A minha Europa

Uma crónica de Maria Filomena Mónica

Nasci num tempo em que, para a maioria dos portugueses, o mundo se reduzia à sua aldeia. No meu caso, apenas existia Lisboa, cidade onde nascera e onde, aos sábados, gostava de ir ao Chiado, a fim de ver as lojas de tecidos, as mercearias ricas e as igrejas sumptuosas que a minha mãe conhecia como a palma da sua mão. Pelos meus sete anos, comecei a pensar que algures – não era por acaso que íamos sempre a uma loja chamada Paris em Lisboa – devia haver cidades mais sofisticadas do que Lisboa, mas não fazia ideia do que fosse viver na Europa, esse “lá fora”, de que ouvia falar ocasionalmente. Nos manuais do Ensino Primário, apenas nos mostravam um país enorme, o meu, que se estendia do Minho a Timor. Entre os sete e onze anos, pensei que fora uma sorte ter nascido aqui. A minha infância foi imaculadamente feliz. Era já adolescente quando, numas visitas organizadas pelas freiras do meu colégio a um bairro da lata, descobri que havia pobres. Nunca mais fui a mesma.
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