de pagar à Segurança Social e à TOC se gastássemos o dinheiro que nos restava a fecharmos a empresa e a despedirmo-nos uns dos outros ao balcão da Dissolução e Liquidação na Hora.

Sem um botão “pause” à nossa disposição, passámos rapidamente da amizade à mágoa de pôr sempre mais dinheiro. Porque correu mal? Onde é que falhámos? Afinal não assinámos um contrato de aluguer de uma loja? Os advogados responderam que a razão estava do nosso lado, mas que a Justiça demoraria demasiado tempo até decidir sobre o assunto.

O ritual repetiu-se por tanto tempo que acabámos por perder a raiva e encontrar um estado mais zen. Todos os meses, com muita tranquilidade, pagávamos à TOC por serviços que não precisávamos, pagávamos à Segurança Social por salários que não recebíamos e indagávamos em qual dos edifícios camarários parava o nosso processo, não fosse faltar mais algum papel. Aguardávamos em paz. Um dia até encontrámos 20 euros à saída da autarquia.

O país discutiu a concessão da RTP, a privatização da TAP, a TSU, o aguenta, aguenta, a licenciatura do ministro, o Artur Baptista da Silva. Entretanto, os sócios gerentes de empresas passaram a descontar mais para a Segurança Social, mas ganharam o direito ao subsídio de desemprego. Foi quando o Tribunal Constitucional chumbou o corte do subsídio de férias a pensionistas e funcionários públicos que pudemos finalmente começar a trabalhar.

Hoje, quando olhamos uns para os outros, ainda não sabemos dizer se este espírito empresarial foi uma boa ou uma má ideia. Nem sequer se arriscámos em excesso ou se fomos demasiado prudentes para o negócio poder resultar. As emoções são como a montanha russa nesta pequena loja onde os clientes raramente chegam para pagar as contas todas.

Nas pequenas lojas que todos os dias abrem ao nosso lado, o sentimento não é diferente: somos patrões de nós próprios por necessidade, temos de arriscar, de esperar, de persistir e de acreditar que um dia o negócio vai descolar.

Li que a taxa de sobrevivência do comércio a retalho não pára de descer. Na Grande Lisboa, são cerca de 50% as lojas que mantêm as portas abertas ao fim de dois anos. Por outras palavras, é de um em dois a probabilidade de encerrarmos enquanto lê este anuário.

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